À noite nem todos os gatos são...


Quando aquela boa alma entrou pelo quarto do hospital e me informou que enfim tinham conseguido escalonar pessoal para fazer companhia à nossa doentinha e que eu, depois de três dias inteiros lá dentro poderia ir pra casa, nem pensei duas vezes. Enquanto pegava minha bolsa preta, quase mochila, e colocava as roupas sujas ia “passando o turno”. Não via a hora de tomar um banho no meu chuveiro e me esticar na minha cama. Ah que saudades de casa!

Assim dei um beijo na sogra, recém saída de uma cirurgia, enfiei o casaco preto, única malha que tinha trazido, abracei o plantonista e corri para o elevador. Já passava das 23h daquela sexta-feira. O ponto de táxi frente ao Incor estava vazio. Com medo de me aventurar, esperei durante algum tempo. Mas o cansaço e a vontade de chegar a casa me levaram a virar para a direita e rumar até a esquina com a Teodoro Sampaio.

Após passar frente ao IML percebi pelas luzes que um táxi subia a rua, corri em sua direção, prendi o pé e quase caí sobre ele que provavelmente ao me ver diminuiu a velocidade. O motorista abaixou o vidro e com má vontade perguntou onde a dona queria ir.

- Santana, pode me levar?

- Tá, entra ai.

Sem motivos aparentes e apenas por alguns segundos hesitei. Assustou-me a cara e os modos do motorista, pareceu-me soturno e me observava demais. Mas foram instantes. Logo estaria em casa, e me senti afortunada. Assim me acomodei tranqüilizada ao ver o rádio de comunicação do motorista, o que me garantia que o mesmo era credenciado. Só que uma idéia ficou martelando. Se for credenciado porque não notifica que pegou passageiro? Novamente o medo aflorou. Sem dúvida ele me observava pelo retrovisor. Algumas histórias de motoristas que roubam e matam os passageiros passavam pela minha cabeça. Em frente às bancas de flores do Araçá arrisquei puxar conversa.

- Lindas essas flores, não?

- ...

- Ali é cemitério também, perguntei? Referindo-me a um grande muro que fica ao lado esquerdo da avenida Dr. Arnaldo.

- É sim, dos protestantes.

- Não sabia que tinha cemitério separado.

- Tem.

A conversa esgotou-se, e por instantes um par de olhos me observava pelo espelho. Só agora reparava nele, um rapaz jovem, talvez uns 27, 28 anos, moreno, forte e de poucos sorrisos.

- Sabia que o Araçá tem túmulos ricos, comentei.

- Não.

- E esculturas famosas também.

- É? E me olhava.

Ah meu Deus, não estou de relógio, nem de brincos, nem de nada, e continuei falando nervosamente tentando distrair atenção.

- Porém o da Consolação tem muito mais.

- Pelo jeito a dona gosta de cemitérios.

- É, gosto. E continuei o assunto achando que estava agradando. Depois de algum tempo, o rapaz pegou o rádio comunicador e avisou onde estava e para onde ia.

Arre, enfim ele percebeu que sou de paz. Assim relaxada continuei as histórias.

- Além do mais, o cemitério da Consolação chegou até a ser usado para a celebração de um casamento. Claro que foi uma cerimônia simbólica. Lá se casaram Oswald de Andrade e a jovem escritora Patrícia Galvão, a Pagú, em janeiro de 1930.

Parado no farol, ele me olhava com olhos arregalados. Incomodado. Mas talvez, pensei, aquele olhar quisesse dizer que não sabia nada de movimento modernista, então resolvi ser mais prática e evitar explicar que lá estão os túmulos do próprio Oswald de Andrade, e o de Mário de Andrade.

- Também é lá, na consolação, que está enterrado o corpo da Marquesa de Santos, a que foi amante de D. Pedro I. sabe quem é? Domitila de Castro. Aliás, e segundo contam, ela era a dona de todo o terreno onde fica o cemitério. Dizem que doou a prefeitura de São Paulo com a condição de que seja colocado diariamente no túmulo dela rosas vermelhas frescas. E a prefeitura sempre cumpriu o acordo. Houve um tempo em que começaram a fazer descaso. Sabe o que aconteceu? Os herdeiros começaram a se mexer pra ter o terreno de volta.

O rapaz me olhou assustado.

- E quem iria querer aquele terreno?

- Ora, um terreno daqueles na Consolação? Pode ter certeza que muita gente iria querer sim.

- Credo dona, um cemitério.

- Mas não se preocupe, a prefeitura voltou rapidinha a colocar as flores e a moção foi retirada. Pelo menos é o que dizem.

Não sei, mas tive a impressão que o cara se benzeu, e me perguntou.

- A senhora tem coragem de morar lá?

- Não, mas não por falta de coragem. Mortos não fazem mal a ninguém.

Nesta altura da conversa já estávamos bem próximos de minha casa e agora o rapaz me observava mais insistentemente ainda pelo retrovisor. Era impressão ou os cabelos da nuca dele estavam arrepiados. Quando falava comigo percebia-se um leve tremor na voz.

- Que esquisito, será que esta bêbado?

Outra coisa muito interessante, é que lá também fica o túmulo de Monteiro Lobato, o escritor do Sítio do pica-pau amarelo, sabe quem é? Que passa na TV?

- Sisim.

Então, se você for ao cemitério todo dia dezoito de abril, que é dia do aniversário de nascimento de Lobato, e der de cara com o Saci ou a Cuca, não saia correndo, nem pense que é alucinação, é que alguns admiradores do escritor prestam esta estranha homenagem: passeiam pelas ruas do cemitério vestidos como personagens de seus livros.

- Deus me livre, que eu quero é distância destas coisas. E se calou até dobrarmos a esquina.

- Esta é sua rua? Perguntou-me uma voz assustada.

- Isto, meu prédio é aquele branquinho.

- Ótimo!

Ao me devolver o troco, sua mão tremia e arrancou com violência da porta da minha casa, antes que eu chegasse ao portão.

- Cara maluco, pensei, mas quando me olhei no espelho do elevador acho que entendi.

Se tiver que dar plantão novamente vou passar um blush. A imagem no espelho era de uma loira descabelada, pálida, completamente vestida de preto e ainda por cima falando de cemitérios... Quem estava com medo de quem?
 

maria izabel