A hora da estranha


Quando A hora da estrela saiu da prateleira pra se tornar conhecimento de vestibular, antes do gozo, a queixa.

- Credo! Cheira a guardado.

Imediatamente a pequena encadernação em azul foi parar na janela da área de serviço do apartamento.

- Clarice é tão densa. Será que gostava de sol? - perguntei enquanto colocava umas meias pra secar.

Evidente que se fez silêncio. Então abri ao acaso e, na dedicatória do autor, li em voz alta fingindo ser uma resposta:

- “Pois que dedico essa coisa aí ao antigo Schuman e sua doce Clara que são hoje ossos, aí de nós.”

- Ai de nós! Repeti e devolvi ao vento, à visão que aquela janela no oitavo andar proporciona.

Ali, continuou serena, mas eu não fiquei.

- Ela se inspiraria? “Pois esta janela, também é um quase nada...”.

Sem respostas, me vi cheia de cuidados. Cada vez que passava pela lavanderia, ia até lá. Às vezes, virava, revirava... Em outras, lia um pequeno parágrafo, e, confesso, falava com ela:

- Clarice, mãos sempre enluvadas. E agora aqui, se aquecendo ao sol. Ao sol da minha janela. Que delícia!

Mas, em seguida senti medo.

- E se ela caísse?

- Quanta besteira! Argumentei em voz alta. É apenas Clarice, que para ser lida precisa de ar.

- Quanto ar ela precisa ter? Quanta falta de ar nós precisamos ter pra entendê-la?

De tal modo preocupou o pensamento que olhei pela janela. Ah, que alívio! Se para Clarice acontecesse um vôo livre naquela manhã, ela seria interrompida por algumas janelas poderosamente abertas para fora. Ainda bem!

- Caiu alguma coisa, mãe? Perguntou minha filha que acabava de entrar na lavanderia.

- Não, não, estou só olhando.

- Ainda bem, respondeu e se debruçou na janela.

- Filha, já pensou se A hora da estrela caísse e as letras se agrupassem de forma diferente? O que será que ousariam formar?

Ela riu. - Mãe, você tem cada uma.

- É, tem razão, acredito que essas letras aí não fariam isso, não, apenas se dariam as mãos solidárias e solitariamente, protegendo-se do brusco acaso.

- Ah! Devaneio demais pro meu gosto. E pegando uma camiseta do varal saiu sorrindo.

Fosse como fosse, prensei-a contra o vidro da janela. Assim não sofreria o embaraço de encontrar no pátio do prédio alguém desconhecido.

“Não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”.

- Que tipo de emoção, sentimento, vai despertar na minha adolescente? Ela vai gostar? Ou apenas decorar pra se virar no teste de português?

Não sei.

É uma grata sensação, quando a ouço repetir algum trecho de poema ou comentar algum autor. Claro que me surpreendo, embora às vezes pense que não deveria. Pois nossa casa sempre foi a fiel depositária dos livros:

- Asilo para os que ficam velhos.

- Proteção para os desabrigados no temporal dos divórcios, mortes, mudanças.

Poemas, prosas, contos e dicionários enfileiram-se lado a lado.Que grande prazer! Às vezes troco um e outro de lugar. Pois temo, que suas opiniões divergentes os aborreça se continuarem juntos. Eis que, em outros dias, rearrumo-os no esquema anterior. Afinal, o enfrentamento faz bem. De tal modo curto isso que às vezes penso se eles de noite discutem entre si, trocam idéias. Não sei. Cada um têm seu som, sua peculiaridade. Calados e gritantes.

Apenas convivo com eles. Dos seus sentires só sei o que me contam.

Quando, à tarde, na fila do banco, vi que começava a chover; apressei-me de volta pra casa. Clarice não estava na chuva. Minha filha já a tinha resgatado. E ao me ver anunciou:

- Mãe, não vai dar tempo de ler até amanhã. Dá pra você me contar do que se trata?
 

maria izabel