Uma questão de bateia

De fato, Seu Luís o síndico do prédio chegou agitado. Muito era o suor que escorria de seu rosto gordo e avermelhado. Antes de tocar a campainha olhou impaciente para o porteiro que estava completamente absorto na televisão. Só então o homem levantou os olhos e ao vê-lo imediatamente acionou a abertura. Seu Luís entrou e bateu com força atrás de si enquanto com a outra mão empurrou a próxima passagem, que se abriu ao fechar da primeira.

Sem nenhum cumprimento apressou-se para a entrada do prédio. Intrigado e cúmplice, o porteiro desta vez foi rápido em abrir a porta que dava acesso ao hall e ao elevador social.

- Que merda! Esta droga de elevador nunca sai do 21? Mesmo assim, apertou o botão de chamada e procurou a porta lateral que dava acesso ao de serviço.

O painel mostrava o décimo nono andar.

- É só a gente precisar que esta porcaria nunca está fácil.

Bem que considerou subir pelas escadas, afinal o telefonema da mulher tinha sido aflito e assustador, falava inclusive de polícia. Porém resolveu esperar. A barriga arredondada que se mostrava pelas casas esticadas dos botões da camisa versus o décimo quarto andar em que morava exigia precaução.

Embora elegante o prédio em que seu Luis mora é antigo. Quase todos compraram seus apartamentos na planta e isso já faz uns vinte anos. O homem aflito que hoje espera pelo elevador também já teve uma elegância maior. Os três filhos eram pequenos quando veio para cá e a casa ainda não esvaziou. Pois o filho mais novo, Zeca, hoje com vinte e nove anos continua vivendo com eles acrescido de esposa e filha.

Alguns meses atrás, seu Luís teve de convocar uma reunião extraordinária para colocar em votação sua inadimplência. Solicitava um parcelamento. Ninguém teve coragem de votar contra. Após a reunião os moradores conversaram informalmente e ele se explicou quanto ao roubo de um MP3 ocorrido àquela semana na garagem. Sim, ele já havia providenciado o ressarcimento e procuraria fazer o possível para que não se repetisse.

- Infelizmente, completou, meu filho voltou às drogas. Tenho feito o possível. E o olhar baixo e encabulado do homem implorava por não comentários. Mesmo assim a notícia espalhou-se rapidamente.

Dona Rita, também é antiga moradora do prédio, mulher alta, altiva, magra, cujo rosto já teve olhos mais serenos. Desde o casamento dos filhos, seguidos da morte do marido, percebe-se nela certo desligamento, quase uma ausência. É bem verdade que dificilmente sai, sua única companhia é a TV e uma empregada de muitos anos que de segunda a sexta-feira mora em sua casa.

Como antiga moradora ela escutou seu Luís e manteve-se calada.

Mas o certo é que desde a tal reunião ela vem se sentindo agitada, e apesar de não ter se manifestado frente aos outros, mais tarde, em sua casa, revoltou-se. Pensava nas netas. Por certo eram pequenas ainda, bebês, para sofrer influência de um viciado.

- Pequenas? Repetia para si mesma, mas vão crescer e se este cara continuar por aqui...

Assim passou a ligar para os filhos que não deram muita bola. Mas ela continuou insistindo, exigindo mesmo deles uma postura. Dar parte à polícia, qualquer coisa que tirasse esse viciado dali. Na verdade eles tinham crescido com Zeca, sabiam das dificuldades financeiras que a família estava passando e não tinham tempo a perder com besteiras, afinal nem moravam mais ali. A mãe que fosse viajar, fazer algum curso.

- Sabe mãe esta história de ficar só em casa engorda fantasmas...

Imediatamente após desligar o telefone dona Rita começou a considerar.

- Hum, nem todos os fantasmas precisam ser gordos e se observou no espelho frente ao telefone, nem todo mundo que acredita em fantasmas já viu algum... Por um instante pelos olhos dela passou como uma nuvem que se perdeu lá no fundo.

Bem, deste dia em diante a mulher começou a bolar planos para conseguir que o “viciado”, como ela se referia agora aos antigos vizinhos e amigos do pessoal do 14, se mudassem de lá. Inicialmente era idéias, sonhos, que a faziam acordar pelo meio da noite e fazer anotações e mais anotações. Depois começou a sair mais de casa. Em verdade, saia, mas não se demorava. Pois sua intenção era apenas passar e observar a garagem, a possibilidade de carros não trancados. E foi assim que os roubos começaram a se tornar freqüentes.

Óculos de sol, patins das crianças, a jaqueta de couro esquecida no banco do carro e até a bicicleta dobrável de alumínio do ciclista do 12.

Se por um lado Seu Luís estava ficando cada dia mais desanimado, afastando-se dos demais moradores, por outro, dona Rita estava cada dia mais sociável e sempre que possível parava na portaria dando oportunidade para conversas.

- Juvenal, tive a impressão que alguém tentou abrir meu carro?

- Olha dona Rita, não sei o que dizer. Este prédio já foi tranqüilo, hoje em dia...

- Ah não ligue, onde estou com a cabeça, imagine só, todos conhecidos por aqui... Sei do rapaz, mas ele é bonzinho. Não se importe, estou velha e me esqueço, devo tê-lo deixado aberto mesmo...

Assim a cada dia Seu Luís recebia uma nova reclamação e por trás de cada uma delas tinha a delicadeza e boa intenção de dona Rita que parecia ter remoçado. Agora usava roupas mais alegres, voltou a pintar os lábios, perfumes diferentes. Até voltou a sorrir.

Acontece que os furtos acabaram por unir novamente o pessoal do prédio que até voltaram a se visitar e se juntavam em grupos tentando resolver o problema e nestas ocasiões não faltavam comentários a respeito da mudança repentina de dona Rita.

- Ah, arrumou um homem, essa mudança toda é caso.

- Ainda bem, retrucava outra, ela estava ficando insuportável.

Estas reuniões também acabaram por comprovar que no dia de alguns dos furtos Zeca nem estava no prédio. Foi então que uma assembléia de moradores decidiu por contratar segurança para a garagem, até que essa onda passasse.

Por uns dias dona Rita se sentiu desabar, pois seu próximo passo seria escrever bilhetes anônimos descrevendo o local onde se encontraria tal e tal objeto roubado e de tal forma que o viciado não teria por onde escapar. Mas a vigilância, pelo menos nos primeiros tempos se mostrou bastante rigorosa, impedindo grandes incursões. Então, uma noite a mulher acordou sobressaltada, tinha tido uma excelente idéia. Nem conseguiu continuar dormindo, levantou-se a meio da noite sentindo-se ousada. Sem pensar, trocou de roupa, tomou o elevador e desceu até o subsolo. Sim, perfeito! Os quartos de despejo a que cada apartamento tinha direito. Nada mais nada menos que um quarto tamanho 2X2, onde quase todos guardavam o que não estava em uso, perfeito para fazer aparecer os produtos roubados. Mas, antes disso, resolveu averiguar, achar o local mais conveniente. Assim, depois de verificar as fechaduras, voltou para seu apartamento e aguardou clarear o dia. Então, quando amanheceu, procurou uma vidraçaria em um bairro distante e com desculpas conseguiu um pouco de massa de vidraceiro. Com ela fez moldes de todas as fechaduras dos quartinhos. E foi assim que começou seu garimpo. Lá no subsolo pouca gente ia e dona Rita acabou passando uma boa parte dos dias remexendo caixas e segredos. Segredos e caixas. Fotos. Cartas. Documentos. Linhas que juntadas ao conhecimento que tinha de cada família levavam por vezes a outros caminhos, outras pessoas e novos lugares.

- Isto é muito melhor do que eu imaginei.

Tanto se entusiasmou que a todo o momento precisava se recordar de sua intenção, colocar o viciado pra fora do prédio, mas este novo trabalho estava empolgante demais. Quase toda gente tem segredos, e objetos, peças de prata que não serão mais polidas, mas das quais ninguém quer se desfazer, quadros antigos, pintados há muito tempo, tempo demais, desbotados, insignificantes agora, jogos de porcelana de avós, de mães falecidas que ninguém se desfaz. É verdade também que a faxineira do prédio esteve prestes a pedir demissão, ouvia barulhos. O zelador mandou dedetizar, poderiam ser ratos. Ratazanas. Mas passado o efeito do veneno dona Rita retornou ao garimpo, e foi garimpando, garimpando até demitir a empregada que dormia em sua casa.

Assim o quarto da moça foi esvaziado deixando o que lhe interessava o armário que iria mandar colocar chaves.

Só que a moça ainda tinha cópia da porta e voltou no dia seguinte à tarde para pegar umas roupas esquecidas. Como dona Rita estava no prédio, mas não em casa, à moça não teve dúvidas entrou... Dez minutos depois entrava dona Rita.

Quando finalmente Seu Luís tomou o elevador, lá pelo quarto andar começou a escutar os gritos, que felizmente não eram em sua casa. Sua mulher o esperava na porta, e juntos desceram rapidamente para o décimo terceiro. Muitos moradores do prédio lá estavam, tentando segurar Dona Rita, que tinha batido na empregada e com uma faca ameaçava matá-la enquanto a empregada por sua vez aos berros jogava porta afora no hall de serviço o conteúdo de tardes inteiras de garimpo...

 

maria izabel