Presságios

Naquela manhã de quinta-feira, como tinha acontecido toda semana, Malú acordou antes do celular. Então, desligou o alarme, certificou-se de que o marido a seu lado dormia e deslizou em silêncio pra fora da cama.

Ainda na porta do banheiro parou, abriu um sorriso e pegando o vaso de violetas encostado à janela examinou com cuidado os pequeninos cachos de flor em tons de branco e roxo. Delicadamente, entreabriu as folhas, colocou-o sob a torneira abriu levemente, para que a água fizesse seu trabalho. E deixou-o dentro da pia escorrendo. Só então fez xixi, descalçou-se, tirou a camisola e entrou no banho. Enquanto se ensaboava, Marcelo, o marido, chegou à porta.

- Que cheiro bom? Essência do que?

- Esta é fácil, vê se adivinha.

- Laranja, mas tem outra coisa junto...

- Duas outras coisas, um pouco de limão...e...

- Hum não sei o que é, mas tá gostoso. Por que levantou tão cedo?

- Estou preocupada com Dona Luísa.

- Malú, pelo amor de deus não se meta. Estão oferecendo até demais.

- Eu sei que sim, mas ela ta acostumada aqui...

- Olha não quero nem perder esta última meia hora de sono discutindo com você. Sem dar continuação a conversa, fez xixi e voltou pra cama.

- Você não reconheceu o gengibre. Ela gritou para Marcelo antes de desligar o chuveiro. Depois se secou, vestiu o roupão felpudo do marido e dirigiu-se para a cozinha. No caminho abriu todas as janelas que encontrou, afastou cortinas e a casa clareou. O sol escorria generoso pelos cômodos.

Enquanto a água para o café fervia Malu pegou no armário uma xícara e um pires de porcelana antiga e florida. Cuidadosamente colocou leite, e, no pires arranjado de forma harmoniosa um pouco de mel, açúcar e uns quadradinhos de pão. Então se dirigiu ao pequeno quintal que cerca os três cômodos construído no fundo e que lhe servem de atelier. No canto esquerdo, encostado ao muro sob uma laranjeira, uma pequena fonte com água e muitas flores. Lírios da paz, maria-sem-vergonha, cravos, dálias.

- Olha o café chegando, hoje acordei mais cedo. Como se realizasse um ritual, enquanto falava abaixava-se despejava um pouco do leite, o mel, o açúcar e dispunha o pão próximo à fonte. Por alguns instantes parou, como quem pensa e acaba por dizer em voz alta:

- Não estou sabendo o que fazer com dona Luíza, ela já pediu ajuda?

-...

- Não sei, ela é muito velha, tenho medo que não agüente.

E novamente calou-se, como se estivesse realmente participando de uma conversa.

...

- Sei lá, ela é muito arisca comigo, ou eu com ela. Mas também é tão destrambelhada, fala muito e com qualquer pessoa.
...
- Bem, vamos ver até na hora do almoço o que resolvo. E tirando uma moeda do bolso do roupão colocou-a na fonte.

Particularmente nesta manhã sentia-se apreensiva, nem mesmo o cheiro do café invadindo a casa afastava os presságios da noite. Era uma inquietação funda, como se houvesse certo medo no ar. Ainda na cozinha pensou em falar com Marcelo, contar o que sabia a mais sobre dona Luíza, mas desistiu. Com o olhar perdido na janela lembrou-se de que em outras ocasiões tentou se mostrar pra ele. Em como gostaria de dividir aquele segredo.

Sim ela era uma mulher com segredo. Desde sempre via e falava com os elementais e apenas na infância compartilhou com a família. Mas ainda que na meninice não tenha sido segredo, era encarado como amigo invisível e todos achavam graça. Então quando começou a crescer aquela “graça” lhe rendeu muitas horas de terapia. E depois de muito tratamento surtiu efeito. Em verdade ela aprendeu foi a agradar e tranqüilizar pais e doutores. Afinal segundo eles aquilo nada mais era que uma dificuldade em encarar o crescimento, o salutar desligar-se da infância, pura e simplesmente uma síndrome...

“Síndrome de Peter Pan”. Sim, hoje ela pensa como sua primeira profissão, a de artista, representou muito bem e por conta disso se tornou pessoa calada. Mas, quando estava sozinha e podia conversar com seus pequeninos, como gostava de chamá-los se transformava, era uma alegria só.

Porém veio adolescência, juventude, e Marcelo chegou. Tão simples, tão fácil, ela achou que ele entenderia, mas quando tentou falar seu segredo ouviu a seguinte explicação:

- Você é muito engraçada, tem humor mesmo, diz de um jeito... até pensei que fosse sério. Se eu alguma vez conversei com elementais? Elementais são gnomos, duendes? E isso? E antes que ela pudesse responder, ele riu um riso bem alto.

- Só quem acredita nestas coisas são as crianças e os loucos. Criança, eu não sou mais, louco, só um pouquinho e tornou a rir.

Depois disso todas as vezes que via na rua carro com o adesivo “Eu acredito em duendes” fazia gracejos.

Ela sentia uma raiva funda por não poder contar com ele e também por ver sua crença exposta de uma forma que considerava ridícula.

Então, definitivamente aprendeu a arte de bem viver, ou quem sabe a arte de dissimular. Até Marcelo esqueceu-se do assunto. Nunca mais ninguém percebeu seu interesse, até que há 10 anos atrás foi morar nesta casa e se deparou com Dona Luíza. Naquela ocasião as casas por ali eram raras e dona Luiza uma negra alta, gorda, com um eterno lenço branco, sempre branco, muito branco, amarrado à cabeça, apossara-se de um dos terrenos e passava grande parte do dia sentada em um banquinho. O interessante é que ela não esmolava, mas as pessoas paravam e lhe traziam comida. Infelizmente, pensava Malú ela não havia feito nenhum melhoramento no terreno, dormia em um, barraco? Não, aquilo não podia nem ser chamado de barraco, eram uns paus, encimados por uma lona encardida, que acabou sendo substituída por papelões grossos, e novamente outra lona que algum vizinho penalizado nos dias de chuva trouxe para ela.

Com tanto espaço, este terreno tinha de ser do lado da minha casa? Quanto a isso não havia nada que pudesse fazer, Dona Luíza entrou em sua vida desde o primeiro momento em que ela teve contato com o que viria a ser sua casa. E pensando bem isto teria sido inevitável, pois ela encantou-se com o imóvel. Nem tinha como não se encantar, a casa fica em uma parte elevada do terreno e bem frente a ela um parque da prefeitura repleto de árvores. Naquele dia depois de olhar e olhar e tornar a olhar a casa, o quintal, saiu para o jardim e se lembra de ter dado com a figura da negra parada bem na frente do portão, encarando-a.

Assustada Malú gaguejou:

- Bom dia!

A negra não respondeu, olhava fixamente para a moça e para o chão, para o chão e para a moça. Malu também olhava incrédula para a negra e para o chão ao lado dela. Quando se deu conta já tinha sorrido e praticamente gritado:

- Hatmie?

Rapidamente a negra virou-se e se afastou. Malú ainda tentou chamar pelo duende, mas ele acompanhava dona Luíza.

- Hatmie, hatmie... espere. Mas o duende protetor da saúde afastou-se com a velha.

Quando se mudaram para lá Malu sempre a via cercada, como ela própria por pequeninos. Principalmente por Hatmie.

Depois disso tanta coisa aconteceu. Em dias menos favoráveis a negra gritava e xingava pelo parque reclamando que estava sendo roubada e que ia pedir a todos os gnomos e duendes ajuda para encontrar o ladrão e então se postava à porta de Malu pedindo que ela chamasse seus amigos também.

Por isso Malú a evitava, levou muito tempo criando sua personagem, não deixaria que a mulher a expusesse desta forma. No que dependesse dela ninguém a taxaria de louca.

Bastava uma naquele bairro.

Mas agora passado tanto tempo Dona Luiza parecia ter piorado muito, anda inquieta, fica horas e horas trepada no banco da praça, bem em frente a sua casa e quando a vê, chama por ela, pede que venha ver quem é que está chegando...

- Não há ninguém Dona Luíza, desça daí vamos.

Algumas vezes a velha senhora abandona o banco para sentar-se nele e assim ficar por muito tempo. Nestas ocasiões Malu lhe traz bolo, um pouco de pão.

Em outras ocasiões a mulher não se conforma e ali fica, horas, sobre o banco, olhando ao longe. Completamente assustada.

Nestas ocasiões, em voz bem baixa Malú murmura suas orações:


Pequeninos guardiões
Seres de luz infinita
De dia me tragam a paz
De noite os dons da magia
Invisíveis guardiões
Protejam os quatro cantos da minha alma
Os quatro cantos da minha casa
Os quatro cantos do meu coração.


Com a intenção de afastar os pensamentos, mas ainda, apreensiva, Malú encheu uma xícara de café e foi ao quarto para acordar o marido. Enquanto tomava o líquido quente e forte Marcelo observava com ternura a mulher. Ela andava de um lado a outro pelo quarto falando com ele e se trocando. Até pelo modo como se deslocava agitada pelo quarto Marcelo sabia que alguma coisa incomodava. Mas neste instante não queria saber do problema da Dona Luiza. Observava a mulher, ela era muito transparente nos gestos, e foi até por conta deles que aprendeu a amá-la. Malú tinha estatura mediana, compleição magra, cabelos claros e cacheados que caiam desordenados até os ombros. De profissão era professora, de paixão artesã. Com o tempo foi se dedicando cada vez mais a sua paixão que hoje é sua profissão período integral. Como tivessem espaço, construíram o atelier nos fundos da casa com uma entrada independente.

Marcelo apoiou a xícara sobre o criado-mudo e a mulher se sentou para colocar as meias e quando abaixou para vesti-las o cabelo caiu desordenado pelo rosto dela que raivosamente os segurou e amarrou com elástico. Ele adorava observar esta parte, imaginando-se o único leitor deste diálogo, era seu passatempo preferido, contar em quanto tempo o cabelo venceria o prendedor. Uma guerra! Uns cachos pequenos, depois outro, se desprendiam, vagarosamente, até que o elástico escorregava pelas costas da mulher. Já fazia muitos anos que estavam casados, nunca tiveram filhos. Entretanto, ela nunca havia perdido aquela delicadeza, de gestos, de palavras. Não só com ele. Por vezes a observava quando distraída circulava pelo pequeno quintal. Ela falava com o jardim, com o gato da vizinha, com o vaso de flor. Não era de muitas conversas, embora não fosse tímida. Uma louca maravilhosa pensava Marcelo. A verdade era que ainda a amava e muito.

- Uai, não vai levantar hoje?

- Gosto de olhar você...

- Hum...sei e rindo acercou-se do homem. Com a mão ele terminou o serviço que o
elástico ainda não tinha completado...

Ela então, passou a mão em seu peito, beijou sua boca e foi se encostando nele...

Meia hora depois e antes de sair para o trabalho Marcelo voltou para pedir.

- Malu por favor, não se meta com os novos vizinhos, está bem?

Contrariada, concordou com a cabeça e foi para o atelier. Por ora resolveu que seria realmente o mais acertado, tinha um mosaico cujo prazo de entrega estava terminando e ele mal começado. Também não conseguia se concentrar, os pequenos cacos coloridos longe de desafiá-la, embaralhavam. De fato mal juntava dois pedaços rapidamente tinha de separar. Em algumas ocasiões até se machucou nos cortes enviesados das pastilhas.

- Nunca me aconteceu uma coisa destas, suspirou enquanto levava o dedo à boca para limpar o sangue. Mas como posso ficar aqui dentro se lá fora tem tanta confusão?

Amiúde levantava-se para espiar a janela, mas só via o longo corredor finalizado pelo portão de madeira. Tão longo, tão longe de qualquer sensatez estes nossos muros, estas nossas portas que se fecham sobre outras pessoas, que nos isolam do conjunto. Cada vida com suas guerras e devemos evitar guerras alheias?

Não, neste caso não podia. Assim largou o aborrecido mosaico de pedras e optou pelo humano que se desenhava além do seu e dos demais jardins.

Mas, quando abriu o portão quase derrubou Dona Luíza que muito quieta se encontrava encostada nele.

- Ai que susto.Ta tudo bem?

- Eles estão ai?

- Quem?

- Os homenzinhos, eu sei que eles estão sempre perto de você.

- E com a senhora também. Respondeu rispidamente.

Dona Luíza por um instante se calou, olhou Malu dentro dos olhos e por um vislumbre qualquer, pela primeira vez sorriu verdadeiramente.

- Eu sei que eles não podem fazer nada. A dona lá do terreno me arranjou um barraco no jardim Peri, esta semana tenho de mudar. Mas, e se eles não forem comigo? Com um tom ameaçador na voz continuou - a culpa vai ser sua que fica cuidando deles. Quer só pra você não é?

- Dona Luíza não é nada disso, eles estão aqui e lá, a senhora sabe que não são como nós.

A velha aquietou-se, de olhos úmidos, muito lúcidos, abaixou a guarda.

- Eu estou velha, muito velha. Eles me disseram pra esperar, deixar acontecer. Sabe há quantos anos moro naquele terreno, embaixo daqueles paus? Muito tempo minha filha, muito antes de você vir pra cá. Isto aqui tudo era um mato só, lindo, limpo. De construída, apenas a praça, nada mais. Sempre foi um lugar perfeito, de boa terra de boas árvores. Os pequeninos sempre gostaram daqui. Hoje ta assim sem tanta terra, sem tanto espaço, de pouca cor. Reparou que as árvores agora tem pouco cheiro? Cada dia está mais sufocado, e eu estou velha.

- E os tempos não são bons não minha filha, está chegando gente estranha, querendo vir pra cá. Enquanto estou aqui eu espanto, subo no banco e grito com eles, aquela feiosa de vestido preto comprido fica com raiva do meu grito, mas volta pra trás. A gente tem de ficar atenta, temos que ajudar a cuidar da praça.

E assim dizendo agarrou Malú pelo braço e começou a apertar. Não era medo, era tristeza e Malu sentiu vontade de chorar. Por certo a negra não percebeu, mas como se houvesse lembrado correu para a praça e subindo no banco começou a gritaria. Em vão a mulher tentou trazê-la de volta, acalma-la. Nada. Sem chances.

Então escutou pela segunda vez o telefone tocando insistentemente na sua casa.

- Justamente agora? Mesmo assim correu atender.

Ainda bem, eram os novos vizinhos, perguntando se podiam ir até lá conversar com ela.
 Quem sabe agora teria uma boa oportunidade de ajudar à negra.

Então se deixou ficar por ali na praça junto com Dona Luíza, que aos poucos cedeu e sentou-se no banco. Mas, foi só perceber o carro pra sair em disparada praça adentro, com uma agilidade quase impossível de se acreditar.

Sem dúvida o casal viu.

- Malu não é? Disse a moça simpaticamente. Eu sou Dora, e este é o Roque, meu marido.

Sentados no banco da praça conversaram por longo tempo. Por certo era uma simples
complicada situação.

Dora e Roque tem três filhos. Moram em um apartamento pequeno. Compraram o terreno, e querem começar a construir uma casa. Para isso tem feito economias e tem pressa que a obra seja iniciada. Também compreendem dona Luiza, tentaram contatar alguém da família. Encontraram dois irmãos, que não querem saber dela, e nem ela deles.

Sendo assim, pensaram em levá-la para um asilo, ela foi, ficou um dia e voltou para lá.

Então conversaram sobre comprar uma casa pequena para ela morar, fica em outro bairro, mas próximo dali. Embora tenha concordado e dito que gostou da casa, se recusa a ir embora.

Por alguns instantes também se sentiu tocada pela história deles. Realmente ninguém tinha culpa.

- Veja a nossa situação dona Malu, disse Roque que até aquele momento se mostrava calado, viemos pedir ajuda. Olha, hoje é terça-feira, se até sábado ela não tiver se mudado eu vou ter de fazer o que não quero que é chamar a polícia e obriga-la a sair.

Malu olhou para eles, não via saída. Sentia só por sentir mesmo, que nada iria tirar Dona Luíza de lá. Novamente uma angustia grande a invadia. Não tinha vontade de continuar a conversa e sem responder foi se levantando devagar.

Então Dora se mostrou incisiva, fechando a mão sobre seu punho impedindo que ela se fosse dali.

- Se gostar tanto assim da velha, lembre-se, até sábado. Na segunda começamos a carpir o terreno.

Com um safanão Malú soltou-se da moça e sem se voltar correu pra casa. Bateu o portão com força e sentou-se chorando encostada ao muro com a cabeça enterrada nos joelhos.

Quando se acalmou, rezou. Muito. Com toda força, pedindo ajuda à mãe terra e aos elementais. Por uma pequena fresta do portão viu que dona Luíza se acercava do casal.

Interessante, a negra tinha razão, as cores da praça estavam fracas, e o perfume não era o mesmo. Porque não tinha se dado conta antes? Mas, o que dona Luíza tanto conversava
com eles. Oras! Malu sorriu tranqüilizada, a negra não estava sozinha. Ao seu lado, encostado a ela Gobi. Claro pensou, o gnomo da sabedoria. Só ele possui o poder do conhecimento cultural das palavras e da essência do nosso mundo, dito, real.

- Ele vai entender a situação e ajudar a desembaraçar.

Assim acalmada voltou para seus afazeres. Rapidamente o dia se foi.

Quando Marcelo voltou do trabalho já veio com a novidade.

- Bem, tudo fica bem quando acaba bem não é? Abraçando e beijando Malu foi destampando as panelas. Estou com uma fome daquelas.

- O que acabou bem Marcelo?

- Parece que dona Luíza se mudou. O Rafael me contou que os novos vizinhos falaram com ela de manhã e a tarde vieram buscá-la. E que ela foi numa boa. Realmente não a vi por ai.

Que foi não gostou da notícia?

- Gostei, ou melhor, não sei. Estou inquieta, eles vieram falar comigo hoje.

- Quem?

- A Dora e o Roque. Falaram bem, mas no final ameaçaram chamar a polícia.

- Mas falar com você por quê?

- Segundo os vizinhos Dona Luíza é minha amiga.

- Ai meu deus do céu...Bem, seja lá como for. Está resolvido e não se fala mais nisso.

- Muito simples, não se fala mais nisso, resmungava baixinho a mulher enquanto passeava insone pela casa. Tem coisa, está tudo muito parado. O ar está quieto. Será que Dona Luiza tem razão, está chegando gente nova por aqui? Quem poderia ser?

Não, isto são maluquices dela. Mas as folhas não se movem, os pequeninos não tem brincado mais pela praça, e as cores. Onde eu estava que não reparei nas cores e nem nos cheiros... Preciso falar com eles. Então, fazendo uma pequena prece de reverência descalçou-se e se dirigiu à praça em busca de terra para caminhar e fazer contato.

Movia-se lenta e delicadamente formulando baixinho as orações. Aos poucos começou a vê-los. Yark vinha na frente, pois é ele quem nos presenteia com muita paciência e entendimento. Só ele é capaz de enviar vibrações necessárias para que tenhamos calma.

Era a primeira vez que Malu se aventurava a fazer contato na praça. Mas para o tamanho da sua angústia sabia que o quintal era pequeno. Eles sorriam e se acercavam dela, caminhavam junto e corriam pela praça. Ao modo deles a escutaram e ela os escutou também. E quando mais tarde voltou para a cama tinha uma grande certeza, eles sabiam o caminho que a negra iria trilhar, e quanto a ela, teria de confiar.

- Confiar... Fiar com... tecer junto. Nunca tive dificuldade de tecer com eles, junto deles.... E adormeceu. Naquela noite os sonhos vieram confusos, terríveis.

Por várias vezes acordou assustada e pela manhã estava encharcada de suor.

Muitas e muitas vezes esteve no portão, na praça a procura da negra. Nada.

No dia seguinte alguns homens vieram, começaram a arrancar e a cortar os paus que serviam de morada à Dona Luiza. No final da tarde começaram a carpir o lugar.

Malú perguntou a eles pela negra.

- Dona, parece que ela ficou lá no barraco, não estava muito boa não, não sei se bebeu, o certo é que não estava conseguindo andar bem. E continuou seu trabalho sem dar chance a novas perguntas.

Em casa Malu se sentia enjaulada. Andava de um lado a outro, precisava de notícias.

Concretas. Doente ela já estava. Mas, sozinha? Como poderia viver? Os elementais a aquietavam, tranqüilizavam.

No sábado Malu foi acordada. Muito cedo, misteriosamente acalmada. Como se tudo estivesse certo.

Lembrou-se de que “é o gnomo que faz com que um animal que está com sede no deserto caminhe em direção à água que procura; mesmo que morra na busca, o animal sempre está na direção certa. O animal que esta com sede só pensa na água. "Eu quero água, eu quero água, eu quero água, eu quero água..." ele não questiona se está em um deserto ou não, sendo assim levado pelo gnomo para a água. O homem é que questiona tanto que acaba por ir em direção oposta, levado por seres sem luz que vem para sugar toda a sua energia.”

Assim leve, Malu levantou-se e ainda de roupão dirigiu-se para a praça, mas antes de sair do portão, viu um grande movimento de gnomos e duendes cercando o banco da praça onde estava deitada dona Luiza. Ela acercou-se com carinho e quando passou a mão de leve em seus cabelos foi que percebeu a aparência pálida e a rigidez do rosto. Então Malu arrumou aquele lenço branco, muito branco da cabeça da negra, alisou e saia que lhe cobria as pernas inchadas, acariciou seu rosto. Segurou nas suas as mãos enregeladas pelas noites da vida e cercadas pelos elementais, fez uma oração pedindo força e magia para a grande mãe:


“Que eu tenha hoje e a cada dia,
A força dos Céus,
A luz do Sol
O resplendor do Fogo,
O brilho da Lua,
A presteza do Vento,
A profundidade do Mar,
A estabilidade da Terra,
A firmeza da Rocha.
Que assim seja!
E assim se faça!”


Então, sem sair do lugar gritou muito, até que Marcelo e outros vizinhos correram em ajuda...

Sobre o banco da praça, Malu se lembra da negra. Tudo aconteceu há tanto tempo, dez anos. Talvez tenha introjectado apenas agora à educação lá da infância. “É feio falar mentiras.” Então não se importa mais com o que dizem os vizinhos.

E em pé sobre o mesmo banco da praça, agora é ela quem cuida. O olhar perdido, ao longe.

"Que assim seja!
E assim se faça!”

 

maria izabel