Colher os dias

Pequena ainda, entre irmãos, primos, avós e tios - escutava maravilhada histórias de assombração.

Que medo! Provavelmente teria uma noite insone. Na melhor das hipóteses dormir com a cabeça coberta.

Mais tarde passei pra leitura. Preferência - terror... Gibis, livros que exibiam garatujas de pessoas em pânico. Casas antigas em ruínas. Ruas mal-iluminadas. Morada preferida de fantasmas, dráculas, lobisomens

Com o tempo, os fantasmas acabaram pendurados nos varais. Os temores mudaram de forma.

Adulta, a prosa mudou de rumo. Gostava de participar e ouvir conversas sobre conhecimentos imediatos e intuitivos. Sensações. De reconhecer ruas, casas, pessoas, lugares.

Os relatos surgiam:

- Gente, quando olhei a casa sabia dizer como ela era, Tim-tim por Tim-tim.

Meus olhos ficavam arregalados.

- Outro dia numa cidade que nunca tinha estado fui explicando o caminho certinho pro motorista de táxi. Ele até perguntou se eu era de lá.

- Marisa arrematou. E eu. Me sinto mal quando ando pelas ruas de Ouro Preto. Não gosto de estar lá. Tenho péssimas vibrações.

Escutava maravilhada. As histórias se sucediam e alguém sempre vinha com a explicação:

- Você teve foi um Dejà Vu!

Meu lado espiritual ficava impressionado. A possibilidade de ter vivido outros tempos. Outras épocas. Trazer em mim sonolentas lembranças. Era demais.

Minha racionalidade alertava:

Pense um pouco. Imagine todos vivendo várias vidas. Que confusão! Medo e prazer se misturavam.

O que jamais contei foi que também tive um... Deja Vu?

Casada, filha crescida, fui a Fortaleza. Um dos passeios visita a praia de Canoa Quebrada.

Quando desci do ônibus senti uma emoção estranha e singular. Como se estivesse voltando pra casa.

Não reconheci nada, nenhuma rua. Ninguém. Mas a sensação era intensa. Louca mesmo.

Disfarcei o nervosismo. Mas a todo o momento aquela impressão de finalmente estar em casa.

Que casa? Me perguntava.

Não sei. Sentia apenas que eu e aquele cenário tínhamos o mesmo roteiro.

De volta pra onde moro, freqüentemente pensava:

- Se fizesse a mala. Saísse quieta. Calmamente. E fosse pra lá?

Nesse ponto discutia comigo:

- Absurdo!

- Que pode haver de absurdo em ir para casa?

- É tão absurda quanto à idéia de estar entre os nossos e sentir que ali não é mais nosso lugar. A casa está em casa e nós não fazemos mais parte dela.

Canoa Quebrada ficou durante muito tempo em mim, como um projeto de fuga. De resgate. De colheita. Como um ontem pra se viver no amanhã. Se tivesse contado pra alguém provavelmente teria recebido inúmeros cartões de psiquiatras.

Mas não contei. Desfrutei esse sentimento escutando Caetano.

Uma amiga ligou, e nossa conversa me trouxe uma luz diferente.

- Sabe Luíza minha sobrinha de cinco anos? Ganhou uma mala de sonhos.

- De sonhos?

- Pois é. Uma prima crescida deu-lhe todas as roupas de balé! Menina, você precisa ver, cada dia ela é um personagem diferente.

Um dia é fada. Coloca a fantasia e se transporta. Rosto sereno. Delicado.

- Tem algum desejo tia?

- Outra hora, séria avisa – Vou dançar nas areias do deserto. Seus gestos ficam sensuais. Envolve-se de muitos colares, remexe as mãos imitando a dança. “Odalisca-se”.

- Interessante – respondi perguntando - A roupa é do tamanho dela?

- Que nada. Algumas são muito grandes. Outras pequenas. Mas o que importa pra ela é o movimento. A fantasia. Ela rodopia. Veste várias saias. Coloca chapéus. Colore a vida com a tonalidade dos tecidos. Coisa linda de se ver.

Achei muita graça.

Desliguei o telefone e fiquei pensando na menina.

Como Luisa carrego uma mala de sonhos. Coisas depositadas em épocas diferentes e que não puderam ser cumpridas. Mas a vida não se deu por achada. Armazenou. Então quando me penso fugitiva, morando numa praia longe estou apenas tirando da minha mala alguns desejos. Fantasias. Colho os dias que não colhi. Colorindo minha vida.

A fantasia guardada bem no fundo da mala é a da ousadia.

Então me sinto menina “de anéis de luas e estrelas...” E deixo ao destino, deixo novamente ao acaso “.

Percebo então que a vida é um eterno Deja vu, onde medo e prazer estão sempre a se mesclar.

 

maria izabel