Bernardo

Uma manhã qualquer ele apareceu...na minha retina. Maltrapilho. Ar de quem pertencia aquele pedaço. Com intimidade irritante, subia e descia a rua. Encontrou um canto para se deixar? Parecia.

Não sei dizer por quanto tempo ele ali viveu...Invisível.Esse maltrapilho pertence a raça de pessoas invisíveis que circulam em São Paulo.

Sua delicadeza o trouxe ao foco da minha visão:

- Bom dia, como vai a senhora?

- ?

Eu me recusava a enxergá-lo. - Quem sabe não vendo ele suma da minha rua, pensava envergonhada da minha franqueza.

Cheguei a pensar em aumentar o muro. Como não o fiz, continuei alvo de suas gentilezas.

- Viu, que as árvores já estão floridas?

- !?...

- O ipê está com praga.

- !?...

Irritantemente palavroso e gentil.

No canto da praça uma lona cobria durante o dia seus poucos pertences. O vi algumas vezes utilizando a torneira de uma vizinha pra se lavar.

- Perguntei à empregada de casa. Quantos anos têm esse cara da praça?

- Bernardo? Uns 60.

Agora ele tinha um nome...Bernardo.

Começou a me preocupar. Que saco!

Como podia esse cara, viver na rua e ainda demonstrar sentimentos por essa cidade?
É que ele era amável! Muito amável. Amava as ruas cheias, os becos encardidos, onde dormem os que não tem o pouco da vida. Onde, imagino, o tempo não se desenha. Existe.

De um pequeno rabisco, foi se traçando um grande contorno. Pequenas frases. Algumas conversas com as vizinhas. Coloriam o desenho que sem insistência Bernardo deixava em mim.

Soube que ele gostava de passar as tardes nas estações de metrô. Amava ver os trens que levam e trazem gentes que trazem e levam sonhos e tristezas. Onde, imagino, o tempo se desenha. Nos círculos pendurados na parede, colocados nos pulsos, no visor de pequenos aparelhos.
Mas, sua grande paixão eram outras estações. As que fazem florescer árvores, cada uma no seu tempo, pois que dependem do tempo. Eu também pensava nesse tempo. Certo, preciso e impreciso. E o tempo, no seu tempo, senhor total dele, faz o que quer. Chove e alaga, pois é dele o tempo das enchentes, deixa a seca comer o broto novo da flor que então não vai vingar. Mas o senhor dos destinos das plantas e das gentes traz também o tempo do enfeite. Faz florir, faz brotar. Desenha no chão tapete de flor. Porque o vento que descabela as moças e as árvores obedece ao tempo.

Qual o tempo que se tem?

Bernardo me contou certa vez que aprendeu a escutar o vento e compreender o tempo que gela seus ossos, e clareia sua coberta nas noites de lua.

E eu pensando em meus próprios desejos imaginei, que quando as noites são quentes, ele deve sentir desejos. Completos desejos. De gentes pela cidade, pela quietude do tempo, pelo calor de outro corpo.

Numa madrugada o desenho se completou em cores e luzes. Acordei com barulho na rua. Olhando por uma fresta da janela o vi. Quando ele me percebeu gritou.

Vem ver, vem ver.

Tonta de sono abri a janela.

- Dona, como pode dormir com uma coisa dessas?

- ?!

- Veja! Apontou uma árvore frente à casa.

O jacarandá mimoso iluminava-se pelo luar e por centenas de minúsculos vaga-lumes.

Meus olhos encheram-se de lágrimas. Bernardo vivia só, mas não era só, tinha consigo a cidade e nela as gentes, as plantas, os tempos e os ventos.
Eu precisava urgentemente mandar aumentar o muro.

 

maria izabel