Às minhas mulheres

Dia de aniversário é dia de bolo. Mas não bolo qualquer. Bolo especial com recheio farto, molinho, cobertura adocicada e enfeites mil. Então dia de aniversário é dia de bolo da dona Conceição. Dona pra minha filha, pra mim ela é apenas Conceição. Alguns anos mais nova que eu e boleira das boas. Tanto o creme quanto a massa de bolo que ela faz são divinos. Os cremes nos mantêm sentados à mesa, disfarçadamente lambendo o garfo ou a colher. E a massa de tão leve faz todos segurarem o prato firmemente com medo que ele levante vôo. Ah! A cobertura. Sem dúvida faz todos se lembrarem que é dia de aniversário - não de regime. Ofensa não experimentar o bolo da Conceição.

Só que este ano o marido da moça que faz bolos teve uns dias de férias e eles viajaram. Na semana do meu aniversário. Quando liguei pra encomendar a delícia recebi a notícia e a complementação:

- Minha mãe pediu desculpas, mas deixou aqui a receita do bolo de carolinas e o número do celular dela, falou que qualquer coisa é só ligar.

Desliguei e comecei a rir. Não acredito, será que ela pensa que sou capaz de fazer um bolo de aniversário? Não é qualquer coisa um bolo de aniversário. Bem feito passa por todo um ritual, pra no final fazer boa figura. E uma vez pronto tem de juntar os olhares sobre ele na alquimia que farinhas ovos e fermento criaram. Depois, dividindo-se conseguir juntar todos os presentes em um único e bom paladar. Tarefa difícil!

Bolos, ora bolos! Claro que sei fazer. Mas daqueles descompromissados. Pra tomar cafezinho à tarde. Sem muita aparência, mas adoçados e calorosos. Bolo de limão, de laranja, de cenoura. O arroz com feijão dos cafés da tarde. Pra alegrar crianças, perfumar casa e marcar nossa presença de mãe. São bolos pra troca de pequenas confidencias, fofocas que provocam risos. Já bolo de festa não. Dias de festa são dias graves, de transformações. O trivial se esquece e lá vem enfeite. Bem, o jeito é encomendar em alguma doceira. Afinal o que não falta nessa cidade são doceiras. Compro em outro lugar e ponto.

E ponto nada, vírgulas. Gosto de comemorar meu aniversário, de ter os amigos em volta da mesa. E gosto de servir coisas gostosas que eu conheça. Pois é uma data especial. Hora de risos, que nem sempre se mostram tão generosos nos outros dias. Afetos abundantes,conversas amenas que trazem pra fora muitas outras mulheres. Adoro vê-las. E as minhas todas vão saindo também e feito silenciosos fantasmas enchem a sala. E se riem de nós.

De tal modo me preocupei que fui buscar a tal receita, mas abri com pouca vontade. Dizia assim:

“Bel querida, bom dia!

Olha, este ano vou te deixar na mão, mas você não vai encontrar nenhuma dificuldade pra fazer o bolo. Vá na padaria e encomende um quilo de carolinas. Faça o creme de baunilha que você conhece tão bem...Aí é só alternar uma camada de carolinas, uma de creme. Deixe gelar pelo menos 12 horas antes de desenformar. Desenforme e cubra com uma barra de chocolate ao leite derretido misturado a uma lata de creme de leite sem soro. Qualquer coisa ligue pra mim.

Beijos

Conceição”

Ai parece fácil. Será?

No dia seguinte ingredientes comprados, comecei a montar o bolo. As pequenas carolinas – como eu e minhas amigas, ficamos doces ou salgadas, dependemos do recheio.

Contrariando a receita, resolvi parti-las ao meio. Queria que recebessem bem o creme que iria colocar. Enquanto cortava pensava nas amigas que viriam me cumprimentar e experimentar o bolo. Estas amizades fui conquistando e em cada uma delas me enxergo um pouco. Todas têm uma particularidade qualquer que me encanta. -Sonoridade, plasticidade, alegria, rapidez. Mas em comum e em todas, garra. Pra ser doce ou salgada, como as carolinas, dependendo do recheio, do dia, do temporal.

Bem, forrei uma forma com papel alumínio e comecei...camadas de carolinas com a metade cortada virada pra cima, pra receber bem a camada do creme de baunilha, que fiz voltando ao fogo pra maior consistência. Gosto de consistências. Outra camada de carolinas cortadas viradas pra baixo, pra escorrem bem o creme que vou depositar por cima. Todas as possibilidades para o entremeio do recheio. No final o creme de chocolate, optei por colocar meia barra de chocolate ao leite, meia barra de chocolate meio amargo, assim somos nós, assim é nossa vida.

Levei à geladeira.

Não ficou tão bonito como o da Conceição mas ninguém reclamou. Então no dia do aniversário em volta da mesa, quinze mulheres. Alegres, fortes e entre uma taça de vinho e a fatia de bolo nossas conversas escorreram molinhas e incorpadas como o sentimento que nos une.

Dia de aniversário é dia dos amigos e de bolo também.

maria izabel