Cinzas


Quarta-feira dita de cinzas!

Geladeira vazia, vontade nenhuma de fazer compras e vontade toda de comer o sanduíche caprichado da lanchonete pertinho daqui e que não entrega “em domicílio”.

Mas, preguiça maior do que fome tomo um leite e vou deitar.

Meia-noite e quarenta, olho o relógio pela décima vez, ainda estou rolando na cama e pensando no sanduíche.

Uma e quinze.

Chega!

Rapidamente enfio um jeans, uma camiseta e vou, de carro para uma lanchonete a dois quarteirões de casa. Isto em SP, nenhuma novidade, quem sai a pé de madrugada?

Estaciono próximo à porta e sou abordada por um mendigo.

Que susto!

- Desculpe ai dona, vai comer?

- Me assustei.

- Eu sei como é, a cidade anda cheia de crimes, a gente tem medo.

- Olha num tenho nenhum trocado.

- Dona, eu to é com fome mesmo, se sobrar um pouco da sua comida me dá?

Resmungo qualquer coisa, ininteligível até pra mim e entro na lanchonete.

Que saco! Madrugada, não consigo dormir com fome, me levanto cedo, trabalho o dia todo e agora essa. É o tipo da coisa que acaba comigo, também, é no farol, na porta do supermercado, na igreja, no cemitério, no raio que o parta, tem sempre alguém pedindo e me fazendo sentir mal comigo mesma.

Sei que há muita fome, mas sei que num sei lidar com isso.

Bem, escolho um sanduíche, uma porção de batatas, um refrigerante ligth e observo o mendigo sentado no meio fio.

Ao seu lado um vira-lata, maltrapilho como o homem.

Ele conversa com o cão, me enterneço.

- Garçom! Por favor, pedido dobrado, coloque em sacos separados, vou levar pra casa.

Pego os pacotes, pago a conta e saio.

O homem me sorri, o cachorro também, eu realmente estou ficando demente.

Entrego a ele um dos pacotes, ele sorri, agradece, diz que não precisava ser um inteiro não.

Entro no carro e pelo retrovisor, enquanto me afasto vejo o homem dividir o lanche com o cão, dou ré, estaciono e sento-me ao seu lado.

- O cachorro é seu?

- Não, ele é dele mesmo, mas tem me acompanhado, tem sido companhia.

- Divide sua comida com ele?

- Já não como muito dona, e todos os dias tenho onde comer, tem umas mulheres que distribuem comida aqui pelo centro, o que recebo dá pra dividir com ele.

- Mas hoje está ai pedindo...

- É que no carnaval da pra se ganhar um dinheiro bom, tem muita latinha jogada por ai, ganhei até um bom dinheiro, mas a fila pra vender elas tava muito grande.

- E ficou sem comer?

- É, ganhei um dinheiro bom, mas num da pra comprar essa sua comida não, já ia dormir, mas resolvi ver se conseguia alguma coisa.

- Mora aqui perto?

- Essa semana tou morando ali no cemitério, ta quente, lá da pra dormir sossegado. A dona já viu uns anjos que tem lá nas covas? Coisa bonita, uma lindura, qdo tem lua fico achando que protegem a gente.

- Sempre morou na rua?

- Não, já morei num barraco, mas num consigo pagar o aluguel. Tudo muito caro dona, tou velho, não consigo emprego.

O cachorro já se aninhava saciado entre o homem e a mulher sentados na calçada com os sanduíches à meio.

- Ele gostou da doutora.

- Num sou doutora, vivo também tentando pagar minhas contas, não tem saudades de uma casa?

Casa? Agora não, a rua é boa dona. A gente só cuida pra que num roubem os sapatos da gente e o dinheiro que se tem, mas se vive como quer. Quando chegar minha hora de ir embora, vou, porque ninguém vai viver sempre mesmo.

Me levanto, ofereço a sobra do meu lanche pro seu dia seguinte, ele agradece e me pergunta se não quero levar uma parte pra comer de manhã.

Agradeço, o cão lambe minhas pernas, vou até o carro, me volto, abraço e beijo esse homem, e pelo retrovisor fico olhando ele me abanar a mão.
 

maria izabel