Cheiros urbanos

São Paulo tem muitas facetas. Uma delas são os bairros que se destinam a um tipo especifico de comércio. Assim seguindo esse desígnio, pelos lados da Praça da Sé, algumas ruas como a Silveira Martins e a Rua do Carmo, bem próximas ao Poupa-tempo, se dedicam ao comércio de essências, corantes e embalagens.

Não conhecia este lado da cidade.

Então semana passada, pela primeira vez me aventurei por lá, pesquisando preços pra fabricação de sabonetes. Mas como não podia deixar de ser acabei ficando surpresa e encantada com a mescla de tudo que ela oferece.

Sem esquecer de segurar firmemente a bolsa.

Maravilhosos os cheiros. Em qualquer loja você pode sentir as essências...com aromas pra todos os gostos e pele. Delicados, quentes, finos, exóticos.Claro que mesmo por lá, o cheiro forte de mijo e a cor indefinida da cidade se fazem sentir. Mendigos recém acordados arrastando seus cobertores cinza pelas costas justificam o odor daquele momento. Sem dúvida os banheiros são públicos.

Algumas manchas ainda escorrendo pelos muros garantem isso.

- Anda, vem logo.

O chamado atraiu minha atenção.

Um negro alto, forte, parado na porta de uma Igreja Batista com ar atarefado chamava pelo parceiro que parou pra observar a mendicância.

- Rápido, o pessoal do ensaio já chegou. Repetiu ignorando a cidade.

Ensaio? Pensei. Do que? Nenhum papel pelo lado de fora da porta pra me dar alguma luz. Ainda assim, parei pra olhar, mas os dois entraram,a porta se fechou e eu...

E eu... logo esqueci, atraída que me sentia pelas lojas, com seus frascos delicados e coloridos, verdes, âmbar, lilás e suas caixas de todas as cores pra receber a delicadeza dos produtos que serão fabricados por mãos artesãs que vivem na cidade e fora dela. Dentro das lojas uma amostra. Mãos negras, mulatas, amarelas, brancas, pequenas, grandes, antigas modernas. Um arco-íris de gente.

Embora encantada tenho de admitir, com todo esse arco-íris São Paulo é uma cidade cinza. Cinza e malcheirosa. Mas ela tem...tantos cheiros. E alguns sabem a minha infância. Cheira a pêssegos no natal. A pipoca doce na estação de trem.Também cheira a lixo, excrementos, dejetos de todo tipo. E cheira a bolachas, pizzas, café quentinho lá pelas bandas da rodoviária.

Cheira também a churrasquinho grego, que o olfato pede e a razão proíbe experimentar. Cheira a violência, a alho vendido nos faróis, a pobreza, abelhas no abacaxi descascado da rua vinte e cinco de março. Cheira a pão fresquinho no mundão de padarias que tem essa cidade.

E eu parada aqui na Praça da Sé, pensando em cheiros..

Cheiro de ônibus lotado no final da tarde, a corpos sem banho.

Suados de trabalho, de fadiga, da falta de água também.

Cheira a pobreza e a indignação. Cheira a trabalho duro.

A doença sem remédios e a mendicância servil.

Também cheira a determinação, à vontade, a trabalho e a solidão.

Mesclam-se cheiros, gente. E de cinza é todo cenário.

Então, parada frente a uma vitrine ouvi o som.

Quase surreal a idéia de um sax tocando numa manhã de segunda em pleno centro de São Paulo

Claro, forte arrebatador.

Lembrei-me da igreja e fui até lá.

A porta continuava fechada, mas testei a maçaneta e como ela cedeu ao meu toque entrei.

Numa pequena sala um grupo de oito homens todos negros cantavam seu canto Gospel.

As vozes não se alteraram mas todos me notaram.

Sem saber o que fazer sentei-me e ali fiquei embalada pelo som e pelos cheiros.

E eles cantavam e o som como o cheiro se impregnava.

Cheirava a indignação, a força e a fé.

Pensei no cheiro das águas paradas de outra cidade, de outros tantos negros e pensei nesta minha cidade.

Que é cinza e malcheirosa e tem sim muitas facetas. E onde se impregnam muitos cantos e cheiros.

maria izabel