Círculos

que não tinha outro jeito, Ester aceitou o fato de ir ao encontro da filha que deveria passar pela avaliação do cirurgião plástico. Desde a cirurgia para implantação de silicone havia se passado um mês e durante este período, Flávia, não estava dirigindo. Assim viria do trabalho diretamente para o consultório aonde elas iriam se encontrar, participar da consulta e voltar pra casa.

Não fosse o fato da cirurgia, não haveria motivos para isso. Flávia é uma mulher adulta, ou pelo menos é o que se espera de alguém com 26 anos.

Neste momento o telefone tocou:

- Mãe?

...

- Você vem me encontrar?

...

- Tá, então até as quatro.

...

Aborrecida Ester consultou o relógio, felizmente era cedo - onze horas.

- Arre, ter de atravessar a cidade no meio da tarde. Pôxa! Ninguém merece! Será que não tinha nenhum cirurgião competente mais perto de casa?

E ainda contrariada, continuou a catalogar os livros recém entregues pelas editoras. Nem bem retornou ao trabalho o telefone tocou novamente. Mas desta vez era assunto profissional.

E as horas foram passando. A pequena livraria que leva seu nome fica próxima a sua casa, tem quinze anos e desde a inauguração conta com um público bem fiel. Inicialmente era apenas um sobrado, mas com muito bom gosto Ester o transformou. Então a antiga sala hoje é a recepção, onde fica mesinha, telefone, maquininhas para cartões, divisões para livros. Já onde teria sido a cozinha, resta a pia, como último vestígio, pois por todos os lados foram colocadas prateleiras e bem no meio do cômodo está o computador. Lá em cima ela manteve os sonhos. Sim. Pois são os dois antigos quartos, que se hoje não abrigam camas, abrigam livros em toda extensão das paredes. Livros de cima a baixo. Bem arejados! E é lá que pelo chão de taco, tapetes coloridos e puf’s, nas tardes de contos a criançada e os adultos se espalham e viajam. Um bom espaço! Gostoso! Nas janelas filtros de sonhos com suas penas balançando ao vento completam o cenário.

Ali, na antiga cozinha, com os livros empilhados ao seu redor Ester senta-se no chão, cruza as pernas e com a prancheta sobre elas anota um a um. Mas demora-se, pois sua mão desliza com suavidade pelas capas dos volumes, os dedos se perdem na textura dos papéis e os olhos distraem-se com a impressão. Ainda bem que conta com mais duas ajudantes, que na recepção dividem com ela o trabalho de catalogar os recém chegados.

Assim, entretida com o trabalho, a mulher se renova, esquece. O cheiro de livro novo lhe traz lembranças, recordações antigas. Lê pequenos trechos. Sonha! Finalmente o barulho da rua a alcança. E a algazarra das crianças saindo de uma das escolas próximas dali a traz de volta ao seu dia.

(Como seria bom se sobrasse um tempo para eu tomar um banho antes de sair.)

Mas quando olhou o relógio, viu que embora morasse na rua de baixo, o máximo que conseguiria seria comer alguma coisa rapidamente e trocar de roupa. E assim o fez.

Enquanto aquecia o prato no microondas foi se descalçando, tirando a blusa, abusando do desodorante. Quando o apito avisou que a comida estava quente Ester já estava vestida novamente. Uma calça preta substituiu o jeans da manhã e uma bata solta preta, com um pouco de brilho no decote completava a vestimenta.

(Gosto desta roupa me deixa mais magra).

Ainda descalça, com o prato na mão olhou sobre a mesa da sala em busca dos brincos.

(Onde larguei aquelas argolas!)

Mas retornou a cozinha onde se sentou para comer. De volta ao banheiro, escovou os dentes, penteou os cabelos loiros, na altura dos ombros e enquanto passava batom voltou a se preocupar com os brincos.

(Cadê, será que Flávia pegou?)

E movimento contínuo, esvaziou sobre a cômoda do quarto uma pequena caixa cheia de bijuterias.

As argolas grandes deslizaram sobre a madeira.

(Olha vocês aqui, disse a mulher enquanto passava perfume e tornava a se observar.) Calçou rapidamente os saltos eternamente altos e não disse nada, apenas sorriu com aprovação para a imagem refletida e saiu. Por certo atravessar a cidade no final da tarde não é um ato simples e aquele dia não foi diferente, o trânsito estava complicado e embora ela tivesse saído com antecedência percebeu que se atrasaria.

Então quase chegando ao endereço e pensando nas três vagas existentes na porta do consultório, e que dificilmente ficam desocupadas, optou por entrar uma travessa antes do endereço e estacionar. Conseguiu um lugar lá embaixo, no início da ladeira, trancou o carro, e fez toda a subida. Talvez uns 200 metros. Quando finalmente chegou não conseguia entrar na República do Líbano, a calçada acabava e os vasos de flor mais o poste que delimitavam o estacionamento do consultório, na esquina, exigiam que se passasse quase que pela rua. Então, ficou aguardando que o farol fechasse. Um tanto quanto distraída foi chamada atenção pela quantidade de buzinas. Não se via nada que justificasse, até que percebeu um carro prata parado na pista do meio. Aquele estardalhaço todo tinha como objetivo fazer aquele carro andar. Mas, preocupada com o horário, ainda tentou ver se a confusão iria permitir que ela fizesse o contorno. Não. Tinha mesmo de aguardar.

Só então olhou novamente o carro parado. E tornou a olhar. De dentro do carro uma mulher acenava insistentemente.

Ester olhou pra trás. Ninguém. Tornou a olhar o carro. A mulher buzinava e gesticulava em sua direção.

(Não pode ser.)

Mas era. A mulher dentro do carro que tentava fechar o da pista da direita acenava, para ela. E agora vinha em sua direção. Assustada Ester recuou, embora não tivesse para onde ir. E assim, quando o carro chegou próximo a ela, outra mulher no banco do passageiro abriu o vidro, estendeu-lhe um cartão e falou bem alto enquanto a motorista abaixava a cabeça e concordava.

- Olha, minha amiga disse que ficou muito impressionada com você. Nisso a motorista tomou a palavra.

- Olhe, gritou, estou vendo que você está passando por grandes problemas, por favor, me ligue. Eu sei que fui enviada para te ajudar. Eu vejo e compreendo toda a tua angústia.

- Que foi?

- Pegue vamos, disse a passageira, ela é uma pessoa muito espiritualizada.

- Me ligue, gritou novamente à motorista. Não deixe de ligar. Eu sei que posso te ajudar. Compreendo essa angústia como ninguém.

Não fosse pelas buzinas novamente, já que a mulher simplesmente parou o transito, Ester não teria pegado.

Mas não teve escapatória. Não conseguia passar, o transito caótico exigia que se resolvesse logo o assunto e então pegou. E ali ficou, parada, vendo o carro se distanciar.

Em um primeiro momento olhou-se. Estava bem vestida.

(Será que a roupa preta deu impressão de luto? Bobagem, hoje em dia nada significa nada. Os ritos foram deixados de lado.)

Já em outro instante leu o cartão que tinha nas mãos.

“Astróloga Vidente – Conselheira Orientadora – Pofessora Camila – Cura espiritual revela seu futuro, faz e desfaz qualquer trabalho, traz a pessoa amada na palma da mão a queda de lucro na sua lavoura, indústria e comércio, etc... Faça hoje mesmo sua consulta. Búzios, Taro, Cartas.”

E no final o telefone fixo, um celular e um número de rádio, todos de Campinas.

Ester não chegou a dar nem uma segunda olhada, o farol fechou, ela jogou o cartão na bolsa e entrou no consultório.

Como previsto, estava tudo bem, a consulta foi rápida e logo saiam mãe e filha para a rua. Desta vez menos agitada, Ester notava o transito intenso, e se perguntava por que uma pessoa se daria ao trabalho de escolher tão aleatoriamente alguém. Sim, por quê?

Até que gostaria de dar uma nova olhada no cartão, observar o papel, o timbre a escrita. Quem sabe essas informações lhe traçassem um perfil da mulher, que de cara, ela imaginava aproveitadora da boa fé alheia.

Por outro lado, pensando bem sobre o assunto o carro da dita cigana, era novo.

(Ta certo que não conheço muito sobre carros, mas um Honda é dos que custam mais que a maioria.)

De qualquer forma, não gostaria de partilhar o assunto com a filha, que tinha uma credulidade e curiosidade quanto às possibilidades de se falar hoje sobre o amanhã incríveis.

Mesmo assim não resistiu. E a filha se entusiasmou:

- Liga pra ela mãe, não custa nada. Quanto muito uma consulta, vamos lá. Quem sabe a gente tenha alguma surpresa agradável.

- Que surpresa agradável Flávia? E tirando o cartão da bolsa revirou-o nas mãos, Ester olhava o papel: boa impressão, escrita correta. Sem erros. É possível que alguém tenha o dom de avaliar ou saber coisas sobre o futuro? Ah! Claro que não, concluiu.

- Mãe, ela nunca te viu, nem viu teu carro nem nada. Como ela vai saber se você é pessoa de condições ou não... Pra mim ela percebeu que você é uma pessoa carente:

- Carente? Eu e toda a torcida Corintiana né? Deixa disso Flávia, ela jogou verde.

- Pode ser, mas porque você? Hein me diga? Parar o trânsito, fechar outros carros para uma provável cliente?

- Claro, eu quando aposto em uma nova escola para meus cadastros quase faço isso.

- Sim, mas não arrisca ter prejuízos amassando ou derrubando outra.

Em casa a conversa foi esquecida até o jantar, quando Flávia entusiasmada contou para o pai, que embora surpreso, concordou com a mulher.

- É enrolação mesmo. Os golpes estão mais refinados. Parar alguém na rua chama atenção. Não chamou a tua?

- Claro que chamou.

- E aquelas bandas têm muitos ciganos, nem todos vivem na rua.

Ainda assim Flávia era de opinião que a mãe devia ir escutar o que a mulher tinha a dizer. Então, mais tarde a sós com a mãe abriu o jogo.

- Veja só mãe, você não se dá conta, mas ultimamente quase não sai de casa. O pai só gosta mesmo de ver televisão. Você está cada dia mais enfronhada na livraria e nos livros. Isto é solidão. Quem sabe ela conhece ou pode te ajudar a achar a saída. Pensou, sacudir este marasmo todo?

- Ficar sozinho nem sempre tem a ver com solidão filha. Já pensou que eu talvez goste?

- Ah, não, você não. Olhe se quiser eu vou com você, está bem?

Antes de se deitar, Ester considerou as duas escolas que ainda não tinham retornado sobre a data da feira de livros. Até aquele momento, isso não tinha sido incomodo nenhum. Sempre acontece, as escolas se esquecem das datas e no último instante telefonam aflitas obrigando-a a encaixá-las na sua agenda. Mas hoje...

- Será que arranjaram outra livraria? Quem poderia ser? Aqui no bairro não conheço mais ninguém no ramo, só se as livrarias dos shoppings resolverem enveredar por este caminho. Duvido!

Mas neste momento seu olhar divagou, lembrando-se da cena na rua.

- Fui enviada para te ajudar...

Logo pela manhã, Ester entrou em contato com as duas escolas remanescentes. Nenhumas das duas tinham posição quanto à feira de livros. Atividades extracurriculares impossibilitavam, pelo menos por enquanto a montagem.

Tudo perfeitamente plausível, pensou Ester. E voltou ao trabalho.

E assim o mês transcorreu. Agitado. Rotina intensa. Então uma noite, sem conseguir dormir ela levantou-se e notou que o marido não estava na cama. Preocupada desceu as escadas a sua procura. Renato falava tranqüilo e alegremente ao telefone, porém quando a viu mudou, fez cara de preocupado, alterou o tom da conversa. Não tinha o hábito de perguntar ou investigar o marido, mas sentiu que não era normal. Então, quando ele desligou o telefone ela questionou.

- Quem era Renato?

- O chato do fornecedor de Campinas, lembra? Passei a tarde toda atrás dele e nada, me ligou agora. Você não dormiu ainda?

- Já, respondeu a mulher sentindo-se insegura. Mas o marido colocou o braço em seu ombro e ambos voltaram para o quarto. Antes de adormecer, Ester olhou o relógio... Duas horas da manhã. Ainda sonada pensou - que fornecedor liga de madrugada?

Só voltou a considerar o incidente no horário do almoço, quando mais relaxada tornou a pensar no horário. Nunca teve motivos pra duvidar do marido e também não era mulher de ciúmes. Mesmo assim achou estranho. Então passou a prestar atenção nele. Nos horários, nos telefonemas furtivos, nas poucas conversas que tinham. Sempre achou que este quadro fazia parte do tempo que estavam juntos. Quase trinta anos. Não é assim com todos? Embora incomodada também prestou atenção em si mesma. Não sentia disposição para investigar, de alguma forma, não lhe interessava. Por certo as eternas colocações de Flávia sobre seu casamento começavam a fazer sentido.

- Vocês nem parecem casados. Nunca estão juntos pra nada mãe. É verdade que não brigam, mas também não conversam. Que diferença faz?

(Se ela soubesse quanta verdade há nisso. Gosto do Renato, mas gosto mais de estar sozinha, com meus livros, no meu trabalho.)

Agora ela começava a sentir os espaços, grandes e solitários a sua volta. A avidez com que devorava histórias de triângulos amorosos, de relacionamentos complicados. A alegre possibilidade com que via o olhar de alguns homens completamente comprometidos.

(O que acontece comigo? Tudo me parece tão natural. Flavia tem toda razão, ando carente.)

Algum tempo depois ao sair de uma das escolas foi abordada pelo novo diretor. Um homem interessante pensou Ester. Também notou que muito embora o assunto fosse profissional a todo instante ele se mostrava sedutor.

- Como você sabe acabei de comprar esta escola. Tenho outra, mas pretendo me dedicar bastante a esta, gostaria muito de sua ajuda já que conhece bem o bairro e as escolas daqui... Quando finalmente o assunto acabou e ela se dispôs a sair veio o convite:

- Não gostaria de almoçar comigo? Poderíamos nos conhecer melhor, quem sabe bolar uma parceria?

Ato reflexo Ester olhou para a mão esquerda de Bernardo. A aliança brilhava por ali.

Mesmo assim, sustentando o olhar dele, aceitou o convite.

Já se tinha passado um bom tempo. Parada frente às prateleiras repletas de livros, Ester sentia, que de lá para cá, a sedução se tornou envolvimento. A mulher frente aos livros usava roupas coloridas e tinha brilho no olhar. As argolas grandes brilhavam ao sol, enquanto o cabelo agora cortado curto descobria uma nuca delicada. Enquanto olhava os novos títulos, esotéricos, sugeridos por Bernardo ela se dava conta de que realmente tinham feito uma parceria. Uma grande parceria.

Ainda pensava nisso quando o telefone tocou.

- Livraria Ester, bom dia!

- Quem está falando?

- Ester.

- É com você mesmo que eu quero falar. Eu sou Sandra esposa do Bernardo.

Silêncio.

O certo é que naquela noite, em casa, Ester procurou pelo cartão da Professora Camila e pela manhã ligou, bem cedo, marcando consulta.

Com certeza a voz do outro lado da linha era comum, o que lhe proporcionou tranqüilidade. Óbvio que não estava em um momento normal de sua vida, pois se estivesse, pensou, não estaria me lançando por caminhos tão improváveis. Mesmo assim, sentia que precisava deste amuleto, muleta, carta marcada, fosse o que fosse.

Então logo depois do almoço rumou para Campinas, afinal o horário da consulta estava marcado para as 16h00minh. Durante o percurso Ester se perguntava o que na verdade iria dizer a ela.

(Bobagens do tipo, devo ficar com Bernardo? Devo ficar no meu casamento? Acalmo este turbilhão que tem me rondado e volto à tranqüilidade do antigamente?)

Não, não iria perguntar nada. A adivinha era a tal da mulher.

(Ainda bem que tenho a livraria. Mesmo que nada dê certo, lá eu fico em paz. Sem dúvida, ela é meu único amante. Mas para este amor provavelmente não preciso de respostas, afinal mulher que procura cartomante quer é falar de homens, de sexo.

O que eu gostaria mesmo, mesmo é de saber o que diabo anda me acontecendo, nunca fui destas coisas, nem de crenças malucas e agora me vejo indo a outra cidade só porque uma cigana resolveu me tirar algum dinheiro?

Bem, na verdade, ultimamente tudo me empurra pra lá. (Por mim mesma, de caso pensado, jamais.)

Pois bem, ao chegar a Campinas, procurou e achou facilmente o endereço e teve segundo ela uma boa surpresa. A tal da professora Camila tinha uma casa normal.

(Será que eu esperava uma tenda?)

A mulher pensou e riu-se de sua imaginação, enquanto reparava no jardim bem cuidado, algumas árvores frutíferas no canto do muro com garrafinhas de água, penduradas, possivelmente doce, e pratinhos com pedaços de fruta. O muro nem alto nem baixo, deixava ver alem do jardim a escada que dava para uma antiga varanda, onde duas cadeiras e uma mesinha com um vaso de samambaia sobre ela completavam a decoração. Nada de gatos pretos dormindo ao sol ou rondando a casa.

(Realmente é como se eu estivesse entrando em casa de minha mãe, ainda bem, nada de objetos mágicos pendurados. Nem sinos, nem coisa nenhuma.)

Então, recompôs-se e tocou a campainha.

Logo uma moça jovem, abriu sorridente a porta.

- Boa tarde, eu tenho hora com a professora Camila.

- Ah, você é Ester, não é? Venha ela está esperando.

E descendo rapidamente os degraus, abriu o portão e se postou ao lado para que ela passasse.

(É a moça também parece normal, podia ser minha filha.)

Subiu os degraus, a jovem correu a sua frente escancarou a porta de entrada.

Não fosse pela mesa redonda e pequena no canto direito, próxima a janela, coberta com uma toalha de renda que ia até o tapete e as cartas dispostas sobre ela a sala era comum.

(Novos ciganos - pensou e sorriu.)

- Ester. A voz surgiu antes que a figura da mulher entrasse em seu campo de visão. Ela voltou os olhos, e na porta que dava para a parte interna da casa estava uma mulher alta, forte, de cabelos e olhos claros. Idade indefinida.

Nervosa, Ester nem se ateve muito à figura.

- Sim, sou eu, muito prazer.

- Você demorou a ligar. Aquele dia...

Então a cigana calou-se e deixou o olhar cair sobre as cartas que se encontravam sobre a mesa. Como se estivesse perdida em lembranças encaminhou-se até lá e sentou-se, voltou o olhar para Ester e com um gesto sugeriu que ela fizesse o mesmo.

- Você estava dizendo que naquele dia...

- É naquele dia eu vi em você a carta do enforcado.

- Como assim, e sua voz denotava preocupação.

- Você conhece as cartas do tarô Ester? Sabe o significado delas?

- Não, nada.

- Então vou colocá-las. Acho adequadas nesta situação porque o tarô pode revelar sempre um novo caminho ou uma nova postura frente ao que se pretende atingir. A mulher falava e embaralhava as cartas com tranqüilidade.

- Agora pense nelas como um alfabeto. Simbólico claro, composto por imagens arquetípicas que se baseiam na vida humana no que ela tem de mais complexo que é o sentido de começo meio fim. Ou entenda como preferir, um diagrama da vida, uma mensagem do inconsciente ou até a ponte entre o plano terrestre e o espiritual. Se você encarar assim, o tarô serve tanto para uma orientação psicológica ou terapêutica quanto para a adivinhação ou predição do futuro. Muita gente o considera fabuloso para o autoconhecimento.

Ester quase não a escutou seu pensamento estava em outra coisa que ela havia dito logo no começo:

- Não entendi porque a carta do enforcado? Me viu morta?

A mulher sorriu.

- Não, o enforcado é a carta do paralisador. O que vi foi uma pessoa paralisada, sem ação, sem ânimo. No mais completo desamparo. Como imagino que você tenha perguntas importantes para fazer, vou colocar apenas os arcanos maiores.

- Vamos lá, concentre-se. Agite seu inconsciente, pois é ele que vai tirar as cartas.

Sem dúvida o próximo minuto foi de silêncio completo. Claro que a consultante já não se sentia tão segura.

E mesmo assim foi tirando suas cartas...o enforcado, a Sacerdotisa, o mago, o eremita, a temperança e a lua. Evidente que sobre todas recebeu explicação e de certa forma se encaixavam realmente a sua pergunta interior, suas inseguranças, seus desejos secretos.

Assim durante muito tempo escutou, a voz da mulher vinha como que de outra era. Inclusive deixava bem claro, que falava sobre seu interior profundo, lado escuro, na história do sábio que cura a todos e não tem remédio pra si, falou em dosar sal e açúcar, conhecer melhor a si própria.

Antes de sair, Ester demorou-se um pouco, não sabia como perguntar o preço então na dúvida, tirou a carteira esperando que o gesto desencadeasse a conversa sobre o valor. Então ficou surpresa.

- Não, hoje você não paga. Só te enxerguei do meio da avenida porque me foi mostrada, a espiritualidade tem seu próprio trabalho e avisou que eu tinha de estar com você. É o ciclo da vida unindo as pessoas. Mas não se esqueça que mudanças internas provocam acontecimentos externos e estes provocam mudanças internas. E sem demora, sem dar tempo para que a mulher tentasse novamente, sorriu e rapidamente sumiu pela porta que dava acesso ao interior da casa. Nem bem a cigana deixou a sala e já a jovem que a recebeu apareceu e acompanhou até a porta.

O certo é que já se fazia noite, sózinha na calçada Ester experimentava um sentimento confuso, as informações eram muitas e novas para ela.

(O que foi mesmo que ela disse, que o tarô não é fechado, ele permite, alterar o curso das escolhas que se faz?)

E ela sentia que tinha de se utilizar desta chance que a vida teimava em lhe oferecer independente dela achar que precisava ou não.

Tudo ainda era muito vago e de volta para casa, teve dificuldade em conciliar o sono. O certo é que no dia seguinte, não se levantou ao toque do celular, deixou-se ficar na cama mais um pouco. E mais tarde quando passava manteiga no pão e tomava um gole de café, rememorava a conversa e se sujeitava a sensações corriqueiras. O gosto do sal da manteiga na língua. O calor da xícara de café, nas mãos. O barulho da rua. Fechou os olhos e ficou em silêncio, na casa quieta, povoada de suas inquietudes.

Só bem mais tarde retomou suas atividades, e aprimeira atitude foi ligar para Sandra e marcar o encontro pedido. Então ao final da tarde Sandra chegou acompanhada do marido, que se mostrava, pareceu a Ester diminuído de tamanho. Ou será que esta mulher é alta demais?

Quando a discussão se iníciou, dava para se perceber sim, o seu tamanho. Era alta, imponente, muito mais alta porque Bernardo não se fazia notar. Em nenhum momento se mostrou acanhada, não demonstrou saber nada dos sentimentos que uniam Bernardo e Ester em parceria. Simplesmente veio para propor a compra da livraria, já que o marido falava tanto de lá. Também gostava de livros e estava pensando em aplicar o dinheiro que lhe sobrava. Apenas o homem se mostrava quieto, incomodado, nem de longe lembrava o sedutor que a livreira conhecia. Sendo assim, Ester suspirou, agradeceu, e recusou. Durante algum tempo ficou na porta vendo os dois se afastarem. E ela seria capaz de jurar que, para sempre.

Sandra carregando seu falso troféu, satisfeita que fosse assim.

Já Ester, andou de prateleira em prateleira, mas o sentimento não era de vazio, era um sentimento novo de completude. Então começou a separar livro a livro aqueles que falavam sobre esoterismo.

Tinha poucos títulos e mesmo assim a idéia era daquele homem pequeno que saiu pela sua porta. Ainda escutava sua voz lhe dizendo, deixa de preconceito, esoterismo tem hoje muita procura.

Naquele dia quando fechou a livraria já passava das 22h00minh tinha passado todo o tempo olhando catálogos, anotando títulos. Em sua cabeça fervilhavam idéias. Sim era tempo de mudar, inclusive o nome da empresa, deixá-la um pouco menos familiar e um pouco mais integrada aos novos tempos. Durante todo o caminho de casa só fazia pensar nas mudanças.

(Não, Nova Era não, tem uma escola no bairro com este nome. Quem sabe “Às Graças“, não, podem achar que tem conotação religiosa. Quero a livraria aberta a um grande número de pessoas.)

Só quando entrou em casa deu-se conta de que estava às escuras.

(Por onde anda Renato? E instintivamente pegou o celular, apenas para constatar que ele não tinha ligado pra ela, ato contínuo, ligou pra ele.)

- Renato? Está tudo bem?

- Ester? Oi, sim está, por quê?

- Você já olhou o relógio?

- Nossa, nem tinha me dado conta. Está em casa?

- Estou - você demora?

- Não, em meia hora chego.

- Está tudo bem mesmo?

- Sim, tem janta pronta?

- Ainda não abri a geladeira, mas acredito que não.

- Eu levo uma pizza então. Tudo bem?

- Ótimo, vou tomar banho.

A mulher desligou o telefone, mas tinha uma sensação engasgada no peito.

(Não, ali tem coisa.)

E pensando no que poderia ser, abriu a porta e caminhando pela casa as escuras, dirigiu-se a seu quarto.

Apenas de uma coisa tinha certeza. Renato estava estranho, muito estranho.

Sem tatear pelas paredes, achou e acendeu a luz do abajur. Gostava da casa às escuras. Reconhecia-se, quem sabe precisava iniciar a prática de mergulhar também dentro de si mesma, nas suas profundidades, escuridões.

Como fazia todas as noites, abriu a gaveta da cômoda frente a sua cama e tirou sem olhar um pijama. Eram quase todos iguais - tecido leve de meia manga e pernas compridas. Independente da temperatura externa tinha a sua própria, sentia frio.

Em sua cabeça visualizou duas cartas de tarô, a lua e a sacerdotisa. As duas retratam uma jovem, e as duas falam sobre experiências no mundo do inconsciente.

(Talvez eu esteja mais para a carta da lua mesmo, credo, ando sem direção, não sei o que realmente sinto. O duro é essa ansiedade, parece que estou à espera que as coisas aconteçam pra que eu consiga enxergar novamente meu caminho. Se continuar assim tenho medo de morrer de tanta ansiedade.)

Realmente não era mulher de deixar as coisas acontecerem, tinha de fazer acontecer.

Rapidamente tirou a roupa e nua dirigiu-se ao banheiro. A água quente acalmava seu corpo e seus pensamentos.

(Aquela cigana me deixou sobressaltada, falou para si mesma enquanto o cheiro gostoso do sabonete impregnava sua pele.)

Mais tranqüila, enxugou-se, penteou os cabelos molhados e quando se virou para pegar o pijama percebeu movimento na porta e instintivamente gritou.

- Ester sou eu, quem poderia ser?

- Pôxa Renato, você sabe que me assusto?

- Que quer que eu faça, bati na porta, fiz barulho no quarto.

- Não ouvi.

Renato virou-se e saiu do banheiro de cara fechada. De cara fechada, Ester colocou o pijama e se dirigiu a cozinha.

Quando chegou o homem já arrumava os pratos sobre a mesa.

- O que está acontecendo Ester? Que mau humor é esse?

- Eu, e você?

- Agora pretende jogar a culpa do teu mau humor em mim né?

- Ta, então me diga por onde andou o dia todo e até essa hora?

- E você por onde andava?

Por um pequeno atalho, o caminho principal se desenhou, com queixas, culpas e lamentações dos dois lados. Onde você estava quando? Porque sempre estou só? Porque sempre tenho de resolver? Porque está sempre dormindo? Porque está sempre na televisão, porque, porque, por que...

Renato quase não alterou o tom de voz, Ester neste momento estava mais agressiva. Por certo ele já tinha alguém pensou a mulher e mais por impulso do que por raiva genuína perguntou?

- Quem é ela Renato? Eu conheço?

- Não Ester não existe ninguém, mas a pergunta é boa, quem é ele? Eu conheço?

Assim a discussão se estendeu por muito tempo, a pizza mal foi tocada, de olhos baixos, tanto um quanto outro estiveram espetando pedaços que eram cortados e recortados, simplesmente. Nunca chegaram à boca.

- Sabe de uma coisa Ester, acho que precisamos de um tempo.

Sem argumentos a mulher apenas levantou os olhos. Não gostava que as coisas tomassem esse rumo, mas pressentia o inevitável. Já fazia tempo que a conversa estava sendo deixada de lado. Não podia conceber que esses anos todos de convivência acabassem assim, frente ao prato de pizza, mas não tinha nenhuma vontade de arrancar os cabelos ou pedir pra reconsiderar.

Então passado algum tempo, começaram a falar. Não havia sequer mágoas para cobrar o outro. Impressionante. Nada havia para ser dito, e mesmo assim se falaram por longo tempo. A madrugada encontrou Ester na porta olhando enquanto Renato com uma pequena mala entrava no carro e saia.

Não conseguia identificar com clareza o sentimento que a assaltava, mas pressentia que este seria um ano de perdas.

Assim que o carro deixou os portões da casa, ela entrou, fechou a porta, foi para a cozinha. Colocou o restante da pizza em sacos plásticos próprios para congelamento, empilhou pratos, talheres e copos na pia sacudiu a toalha.

(Quem sabe amanhã consiga chorar, por hoje estou esvaziada. Ainda bem que Flávia esta viajando, vou ter um tempo para repensar sentimentos antes que ela retorne. Até lá vou tentar dosar meu sal e meu açúcar... A cigana antecipou minha parecença; naquela ocasião eu não estava nem um pouco paralisada. Hoje sim, não tenho ânimo para discutir ou saber se quero ou não aquela situação toda de volta.)

Sem escolhas, deitou-se e esperou que amanhecesse.

Quando clareou Ester trocou a roupa amarrotada e não voltou à cozinha, por enquanto iria tomar café na padaria próxima ao trabalho.

E os dias se sucederam, no começo evitou ao máximo voltar cedo para casa, a chegada de Flávia trouxe companhia novamente, mas não um novo alento.

- Acho que vocês demoraram muito mãe, faz tempo que estou avisando... Qualquer um via o que estava acontecendo, menos você.

Assim Ester voltou a se envolver com o trabalho, de Renato sentia falta quando jantava sozinha, ou quando acordava assustada no meio da noite. Amiúde se entretinha demais em meio aos livros até que passado um tempo Renato ligou:

- Oi Ester, queria saber como você está.

-...

- Olha, estava pensando em chamar a Flávia pra jantar, acho que está na hora da gente conversar.

- Acho que já deviam ter se falado. Faz tempo que estou esperando essa tua iniciativa.

- É você sabe como ela é comigo, sempre muito arredia, mas é minha filha, precisamos conversar.

- Arredia ela?

- Pronto, já vai você começar de novo.

- Claro Renato, você nunca toma a iniciativa de nada.

- E você toma todas, não é?

Daí para frente à discussão que até então tinha sido evitada explodiu, e nas outras vezes em que conversaram acabaram por brigar.

Após o segundo mês Renato ligou quase diariamente, como Ester estivesse calma, ela assim imaginou, ele começou a falar em vender a casa. Depois disso se deixou ver acompanhado. E a cada nova investida, muito longe de despertar ciúme reforçava nela a certeza de que realmente era hora de cuidar da própria vida.

Assim continuou revendo os títulos da livraria pesquisou sobre esoterismo e se viu encantada lendo e aprendendo sobre tarô, que por sua vez lhe remeteu a conceitos, novos, para ela, sobre psicologia.

Então os espaços foram reformulados, o público alvo começou a se modificar sem perder os anteriores, o movimento cresceu. Seu próprio espaço alterou. Flávia e o namorado que já vinham pensando em morar junto, concretizaram o ato.

(Será que foi essa solidão que a taróloga viu em mim? Mas esta não me pega, pelo contrário nunca me senti tão em paz. Ou foi esta mudança toda em minha volta que já se fazia notar e eu não via?)

Sobre sua mesa de trabalho cartões de terapeutas, era a filha, era a amiga, todos querendo que ela procurasse ajuda.

Por duas ou três vezes chegou a ligar marcando consulta para em seguida desmarcar. Não conseguia se imaginar falando sobre si mesma.

Mas sentia que precisava não apenas de leituras como vinha fazendo, mas de outras conversas. E assim após muito hesitar ligou e marcou retorno com a professora Camila.

Aquele caminho menos compromissado a deixava mais a vontade.

Algumas cartas se repetiram - a sacerdotisa, a lua, o eremita. A carta do sol era a grande novidade se contrapondo, pensava ela, a do enforcado.

Já tinha encomendado um livro que alem de falar sobre tarô mandava um conjunto de cartas. Estava fascinada.

Desta vez e de outras em que lá esteve se mostrou mais leve, assimilou com mais facilidade as palavras da mulher, e buscando nos livros foi encontrando ajuda.

(Sou pessoa do meu caminho.)

Com o passar do tempo, Renato também se aquietou, a posse que sentia em relação à mulher ia aos poucos sendo substituída, mesmo assim queria voltar ao conhecido.

(Não é possível pensou Ester, agora Renato deu pra me seguir, e dizendo isso parou na esquina da sua casa, só para confirmar se era mesmo o ex-marido. Depois destes meses todos, agora deu para me seguir. Qual é?)

Ostensivamente fixou o olhar no carro. Renato não teve jeito, não tinha como fingir não vê-la e assim parou.

- Estava passando por aqui...

- Ontem também não é? Porque não me chamou ou simplesmente foi até a livraria... Está precisando falar comigo? Se for sobre a venda da casa, pode ficar a vontade.

- Não, passei por aqui e queria saber se está tudo bem com você?

Assim a conversa se estendeu por uns dez minutos e deu a Ester uma certeza gostava e admirava Renato, mas não queria voltar. Talvez jamais houvesse se separado, mas aconteceu e ela estava bem assim. Flávia vinha insistindo para que ela saísse mais e se abrisse a novos relacionamentos.

- Mãe tem de arranjar alguém, sair, deixar rolar. Não precisa dar certo, precisa só te fazer bem.

Flávia insistia muito nisso, talvez até por se sentir culpada de ter saído de casa, mas Ester não pensava assim.

- Sabe filha agora o que mais quero é um apartamento pequeno, como eu tinha logo que me casei, até parece um círculo, uma retomada. É claro que um novo relacionamento seria bem bom. Mas sobre isso no que depender de mim... vou deixar acontecer.

- Cada vida corre no seu trilho. E estes trilhos são sempre circulares.

De volta à livraria ela só pensava nisso, círculos, circulares, onde tinha lido isso.

Então se lembrou - mandala, do sânscrito, significa círculo. Há quem acredite que seja uma representação geométrica do universo.

- Hum meu pequeno universo...

Foi procurar no dicionário e achou:

“segundo a teoria junguiana, círculo mágico que representa simbolicamente a luta pela unidade total do eu”



Enquanto o pedreiro terminava de colocar a placa colorida, Ester do outro lado da rua examinava o efeito do letreiro em forma de mandala onde se lia Círculos Livraria.

Já havia feito toda alteração necessária e de noite teria uma pequena recepção para alguns amigos e clientes chegados comunicando a mudança. Então ao atravessar a rua um carro parou e escutou uma voz lhe chamando.

-Ester? Lembra-se de mim.

Durante alguns momentos ela fixou os olhos até que a memória trouxesse a lembrança.

- Claro Marcio não é? Estudamos juntos no colegial.

- Namoramos no colegial é o que você não quis dizer? E riu um riso aberto.

- Sim, mas foi só um namorico.

- É, mas foi. Como vai você?

Ester olhava Marcio e em sua mente se desenhava à roda da fortuna. “E via tão claramente que era como se pudesse tocar as três mulheres sentadas dentro de uma caverna escura. A primeira é jovem e tece em uma roca dourada. A segunda é elegante e madura, e mede o comprimento de um fio entre as mãos. A terceira é de mais idade e segura um par de tesouras. No centro, entre elas, há uma roda dourada ao redor da qual quatro figuras humanas são colocadas em posições diferentes. Pela abertura da caverna um cenário com muito verde se deixa ver.”

- Que foi Ester?

- Nada, tem compromisso para esta noite?

Quando Marcio foi embora Ester correu para seus livros, procurou e achou a explicação sobre a roda da fortuna que via no antigo namorado. Dizia assim:

“Entretanto, a carta da Roda da Fortuna não diz respeito às mudanças bruscas da sorte, do acaso ou por acidente. Atrás da Roda estão as três moiras que planejam de maneira inteligente e organizada as aparentes mudanças aleatórias da vida. Essas figuras antigas estão dentro de nós, bem no fundo do útero do inconsciente, e não fazem parte da personalidade consciente. Nós somente às percebemos por meio dos efeitos externos que parecem ser obra do destino, mas que surgem das profundezas de nossa alma e não de um poder externo. Na realidade, a experiência da Roda da Fortuna é a vivência daquele “Outro” dentro de nós que, geralmente, projetamos no mundo exterior para poder culpar as pessoas, além de nós mesmos, pelas bruscas mudanças da sorte. O giro da Roda da Fortuna nos obriga a estarmos conscientes desse “Outro”, o movimento inteligente que está por trás da Roda e que é o destino que todos temos dentro de nós mesmos. A imagem da própria Roda é profunda, pois seu aro giratório assemelha-se ao cenário em constante movimento com o qual nos deparamos durante a vida; porém o eixo está sempre no centro, uma essência ou fonte constante e imutável. O eixo é como o “eu” oculto que “escolhe” voltar-se para as várias situações, acontecimentos, caminhos e pessoas. O Destino não vem ao nosso encontro; ao contrário, somos nós que nos dirigimos a ele”.

Ester apoiou o livro sobre a mesa. Pensativa, levantou-se, e olhando pela janela sorriu:

- A vida seria mesmo um círculo?

 

maria izabel