Descendo pelo ralo

Nada, nenhuma folha ou flor daquele quintal se mexia. Apenas o movimento das crianças brincando e correndo naquela manhã de verão na praia provocava algum deslocamento no ar.

Não era um dia de calor. E sim um dia de muito calor, na praia, onde provavelmente até os lagartos estariam abrigados, à sombra.

Mas as crianças, elas não, cumpriam os desígnios da infância.

Adelaide, dona da casa, acompanhava satisfeita a brincadeira dos pequenos. Muitos pequenos, duas meninas e quatro meninos, idade próxima. Aquela era sua família extensa com direito a avós, irmãos, sobrinhos e até os filhos dos mesmos. Pois seu núcleo resumia-se a ela, Leonardo o marido e um filho, quase casado.

Quase porque há muito era independente, o cabelo já trazia os primeiros fios brancos e tinha seu próprio espaço. Mesmo assim pelo menos um ou dois dias na semana gostava de voltar pra casa, jantar e ficar de conversas com a mãe.

O certo é que ali, na praia, o espaço era bom, a varanda permitia redes e mesas para abrigar do sol, a comida boa, e então a família se reunia, vez por outra para o churrasco e a conversa fácil.

Com a barriga encostada a pia Adelaide lavava o terceiro pé de alface. Não eram grandes e, portanto teria de acrescentar talvez alguns tomates, rabanetes e cebolas.

Enquanto se ocupava da salada sentia o calor da churrasqueira acesa um pouco atrás de onde estava e escutava a tagarelice dos homens.

Ali sobre a pia tábuas e pratos, onde a carne era cortada antes e depois de passar pelo fogo. Algumas cervejinhas e a batidinha de saquê que passava de mão em mão garantiam risadas.

É verdade que as mulheres conversavam assuntos bem variados e os homens apenas se cutucavam. Simplesmente gozavam uns aos outros pela falta dos cabelos, por causa das barrigas... Sim, aquela era sua família, cinco irmãos, seis ao todo com ela, e fosse porque fosse mantiveram-se unidos.

- Talvez realmente a gente goste da companhia uns dos outros, pensou.

O fato surpreendente, a bem da verdade era ela mesma, sempre tão alegre e disposta estava se tornando cada dia mais calada, embora ninguém tenha dado demonstração de ter percebido tal coisa. Afinal, era ela quem juntava todos, liberava a brincadeira dos pequenos, agitava. Felizmente ninguém havia se dado conta de que o barulho, a reunião que propiciava conversas, lhe permitia fazer o que mais gostava - ficar só, completamente esquecida, voltada para dentro.

- Dê, deixa que eu termine, vou colocar o arroz no fogo, propôs Rosana, morena alta, bonita, com tinta cobre recente pelos cabelos.

- Nossa disse Adelaide! Que lindo ficou seu cabelo. Sorrindo alegremente a moça virou a cabeça para que ela pudesse notá-los por inteiro.

- Realmente ficaram lindos reforçou, e escondeu o fato de que alguns fios brancos tinham se mostrado rebelde à tinta.

- Não se preocupe comigo, já estou no final, vá fazendo o arroz que termino. E assim dizendo continuou enquanto espiava as crianças correndo pelo quintal.

- Gosto muito de vê-los por aqui... E foi pensando nelas...

- Renato, tem linguicinha pronta?

- Claro tia.

- Ofereça pras crianças.

- Você é uma puxa saco delas, estão até entupidas de tanta tralha que comeram.

Porém chamou as crianças que nem se abalaram e continuaram na correria.

Com delicadeza a mulher arrumou a salada em duas travessas e quando cortava a cebola o marido chegou.

- Cebola? Não gosto de cebola.

Foi então que os homens reunidos na churrasqueira aproveitaram à deixa.

- Que viadagem, toda vez você diz a mesma coisa, muda o disco. Não come cebola é?

- Como outras coisas...

Então pronto, a risada generalizou-se. Sem sorrir Adelaide apertou com força à faca na cebola cortando de leve a palma da mão. Não emitiu nenhum som, mordeu os lábios, abaixou a mão dentro da cuba e deixou que a água lavasse o machucado. Apertou as cascas da cebola contra o ferimento. Se ardeu ela não demonstrou. Depois de algum tempo continuou discretamente o trabalho. Vez por outra pressionava a palma da mão contra a cuba fria.

" Acho que devia colocar um band-id."

Mas de cabeça baixa terminou de preparar as saladas e com as travessas na mão virou-se para o homem que ainda esperava. Em uma delas nenhuma cebola.

Já vitorioso o homem sorriu. Por outro lado, a mulher, voltando-se para a pia, acomodou as travessas e passou a lavar a louça. De um lado organizou as peças usadas, ainda pensando na possibilidade do band-id, mas abriu a torneira e disfarçadamente puxou a peneirinha que dificultava a saída da água. Enquanto passava o sabão antes de começar a lavagem, o marido retornou.

- Que mania você tem de tirar a peneirinha, quando entupir a pia, você vai ver.

Ato contínuo aproximou-se para recolocar a peça. A mulher sem se voltar barrou-lhe com os braços a passagem e virando a cabeça olhou fixamente para ele.

Talvez ele tenha sentido raiva, mas afastou-se.

- É sempre a mesma coisa, você vai conseguir entupir a pia.

Ninguém lhe deu atenção. Assim a mulher continuou lavando a louça e vez por outra recolocava a peneirinha no lugar, querendo restabelecer o vínculo. Mas a água que escorria abundante cheia de sabão e gordura se debatia nos furos, afetava o pequeno corte.

" Onde será que estão os band-ids..."

De longe ele a observava. Sem levantar a cabeça ela o pressentia. Já estavam casados há muito tempo, tempo demais, e os confrontos, pequenos e repetitivos há muito se tornaram um hábito. Quem sabe se tivesse passado pelas Pontes de Madison, se a chuva tivesse caído com força numa tarde qualquer...Mas nada, nem tinha certeza se os band-id comprados não eram infantis, daqueles cheios de bichinhos.

Então da pia para as mesas, contando e recontando pratos e talheres, pois ele fazia questão que todos se sentassem para as refeições ela se esqueceu dos detalhes, pequenos, como sempre. Mas não se esqueceu do corte, da proteção do curativo que não tinha colocado ainda. E automaticamente distribuiu os guardanapos pelos pratos se esquecendo de deixar a sobra pela mesa.

Quando ia se sentar lembrou-se, já estava afastando a cadeira para ir buscar quando o marido retrucou. Onde estão os guardanapos?

Nada, nenhuma folha ou flor daquele quintal se mexia.

Então Adelaide se dirigiu à cozinha, de um pequeno estojo guardado em uma das gavetas retirou um retângulo de papel e colocou na palma da mão, em seguida saiu pelo portão lateral, soltou as havaianas dos pés e descalça desceu a rua em direção ao mar.

 

maria izabel