Bicho Grilo


A conversa com meu avô no jardim de sua casa, dois meses antes do meu casamento, tem algo de irreal.
Para que se entenda preciso explicar que me casei no começo dos anos 70 em meio ao movimento hippie.
Quando o movimento eclodiu usei cabelos longos, saias floridas e em mim a máxima de que o mundo se curvaria a paz e ao amor.
Mas, tive de trabalhar, estudar e me manter dentro de convenções para poder sobreviver.
Família numerosa comecei cedo a ter contas a pagar e trabalho a fazer.
- Casar?
Quando Toninho me propôs casamento, já namorávamos há três anos. Ele tinha vida familiar parecida com a minha
e coração crédulo como o meu.
- Sim, por que não? Tudo muito simples, só para a família e os amigos.
- Que tal a cerimônia pela manhã?
- Ótimo, em casa mesmo e desde já vamos combinar, nada daquelas fantasias de noivo/noiva.
Sim, seria um casamento de paz e amor!
Um pacote sobre minha cama na semana seguinte com um bilhete me surpreendeu.
Querida neta.
Esse vestido de casamento foi de tua avó, minha amada Ana Luisa.
Tenho guardado estes anos todos para oferecer à primeira das minhas netas a se casar.
Espero que goste.
Beijos do avô,
João Antonio.
Desatei a fita que prendia o papel pardo...
Em minhas mãos uma nuvem delicada de renda, que outrora possivelmente foi branca, transformada no mais tradicional vestido de noiva que eu já vira.
Gola alta, mangas longas... botõezinhos fechando até o começo do queixo, algumas camadas de saias, com uma cauda compriiiida.
Nada a ver comigo, nem me dei ao trabalho de experimentar.
Mas, senti vazar em mim uma imensa ternura pela mulher que apenas vira como avó.
Bem, tinha de dizer a ele que não usaria.
Como fazer isso sem magoar?
Na tarde do dia seguinte, ao chegar a casa de meu avô, o encontro no jardim, sua grande paixão.
Abraçou-me sorrindo.
- Que bom ver você, gostou?
- É muito delicado, mas...
- No dia de seu casamento quero fazer pra você uma grinalda de flores, como fiz pra Ana Luisa em nossas bodas.
- Quantos anos vô, vocês tinham?
- Eu dezoito, Aninha 14, eu já amava as flores e a ela mais ainda.
Foi uma época difícil, mas nos amávamos.
Então ele me contou que trabalhava como ajudante numa mercearia e que quando conheceu minha avó, se apaixonaram e pensaram em se casar.
Minha avó era empregada numa residência muito fina, e a patroa lhe ofereceu uma antigo vestido que minha avó reformou delicadamente.
Na noite anterior ao casamento, o rapazote João visitou a praça e alguns jardins da cidade em busca de algumas flores que pudesse trançar.
Flores roubadas, desejos e sonhos se trançaram, transformados numa linda grinalda para Ana Luisa.
Em minha mente a lembrança de ter ouvido essa história contada por minha avó e de ter visto em seus olhos
a felicidade de ter tido/sido o amor.
Minha avó aconchegava, ria, cantava, brincava, era uma mulher feliz.
Não tive coragem de dizer nada, beijei-lhe o rosto, as mãos cheirando a terra e quando me virei pra fechar o portão, um rapazinho magrelo de olhos vivos me acenava sorrindo por entre as flores.
Casei-me numa manhã ensolarada, o noivo de bata indiana, calça boca-de-sino e uma grinalda de flores naturais, a noiva no mais tradicional vestido de noiva, cabelos escorridos e uma grinalda igual a do noivo na cabeça.
O menino magrelo, de olho vivo, estava na cerimônia e me piscava alegremente a todo instante.
Quando olho as fotos pergunto pra todos, conseguem ver o menino?
 

maria izabel