Agosto


Sobre a mesa da sala um retalho pequeno de renda e sobre ela pequenas xícaras de chá de plástico. Rescaldo de brincadeira das crianças.

Lembrei-me quando ela ganhou. Abriu o pacote maravilhada:

Mãe viu que lindo o que a tia Maria me deu? Vamos brincar?

- Claro.

- Quer um pouco de café.

- Quero sim, por favor.

Com cara solene ela serviu um café quente e perfumoso. Eu experimento.

-Cuidado pra não queimar a língua! Diz muito séria.

Sentada no chão da sala assopro a xícara antes de provar o líquido imaginário.

Já vivi isso. Faz tanto tempo. Foi num tempo em que o tempo era lento. Onde as pessoas estavam todas em volta de mim e não apenas nos porta-retratos distribuídos pelos móveis.

Porta retratos que portam retratos de uma gente tão séria, tão diferente das que me volteavam. Hoje eu volteio outras pessoas e homenageio a essas.

Que tempo foi esse?

Tempo de brincadeiras, de pés descalços de mãos sujas, de fruta lambuzada na cara.

Cheguei da escola chorando.Era agosto, mês do meu aniversário e a criançada cantava em coro.

Agosto é mês de cachorro louco, agosto é mês de cachorro louco.

Minha mãe me abraçou, passou a mão nos meus cabelos.

- Claro que é, e daí? Nós duas somos de agosto, lembra?

Sim, ela e eu, de agosto. Forte em tempos de completa submissão. Sonhadora, numa época onde sonhar era luxo. Cinco filhas, pobre, semi-analfabeta, ensinou antes das artes da casa, a arte do sonhar, do ser forte, do enfrentar. Leoa? Cachorro louco?

Não sei.

Sei que no dia seguinte quando cheguei da escola minha mãe estava no portão. Olhar sério. Fiquei ressabiada. Ela não disse nada, apenas pegou minha mão e me levou até a cozinha.

Sobre a mesa armara pacientemente uma pequena mesa com um pequeno serviço de chá e café. Nome dado a pequenas xícaras e pratinhos de louça grossa que o bazar da esquina vendia. Dentro dos pratinhos minúsculos pedaços de bolo. Brincamos durante muito tempo.

Que saudades da minha mãe!

Minhas primeiras memórias de casa são olfativas, e todas relacionadas à comida feita por ela. O cheiro do feijão cozido, do café coado. Nossa! Como gosto de sentir esses cheiros.

Cozinhar pra ela era uma alquimia, uma transformação da matéria bruta em algo delicado. - - Alimentar é criar laços, dizia sempre. Como gosto disso! A comida muito simples, mas sempre perfumosa e arrumada, era sua maneira de demonstrar amor.

Ela tinha cheiro de mãe. Às vezes me pergunto se tenho, se estou envolvida o suficiente no mundo da maternidade do ter filhos.

Rearrumo pratinhos e xicrinhas. Coloco uns pedacinhos de bolacha. Esse pequeno brinquedo por alguns instantes me transportou há outros tempos.

Agosto é mês de cachorro louco? Não sei. Só sei que agosto é o mês do meu gosto.
 

maria izabel