No fundo da mala

Quando Eulália escutou a amiga na secretária eletrônica , precisou conter o impulso de desligar.

Evidentemente contrariada, resmungou baixinho:

- Credo, esse pessoal não desiste!

Por outro lado a voz que se ouvia tinha um tom divertido e suplicante...

-... Eulália, estamos dependendo de você. Ontem, falei com as outras e elas disseram que, ou vamos todas, ou nada feito. Anda Eulália, liga pra gente. Vamos conversar sobre isso...

Impaciente a mulher apagou o recado. Durante toda a semana tinha evitado essa conversa. Graças a deus inventaram o bina. Se o número fosse delas, não atendia e pronto. Quem sabe desistiriam.

Assim pensando voltou ao trabalho cuidadoso de reorganizar o armário de roupas. Ainda bem que já havia separado blusas e camisas por cores e tamanho das mangas. Agora bastava passar um pano úmido no interior do roupeiro, secar e colocar os cabides que certamente ficariam virados todos para o lado direito. De qualquer modo tinha serviço para aquela manhã de sábado, pois ainda não tinha selecionado as saias longas e curtas e a gaveta com as camisetas precisava de atenção, afinal uma ou outra cor não tinha voltado ao lugar correto. E a culpada disso tudo era Dona Maria que resolveu guardar suas roupas mesmo sabendo que ela não gostava que ninguém tocasse em suas gavetas.

Fosse como fosse, até a hora do almoço, tudo estaria nos conformes. E o degrade nas gavetas, restabelecido.

Completamente entretida Eulália quase gritou quando ouviu a campainha:

- Nossa, será que não escutei o interfone? Ah não! Isso é coisa do síndico, mas se for pra falar de reunião, estou fora. É sempre a mesma coisa.

Mas, não era o síndico. Em frente à porta as amigas que ela tinha evitado durante toda a semana; Cristina, Elisa e Cidinha.

- Surpresa! Gritaram as três alegremente mostrando uma cesta de café da manhã. Ainda bem que te pegamos em casa.

Embora despachadas nenhuma delas se mostrou invasiva e permaneceram paradas à porta esperando que a outra se refizesse do susto e quem sabe convidasse a entrar.

- Nossa, retrucou Eulália sem conseguir se conter. O porteiro não estava lá embaixo?

- Claro que sim mas dissemos, que foi seu aniversário e como tínhamos esquecido queríamos fazer uma surpresa.

- Ah, e ele deixou vocês entrarem?

- E porque não deixaria, nos conhece há tantos anos...Esqueceu que eu também morei aqui respondeu Elisa.

Eulália ainda pensou em continuar na porta, mas o silêncio que se seguiu pedia uma atitude e ainda que cheia de manias gostava destas únicas amigas que sobreviveram a elas.

- Entrem, vamos tomar este café então.

- Ai que ótimo, estava querendo mesmo um cafezinho, respondeu Cristina, já se sentando.

Se os modos da dona da casa eram secos, os das visitantes eram alegres e barulhentos.

Em poucos instantes já tinham aberto a cesta e espalhados os pertences sobre a mesa.

Enquanto o café passava Cidinha abriu o jogo:

- Eulália, vamos falar sem rodeios? A semana toda tentamos falar com você, e nada.

Então viemos aqui porque o rapaz da agência de viagem garantiu a reserva até segunda pela manhã e depois de muita conversa nós resolvemos o seguinte. Se você não for, também não vamos.

O silêncio tomou conta da sala por alguns instantes.

Eulália se dirigiu a cozinha com passos lentos, sem pressa. E apenas quando colocou o bule sobre a mesa voltou ao assunto:

- Olha, porque isso de não ir sem mim? Ultimamente tenho receio de avião e além do mais não gosto de sair de casa. Sendo assim, aproveitem, quando voltarem, prometo que vou estar no aeroporto esperando. Está bem assim?

- Sim, se é sua decisão retrucou Cristina, claro que está. E pegando do celular começou a discar.

Como quem não quer nada Elisa comentou baixinho, mas de forma que todas escutassem:

- Como foi ela quem tratou tudo lá na agência, ela que vai ter de fazer o cancelamento...

- Cancelamento ?

- Ora Eulália, nós tínhamos falado. Ou vamos todas, ou ninguém. Não foi o combinado?

- Gente espere um pouco, Cristina desligue o telefone... Olha vocês estão forçando, eu não quero ir, vão vocês, não nasceram grudadas em mim.

- Claro que não, mas você disse que iria viajar conosco. Faz mais de dez anos que não saímos apenas nós quatro. Oxa Eulália, nós temos marido, filhos pra driblar. Você não tem de prestar contas a ninguém. A firma é tua, sai de férias quando quer. Nós não... Foi um malabarismo pra combinar as férias de todas e agora dá pra trás. Qual o problema?

Durante algum tempo o bate boca foi acalorado até que finalmente e após uma montanha de nãos as amigas mobilizadas obtiveram um sim. Pequeno e tão baixo que só foi compreendido porque estava incorporado ao inconsciente coletivo de todas elas.

Então apaziguadas sentaram-se para brindar com café e durante todo o tempo o clima foi de confraternização. Apenas Eulália se mantinha calada.

Sim, ela havia concordado, nada mais lhe restava fazer, mas daí a estar satisfeita, a distância era imensa...

Em verdade não havia nada demais, era apenas e tão somente uma viagem. Sim uma viagem a Itacaré em Ilhéus. E a proposta desta cidade tinha partido da própria Eulália, que em outra ocasião esteve por lá e se apaixonou pela cidadezinha calma, tranqüila com praias lindas.

Mas agora, neste exato momento só queria que este bando barulhento fosse embora de sua casa. Afinal tinha dúzias de cabides esperando por ela.

Mas a informação fornecida pela Elisa em seguida ajudou a acalmá-la.

- Ah, parece que fomos contempladas com quartos individuais, não é isso Cristina?

- Bem, na verdade demoramos tanto que só conseguimos vaga em uma pousada de ecoturismo, parece que eles tem uma casa com seis quartos individuais, então, quatro são nossos.

- Como é isso?

- Pére que vou pegar o panfleto e ler pra vocês. Mas fiquem tranqüilas, vi as fotos, o lugar é muito bonito.

- Ah veja só:

“A Ecovillage blá, blá, blá totalmente integrados a natureza, blá blá blá... um lugar onde as pessoas podem experimentar o milagre da vida... Acomodação:

2 cabanas em frente à praia, com capacidade para 2 até 4 pessoas cada;
2 chalés com 2 apartamentos cada;
2 chalés com 4 suítes (quarto com banheiro);
É aqui
1 casa com 6 suítes (quarto com banheiro);

- Cristina, isto parece coisa de bicho grilo.

- Quem mandou demorar tanto, só sobrou esta pousada, e ainda bem que a gente conseguiu, mais um dia, e nem passear com os bichos grilos a gente iria poder.

- Tá certo disse Elisa, significa que a gente vai poder, conversar, rir sem muita gente por perto.

- Ah disse Cidinha, eu estava louca pra ter muita gente por perto.

Reticente. Assim Eulália se manteve. De qualquer forma no mesmo dia, logo que terminou a arrumação, tirou uma mala de tamanho médio, azul-marinho, colocou-a ao sol, lavou, secou e desde então todos os dias separava e selecionava peças de roupas que considerava adequada à viagem. Algumas blusinhas de alças largas e clássicas para combinar com duas saias longas bem básicas... Preta e bege.

Eulália é uma mulher jovem, 40 anos. Mas desde a morte dos pais ainda menina, tornou-se ensimesmada. Mesmo adulta, o quadro não mudou. Pelo contrário, acentuou.

O fato de ter sido,ela e o irmão, quatro anos mais velho, criados pelos avós maternos, certamente contribuiu com esse isolamento. Evidente que eram netos adorados, mas desde que tudo aconteceu, e até a adolescência eles conviveram muito mais com doenças do que com saúde. É certo também que deles herdaram um pequeno patrimônio que lhes permite viver com tranqüilidade, mesmo assim, há dez anos começaram uma firma de embalagens plásticas. Enquanto Eulália lida com os detalhes de moldes e perfeição do que é feito, Rodrigo o irmão faz as vendas. São harmoniosos no trabalho e a firma, vai bem, obrigada.

Mas, a moça, é como se tivesse empestada de velhice. Sempre vestida sobriamente , o que não valoriza seus olhos verdes e sua pele clara. Pelo contrário a roupa parece fundir-se nela e é como se uma alma deslizasse pelas ruas. Quem sabe uma alma penada...Não chama atenção nem quando fala. Também fala pouco e com muito pouca gente. Talvez por isso tenha concordado, estas amigas, é todo seu contato com um mundo rápido e colorido. Sempre por perto, sempre felizes. Só ela solitária e triste.

Ainda no dia da viagem, pela manhã, revisou a mala. Algumas bermudas em tom neutro, as duas saias longas, 2 sunquinis pretos, blusinhas de alças largas, calças compridas de tecido leve e mais algumas peças. Perfeito! Não era de seu feitio esquecer-se de nada, nem das fitas coloridas para distinguir rapidamente sua bagagem das demais na esteira do aeroporto. Só que desta vez Cidinha fez questão de comprar fitas para todas. E a ela coube os tons verde e amarelo. Que coisa mais chamativa, pensou Eulália, de qualquer forma, quando entregou a mala era assim que ela se encontrava – bem brasileirinha.

Antes que a esteira engolisse a bagagem Eulália teve vontade de arrancar aquele laço.

Não parecia, ele foi feito de qualquer maneira, sem as suas delicadezas nem de escolhas de tom, nem de simetria, uma ponta mais comprida que outra. Completamente desleixado. Por alguns instantes ela acariciou o fecho da bolsa onde trazia cuidadosamente embrulhadas outras fitas. Em seda, cores suaves. Que certamente a distinguiriam das demais. Mas qual, rapidamente o laço sumiu e sentiu suas pernas abraçadas por duas mãozinhas.

- Tia Lala.

A vozinha infantil afastou suas preocupações e ela se encheu de ternura.

- Oi meu querido, que está fazendo aqui?

Enquanto pegava o menino ao colo virou-se e deu de cara com o irmão e a cunhada.

- Viemos ter certeza que você vai passear.

- Ah, estavam duvidando?

- Não, mas de qualquer forma viemos conferir.

Ao grupo, juntaram-se as famílias das outras mulheres e a conversa se manteve animada.

Quando saíram para tomar um café, Rodrigo, irmão de Eulália acomodou-se perto dela no balcão e disse baixo mas firme.

- Olhe, viaje tranqüila, sei que está preocupada com os novos modelos de embalagens plásticas, mas eles disseram que podem esperar você chegar. Até lá vou segurando as vendas ok?

- Fico aliviada, esses moldes são caros e delicados, se não forem bem feitos vamos perder o cliente. Se não se importa, gosto de verificar pessoalmente.

- Claro que não, você sabe que sou leigo no detalhe, meu negócio são as vendas mesmo, e dizendo isso sorriu e se despediu da irmã. Logo todos fizeram o mesmo e finalmente as quatro se dirigiram ao portão de embarque.

- Credo comentou Cristina, achei que esse povo não ia embora nunca mais. Não vejo a hora de chegarmos em Ilhéus. Meninas nada de ficarem chorando toda a noite com saudades de casa, está bem? Qualquer coisa, como médica eu recomendo uma boa terapia, procurar os surfistas, combinado?

Todas riram, afinal, com exceção de Eulália, o que mais queriam era sair de férias.

- Se eu chorar, disse Elisa, mandem me internar.

Assim a viagem transcorreu normal, vôo lotado.Quando finalmente chegaram a Ilhéus, a responsável pelos laços, se postou frente às esteiras e recolheu a bagagem, Elisa um pouco atrás da multidão, munida de um carrinho, recebia as que Cidinha puxava entre tantas e as empilhava. Pra não ser chamada de chata Eulália ficou de longe, irritada por ver sua mala, que nem parecia sua tão amassada entre as outras. Mas não tinha dúvida - azul-marinho, média e brasileirinha daquele jeito... O que ela não viu, é que muitas voltas depois, outra mala circulou pela esteira, igualmente azul-marinho, igualmente verde e amarela, voltas e mais voltas. Bem o caminho foi longo, o tal hotel, que na verdade nada mais era que uma pousada de ecoturismo, ficava a 60 km de Ilhéus. O acesso era feito pela travessia do Rio de Contas com a balsa local, e depois a direita um longo caminho de terra.

Completamente encantadas com o lugar foram se deixando envolver pela fala do guia que a essa altura, ciente de que era senhor da situação anunciava em voz cantada, seu discurso mais de uma vez repetido. É claro que quase nada escutaram.

“A Ecovillage nasceu do sonho de um grupo de pessoas de viver totalmente integradas à natureza, blá blá blá... um lugar onde se pode experimentar o milagre blá,blá,blá. Os chalés e casas são construídos de maneira totalmente natural com madeira, adobe, e cobertura de piaçava. São rústicos, porém, espaçosos e confortáveis. Usamos energia solar para eletricidadee contamos também com um espaçoso restaurante totalmente voltado para o mar, onde servimos uma deliciosa comida natural. O ambiente foi projetado para uma vida em harmonia com os elementos, sendo um espaço ideal para workshops, conferências, casamentos espirituais. Etc...etc...etc... sala de terapias, salas em frente ao rio, cinema, biblioteca, sauna a lenha, tapetes de yoga, almofadas de meditação.

- Gente, o cara falou em tapetes de yoga?

- Acho que sim, e casamentos espirituais também. Ô Cristina, você não trouxe a gente pra um retiro não, né?

O guia continuava... Só que agora tinha toda atenção possível por parte delas:

- “Há lugares no mundo onde a alma repousa e o espírito se liberta, lugares onde esquecemos as preocupações que nos atormentam e os sonhos voltam a nos desafiar. Há lugares onde a paz nos encontra e serenamente se instala dentro de nós...Há lugares onde reinam somente o mar, os coqueiros, as estrelas e o sol, onde podemos nos retirar do mundo, tão cheio de tudo e de nada, para nos encontrarmos com o que é verdadeiro e belo, com a simplicidade e o encanto da natureza virgem. Aqui é um destes lugares sagrados, onde a magia nos envolve e o silêncio nos embala. Integrada entre a mata Atlântica verde esmeralda e o mar azul celeste, A ecovillage é esquecida pelos homens e abençoada pelos deuses. Sejam muito bem vindos.”

Cristina se defendia:

- Gente tenho certeza, o pacote que comprei incluía surfistas... Mas sabe de uma coisa, com esta fala, esta voz , esse bronzeado, acho que não me importo se meu espírito ficar bem liberto.

- Mais? Retrucou Elisa, e todas caíram na gargalhada. Eulália ainda se mostrava reticente, mas a paisagem, aquele cheiro de maresia, o calor começava a deixá-la um pouco mais à vontade, rindo com as outras.

Então, já no presumido hotel , tinham ficado com quatro, dos seis quartos que havia dentro da casa.

- Gente, que lugar mais lindo.

Cidinha foi a primeira a observar:

- Vocês repararam que a maioria do pessoal que veio com a gente ta mais pra bicho grilo? E com um ar um tanto quanto receoso, correu a dar as ordens sobre as malas...

- É disse Elisa, melhor a gente começar a ver quem vai fornecer os baseados...

- Nem precisa, retrucou Cristina tenho a impressão que o fumacê vai ser tão grande que vamos fumar por osmose.

Tão distraídas na brincadeira nem notaram que o atendente da pousada já as aguardava para entrega das chaves:

- Namastê!

- Sejam muito bem vindas, qualquer coisa que precisarem é só dizer, as bagagens já foram levadas orientadas pela Dona Cidinha.

Então, quando Eulália se viu sozinha no quarto, tirou os sapatos e se acomodou no meio da cama e com os olhos fez o reconhecimento do lugar.

Como anunciado, quarto grande, pé direito alto. Pintada em tons de verde claro na parede do lado direito uma longa porta balcão que certamente servia de passagem para a varanda e areia do mar. Naquele momento era impossível precisar , apenas uma pequena fresta da janela se deixava entrever pois as cortinas pesadas com o tal do blecaute se fechavam sobre ela.

Do outro lado, à esquerda, sobre o aparador , um arranjo com frutas coloridas, telefone e encartes do hotel, por baixo dele uma pequena geladeira e ao lado a porta do banheiro. Mas nem teve tempo de olhar as mesinhas laterais cheias do artesanato regional. Sem desviar, seu olhar se fixava na mala acomodada sobre uma mesinha.

- Que mala é aquela?

E levantando-se de um salto percorreu o pequeno espaço que as separava.

Tudo bem, os laços mal feitos e brasileirinhos iguais, a cor, azul marinho, mas aquela não era a sua mala.

- Como aconteceu isso?

Apesar da apreensão , decidiu-se por verificar antes de soar o alarme. Mas sim, não havia dúvidas, parecida, mas não a sua.

Pronto, era o que faltava. Rapidamente interfonou para a recepção que antes de qualquer coisa a irritou:

- A senhora tem certeza que não é a sua mala?

- ...

- Olhe, esta madrugada soprou o noroeste e nossa comunicação ficou afetada, acredito que no começo da tarde esteja restabelecida e eu comunicarei ao aeroporto.

Sem poder fazer nada, Eulália foi ter com as amigas.

Cidinha ficou inconformada.

- Putz, logo a sua Eulália? De qualquer forma vá usando roupa nossa até essa situação se resolver.

- Claro, responderam todas. Mas como já estava na hora do almoço à moça agradeceu e disse que por enquanto não precisava, uma chuveirada seria o suficiente.

Mesmo assim após o banho Eulália optou por vestir a calcinha do avesso.

Final de tarde e nada resolvido, em seu quarto com a mesma roupa da viagem e agora descalça, ela aguardava.

Quase hora do jantar e o atendente pela décima vez lhe garantia que conseguiu avisar o aeroporto pelo rádio mas que até ali ninguém havia reclamado e nada estava sobrando.

- Como assim , pensava enquanto dava voltas frente àquela maldita mala que ali permanecia quieta, à espreita. Ninguém reclamando, nada sobrando?

Ela olhava aquela bagagem sobre a mesinha,já conhecedora dos detalhes, percebendo onde a cor azul se encontrava começando a desbotar.

- Não acredito, o dono não se deu sequer ao trabalho de colocar um cadeado. Mesmo assim não tocava nela.

Sobre a cama algumas peças esquecidas de roupas que as amigas insistiam.

- Eu quero o que é meu. O que me dá raiva é que tenho certeza, se quem ficou com minha mala for uma mulher, desleixada como se vê, aposto que já está por ai usando minhas coisas.

Só de pensar Eulália se irritou e por conta disto aquela noite não jantou. Não houve pedidos, brincadeiras ou explicações que a fizessem mudar de idéia. Quem sabe o dia seguinte trouxesse a solução. Só que, contrariando os prognósticos a manhã acordou chuvosa. Cinza!

Aquela mala azul, desconhecida, brasileirinha e sem cadeado pesava dentro do quarto.

Eulália não conseguia tirar os olhos dela. Por várias vezes se achegou, mas não a tocava.

Provavelmente o noroeste iria soprar mais um dia e ela não se sentia confortável em seus trajes suados.É certo que durante a noite colocou a roupa para arejar, e pela primeira vez dormiu nua. Mas agora sentia o cheiro da chuva, a brisa fresca e ela completamente inadequada enrolada na toalha de banho.

O fato é que a mala ali estava. Possivelmente trancada já que não estava protegida por cadeados. Num impulso testou a tampa, a trava era simples, puxou por elas e com surpresa constatou:

- Aberta? Não usou nem chave?

Rapidamente tornou a fechar, sentia o rosto queimar, como se todos tivessem presenciado seu gesto. E novamente ligou na recepção. Ninguém havia reclamado ou devolvido nada.

De volta à mala, sentindo-se com um pouco mais de direito, tornou a abri-la.

Sem tocar, só olhando, Eulália comprovou sua tese:

Certamente, uma mulher jovem e bicho grilo, pois as peças meio que emboladas sugeriam uma pessoa que não ligava muito para uma aparência ordeira. Então, aos poucos, foi se enchendo de coragem e com as pontas dos dedos começou a levantar um ou outro item.

- O primeiro foi um xale, feito em linha preta, com pontos largos, tendo uma ou outra flor colorida aplicada. Nem de longe lembrava o seu gosto, mas, num impulso, após se vestir e antes de sair do quarto ela retornou e enrolando-se nele saiu para o café.

- Ora viva! Até que enfim!

- Nossa que lindo, disse Cristina! Onde arrumou esse Xale?

Nem bem terminou a frase Cristina arrependeu-se dela, e tratou de mudar de assunto.

- Engraçado, pensou, será que ela não escutou?

Se escutou, não retrucou, sentou-se à mesa e aparentava uma calma desconhecida por elas nas últimas horas. Ainda que não tivessem combinado, todas evitaram fazer comentários sobre a mala. Enfim ela ali estava e tão natural que não valia a pena acordar fantasmas.

Mas assim que voltou ao quarto a calma desapareceu, abriu a mala quase num safanão, raivosa, mas assim que começou a tocar as peças revestiu-se de extrema delicadeza. E foi assim, delicada que examinou todo o conteúdo daquela bagagem. Tanto se entreteve que quase atrasou o passeio de barco programado para aquela manhã. Quando se juntou ao grupo, as amigas perceberam que alguma coisa havia acontecido a Eulália. E pela expressão dela muito longe de ser ruim. Por certo ainda usava as mesmas roupas da viagem, só que havia dobrado a barra das calças umas três vezes e trazia calçado umas havaianas bordadas de pequenas conchinhas. Talvez as novas sandálias fossem as responsáveis pela leveza , pelo andar calmo, tranqüilo, que não se alterou nem ao ver que era esperada. E quando se sentou no barco havia um que, um jeito diferente de colocar os pés, de movimentá-los, quase uma sensualidade. Ninguém entretanto pareceu notar, e o olhar da moça passava de um rosto a outro mergulhando depois naquele mar azul. Certamente o noroeste começava a soprar . Só que mansamente, a princípio, e em sua vida.

Assim o passeio transcorreu calmo, Eulália se sentia observada, constantemente observada, ou era ela que agora prestava atenção às pessoas? Instintivamente levantou-se e saindo do lado das amigas juntou-se a um grupo um pouco mais jovem e falante. Em pouco tempo ela já estava entrosada. Sem dar mostras de preocupações, provava as bebidas que passavam entre eles, de mão em mão.

Quando o barco atracou o convite surgiu:

- Quer vir com a gente?

Eulália olhou em direção das amigas, mas sem nenhuma pergunta ou explicação, sorriu e seguiu o grupo que se distanciou dos demais. E com eles ficou por todo o dia, deitada de roupa sobre a areia, com a blusa agora amarrada abaixo dos seios, entrou na água, molhou-se. O rosto que se refletia na água era mais jovem ou mais tranqüilo?

Só quando voltou ao seu quarto, a ansiedade voltou, imensa, poderosa. Sim precisava rever a mala, saber que outros segredos ela escondia.

“Claro que uma mala tem segredos se dizia a moça, afinal ela guarda pedaços dos nossos dias, dos nossos medos, dos nossos encontros. E esta particularmente é uma mala entregue, sem medos, pro meu gosto, é uma mala debochada.”

Mas fosse como fosse sentia necessidade daquele objeto, de manuseá-lo, se mostrar dona, sim, ela a dona.

E com esses ares de proprietária levantou o primeiro vestido que encontrou.

- Nossa, olha só este vestido. Que decote! E a estampa, onde alguém usa uma roupa destas? E os biquínis. Como seria a dona da mala? Com esta e outras perguntas ali ficou até que o pessoal começasse a procurá-la para o jantar.

Ainda a contragosto entrou no banho, mas, assim que saiu, sentiu-se excitada com uma idéia e então, enxugou-se e colocou o vestido. Incrível, servia, virava-se frente ao espelho, o decote ia até a cintura, a estampa em lilás realçava sua pele clara. Num gesto premeditado, soltou os cabelos, sempre atados, e os cachos deslizaram irrequietos pela nuca. Ainda na mala Eulália encontrou os saltos e os brincos. Já o batom escuro transformou um rosto quase perfeito em uma nota que destoando fazia o acorde se tornar belíssimo. E assim ela saiu do quarto, arrastando nas mãos o xale, o mesmo usado na manhã.

No salão de jantar ela se deteve na porta, as amigas acenaram de longe. Sem responder a moça procurou um novo grupo e com desenvoltura se apresentou, sentou-se.

Elisa levantou-se e foi até ela.

- Oi Eulália, está tudo bem?

- Sim Elisa, tudo bem.

- Não quer sentar-se conosco? Falou uma das moças que compunha a mesa.

- Minhas outras amigas estão naquela mesa, respondeu apontando as outras que
acenaram.

- Chame todas, vamos aumentar o grupo.

Elisa por um momento se deteve observando os demais. Ao todo sete pessoas, muito jovens,mas, antes que tomasse qualquer atitude Eulália adiantou-se. Com um gesto chamou as outras que logo vieram.

Assim a conversa se manteve animada embora Eulália aparentasse uma distancia, ausência mesmo, conversava e ria animadamente com todos e com ninguém em
particular.

Seus olhos percorriam o salão, estava à procura.

Então mais tarde quando a música se tornou suave e alguns casais resolveram dançar ela aproveitou a ocasião e saiu da sala. E quando as amigas retornaram aos quartos a viram conversando animadamente com o barman.

- Curiosa Eulália, vocês não acham?

- Estava pensando se ela não andou tomando alguma coisa.

- Gente, viemos aqui pra relaxar. Ela é a última pessoa que se envolveria com o que quer que seja, vocês conhecem a dona moralidade não conhecem?

- Eu pensei que conhecia, falou Cidinha.

Eulália, se entreteve em drinks e conversas com o barman até o começo da madrugada.

Ainda não sentia sono, é como se tivesse dormido muito e agora tivesse sobra de descanso. Então se dirigiu à praia e lá ficou. Amanhecia quando retornou ao quarto e se jogou vestida na cama.

Quando acordou a inquietude tinha se dispersado, tirou da mala todas as coisas e as colocou sobre a cama. Então foi experimentando tudo. No final da tarde a figura que saiu do quarto parecia alongada, ou seria aqueles shorts mais curtos que faziam essa impressão?

A mulher que caminhava alongada, fosse pelo shorts ou não, tinha um ar diferente, evasivo, olhava com interesse as trivialidades e se detinha em quase todas as conversas disponíveis.

Em pouco tempo, as conversas é que a procuravam. Na verdade ela agora chamava atenção, um jeito descansado, uma conversa alegre, uma vontade de provar.

Rapidamente os dias se sucederam, como acontece quando se está em férias. Embora distraídas as amigas começavam a se incomodar com Eulália, que agora não lhes fazia companhia. De certa forma a moça antes tão tímida tornou-se o centro da atenção, ria e conversava com todos. Até cantava. Não que elas se importassem, afinal sempre a incentivaram, mas agora se sentiam deixadas de lado. Por certo era outra aquela Eulália, vestida sempre de forma tão casual.

- Casual? Gente veja o biquíni dela.

Sim, pelo caminho da praia, naquele final de tarde vinha Eulália, como sempre
acompanhada.

- Epa, desta vez muito bem acompanhada, emendou Cristina. Quem é o cara?

- Nossa que esse eu ainda não tinha visto por aqui.

- É, o biquíni também não, insistiu Elisa. É de alguma de vocês?

- Quem me dera ter um biquíni cortininha e ainda poder usar.

De longe a moça notou as amigas e acenou com a mão, continuando seu passeio sem se deter.

Naquela noite enquanto jantavam Eulália apareceu, vinha sorridente, com um vestido indiano, longo. Os cabelos presos atrás realçavam seus traços delicados. Quando se abaixou para beijar Cidinha a nuca esticada mostrou a pequena tatuagem de flor.

- É de henna, perguntou Elisa?

- O que?

- A tatuagem Eulália, é Henna?

- Não, claro que não. E sem continuar o assunto sentou-se e pediu um vinho.

Em verdade todas queriam era detalhes, do moço, da tatuagem. E ficaram esperando que ela os esclarecesse.Mas a moça por ali ficou, algum tempo, serena e sorridente sem se importar com as perguntas, alguma respondia, outra deixava passar, até que a companhia daquela tarde veio buscá-la. Sem cerimônias ela simplesmente levantou-se e saiu.

- Assim , disse Cristina, sem nem apresentar o moço?

- Gente isso deve ser feitiço, e se for, também quero, resmungou Cidinha que com o olhar acompanhava o casal que já saia porta afora.

Durante aqueles dez dias, vez por outra uma delas ia até a recepção saber sobre a mala de Eulália. E como sempre a mesma resposta. Nada!

Eulália por sua vez parecia não se lembrar mais, aliás parecia não se lembrar de muita coisa, já era o próprio noroeste, modificada suas paisagens.

Apenas na última noite, Sozinha em seu quarto, na madrugada antes do retorno, com delicadezas foi recolocando na forma encontrada tudo o que pertencia àquela mala. Nem tudo havia sido usado. Quais peças, a gente não vê e carrega. Utilmente, inutilmente, habilmente, inocentemente? Não sabia dizer, mas teve a impressão, clara, de que no fundo daquela mala havia um rosto desenhado. Só pode ser o efeito da luz do abajur pensou, mesmo assim, se concentrou, queria quem sabe se ver. Não, eram duas as figuras que agora se fundiam. Durante muito tempo ali esteve, observando, capturando, perdendo. Então refez os laços e colocou a mala aberta bem no meio da cama. Não conseguia dormir, quando amanheceu, já se encontrava na recepção com a bagagem apertada nas mãos esperando os demais hóspedes que iriam para o aeroporto.

Não consentiu que ninguém a separasse dela. Sua mala. Levou-a consigo dentro do ônibus, e na hora de entregar as passagens no balcão, foi com dificuldade que a entregou. Enquanto aguardavam o embarque, dirigiram-se ao café. Como em todos aqueles dias Eulália se sentia bem. O café, era uma pequena sala cheia de mesinhas mas elas se acomodaram no balcão.

Um pressentimento, um sentimento fazia com que ela se detivesse olhando o interior do café.

E foi então que viu, ao fundo, em uma das mesas, solitária, uma moça pálida e triste com uma saia longa preta e uma blusa de alças largas que ela poderia jurar já ter usado algum dia.

Seus olhares se cruzaram, mas nem uma nem outra deu mostras de algum conhecimento.

"Um dia tenho de voltar a Ilhéus, pensou, mas vou voltar sozinha."

Imediatamente, sem pensar duas vezes se voltou para as amigas e só então anunciou. Não iria voltar. Pelo menos por enquanto não iria voltar para casa.

- Eulália, começou Elisa.

Mas o olhar firme da outra a fez calar. Abraçaram-se, e enquanto as três se dirigiam para o embarque, Eulália viu, acompanhando suas amigas Então mais do que nunca teve certeza, tinha muito que viver, antes de se sentir plena para retornar então, olhando para a saída do aeroporto, com a mala não trancada na mão, pisou firme e saiu em busca quem sabe de um pouco de sol.

 

maria izabel