Bendito fruto?

Santana é um bairro antigo na zona norte de São Paulo e como antiga moradora constato mudanças. Alguns lugares estão irreconhecíveis!

O asfalto há muito substituiu o pó da estrada. Ainda bem, embora esfole joelhos dos que começam a aprender a andar de bicicleta. O bambuzal da rua principal foi substituído por sobradinhos. Assim também o coqueiral. Não manteve nem o nome. Em outras ruas, sobrados antigos criaram crianças, despediram-se dos velhos e se transformaram. Hoje, roupas de festa inauguram vitrines substituindo modestas janelas.Muros baixos foram derrubados e facilitam a entrada de quem tem festa pra ir. Em placas grandes se lê – Aluguel de Roupas...

Duas ruas abaixo espaços vazios viraram barzinhos. Bonitos, transados, barulhentos, congestionados. Bons! Muito bons:

– Até parece os da zona sul, escuto o comentário no metrô. Pois é, desde que saiu na “veja” chove gente da zona sul por aqui.

- Estamos ficando chic! Responde a outra.

Uma rua pequena, hoje muito movimentada, e bem próxima à minha casa se manteve quase inalterada.

O pequeno atelier de pintura é a novidade de uns sete anos pra cá, antes foi por pouco tempo um café com poesia, e antes ainda mais um sobrado igualzinho aos outros cinco que estão se deteriorando. Uma pequena loja de utilidades domésticas e uma boutique. Ah, tem também uma farmácia.

Do outro lado da calçada um grande e tradicional restaurante mantêm uma freguesia de pelo menos cinquenta anos promovendo sábados da saudade. Uma casa de móveis usados, atulhada de mesas, cômodas, camas e cadeiras. Cheira a traça.

Tem também uma lavanderia estilosa.

Completando a rua duas casas antigas. Assobradadas. Quatro pavimentos com frente pequena e fundo comprido. Todas as duas construídas em meio a um barranco. Uma delas manteve uma parte do barranco da frente como jardim e pelo tamanho do abacateiro ele foi plantado no dia da construção da casa.

O abacateiro cresceu, cresceu, acredito que da rua até seu galho mais alto chega-se a uns doze metros.

Muito alto, muito no barranco, muito fora da visão de quem passa apressado por aquela pequena rua congestionada. Bem, aconteceu no começo do mês passado. Um dos abacates não se agüentou no galho e veio em queda livre acertar a cabeça da moça que passava pela rua.

O guardador de carros viu a moça cair. Chamou por ajuda. Eu estava saindo do atelier naquele momento e engrossei a turma que foi ver o acontecido. O abacate vilão passava de mão em mão. Alguns iam até o meio da rua pra poder olhar melhor a árvore.

- Pôxa, nunca tinha visto este abacateiro antes.

- Acho que o dono deve pagar uma indenização.

A moça, meio tonta, meio confusa, meio envergonhada ganhava total solidariedade de todos.

- Sente-se aqui...

- Quer um copo d’água?

Alguém tocou a campainha e chamou o dono do abacateiro.

Demorou um pouco e surgiu na cadeira de roda um homem velho com aparência zangada. A zanga cresceu mais ainda ao ouvir a história.

- Agora vou ser responsabilizado pelo abacate que cai da árvore? Abacates caem da árvore.

- Mas na cabeça da moça? O senhor tem de cuidar, podar esta árvore. Olha a altura dela.

- É, e quem paga o serviço? Você paga?

- Chama a prefeitura, disse alguém, o corpo de bombeiro, eles fazem isso de graça.

- Fazem é? retrucou alguém. Duvido.

A discussão prosseguiu, mas a moça já recuperada achou melhor não chegar atrasada ao trabalho. Evitar novo acidente.Os outros ainda ficaram e ainda discutiram. Por fim o homem velho, na cadeira de rodas deu por encerrado o assunto.

Dias depois vejo um homem podando o abacateiro. Trabalho de risco. Lugar íngreme, sem condição de colocar escadas ou amarrar cintos de segurança. Novamente juntou uma porção de gente pra observar o trabalho.

Desta vez, esquecidos da moça e da fruta na cabeça, a discussão começou diferente.

- Por que vão destruir o abacateiro?

- Só estão podando.

- Podando, estou vendo, vocês querem é acabar com tudo. Pode deixar, vou dar um jeito nisso.

Não sei se deu, sei que a policia florestal chegou rapidamente . Foram perguntando ao velho, dono do abacateiro da autorização da prefeitura pra poda da árvore.

- Autorização? A árvore é minha, podo quando quiser.

- Olha, o senhor vai ter de suspender imediatamente o trabalho, vamos fazer um BO, encaminhar pra prefeitura. Depois com a autorização....

O responsável pela poda, guardou os velhos apetrechos com olhar contrariado. Sabia que não receberia o combinado. Apenas uma pequena parte do trabalho estava feito.

Enquanto isso o pessoal do verde se reunia de mãos dadas frente o muro. O portão o velho tinha trancado e falava com os policiais pelas grades do mesmo.

- Não querem que eu corte, tá bom, eu não corto. Mas não quero ninguém reclamando na minha porta que desmaiou de abacate.

A policia ambiental, entregou um papel ao velho, os curiosos foram se retirando. Apenas o pessoal do verde ficou. Bem, esta semana passei por lá.

Os galhos que chegaram a ser cortados estão apodrecendo aos pés do abacateiro. O abacateiro parece descabelado de um dos lados. Mas está lá, balançando-se ao vento.Eu, antiga moradora de Santana constato. É realmente um bairro antigo e algumas coisas ficaram irreconhecíveis....

maria izabel