Colheita Tardia


Ou por estar no presumido inferno astral e então me sentir no fundo do poço, abandonada, sem grandes expectativas ou por ter passado em muito da época que as pessoas da minha geração começam com a fluoxetina, a tal conversa do garçom, somelier, fazia um sentido quase romântico. E me deprimia ainda mais.

Depois de ter conseguido que tomássemos durante o almoço uma garrafa inteira do que ele assegurou ser um ótimo malbec argentino e com o melhor custo benefício, por alguns segundos eu vislumbrei seu trejeito de vendedor quando se achegou para oferecer uma taça de vinho doce como acompanhamento da sobremesa. Ainda que a sobremesa pedida tivesse sido única, e com cinco colheres. Dentro do buraco negro dos dias que antecederam meu aniversário eu ao mesmo tempo em que me aquietava, afinal nada valia tanto a pena assim, também me remexia. Quanta gentileza, isso vai sair caro.

Mas, realmente naqueles dias nada fazia sentido, minha alma devia estar menorzinha ainda e eu não gostava disso. Sempre me atribui como dom natural o fato de ter uma imensa alegria de viver. E pensar que agora tivesse que acabar em alguma terapia com alguém muito mais louco, lúcido ou talvez lúdico, ou ainda tendo minha alma visitada por comprimidinhos ocasionais que me trouxessem para fora de novo, entristecia.

Então como sei que a saída é para fora, pra dentro não tem saída me obrigava a prestar atenção na conversa do garçom, que aos poucos foi perdendo o romantismo.

- Esse vinho chama-se São Felipe colheita tardia. É um vinho fino, resultado do super amadurecimento das uvas, que ficam em adequada exposição ao Sol e, como conseqüência, há um significativo aumento nos teores de açúcares.

Interrompi a explanação: - Acho que não vamos querer não, muito doce, vai enjoar. E também já bebemos o suficiente. Luciano sorriu e pareceu não ter escutado meu aparte:

- Nunca experimentei este vinho. É feito de uva passa, não é?

- No caso deste vinho não chegam a ser passas, mas elas não são colhidas no momento pleno da maturação, como de costume em todos os vinhos. São deixadas na parreira várias semanas após a data ideal de colheita, o que ocasiona uma desidratação e o conseqüente aumento da concentração de açúcar.

Então envelhecemos para ficar mais doces... pensei? E essa minha amargura vem de onde? Se tivesse sido colhida na plenitude estaria no ponto certo de paladar e por isso me perderia? Quanto tempo é preciso para se adoçar?

- Sei não, alguém da mesa rebateu. O que li sobre esse vinho é que as uvas são colhidas normalmente ao término da maturação. Em seguida os cachos são deixados para secar o que causa uma desidratação progressiva, num processo similar ao da produção de passas. Como resultado, a perda de água causa uma concentração do açúcar nas uvas.

- Essa dor toda que atribuo ao meu inferno astral então na verdade me prepara em esteiras ou galpões invisíveis, me desidrata, me dói absurdamente para que outros percebam meu açúcar. Não sei se quero, se não me disponho apenas a ter um grau normal, como tantos.

- Sim, são vários os processos, continuou o garçom satisfeito em mostrar seus conhecimentos. Em alguns casos as uvas, ao final da maturação, são atacadas por um fungo, que faz perfurações finíssimas nas cascas das uvas, causando a desidratação e o aumento de açúcar. Este fungo se apresenta na forma de um pó acinzentado, não é possível estimular nem evitar o ataque dele, sendo, portanto um presente da natureza a alguns vinicultores. Classificam-se entre os mais raros e deliciosos vinhos produzidos no mundo, podendo sobreviver por mais de 100 anos.

Todos na mesa se envolveram na conversa, deliciados com o assunto. Apenas eu continuava calada, preocupada, sentindo que talvez desidratasse e que o processo de fermentação seria longo e dolorido. Algumas dores, grandes e fortes, e sem sentido pelo menos no momento em que ocorrem adoçam e nos tornam raros? Não, não acredito que fiquemos mais doces e raros e, sim, que o tempo nos vai igualando: a velhice tem uma face só.

Credo! Só pode ser inferno astral, me imaginando parte de uma parreira, de um processo que acabaria por dar fama ao vinicultor de gentes.

- A senhora também vai aceitar?

Todos me olhavam, afinal o pedido já estava sendo atendido gentilmente pelo garçom que despejava em delicadas taças um líquido dourado, alaranjado.

Não por favor, prefiro um café expresso, curto e sem açúcar.

 

maria izabel