Com domínios

Referendo. Dia 10 de outubro às 20h. Assim dizia o papel afixado dentro do elevador. E esse assunto há uns quinze dias vinha sendo a tônica de todos os comentários que se escutava pelo prédio onde moro.

Antes um lugar tranqüilo e de poucas falas agora repleto de palavras. Por vezes palavrões:

- Corta esta merda e pronto!

A culpada disso foi uma danada que resolveu nascer e crescer em um canto escondido do jardim. Porém, perto do muro. Então se debruçou nele pra espiar a rua. Certo também que é uma rua quieta, calada, sem muitas coisas pra se ver. Provavelmente pra chamar atenção ela todo ano cobre-se de frutas, compridas, gordinhas, pretas . Doces. Muito doces. Uma amoreira.

Sendo assim, em pouco tempo atraiu atenção de quem passa de carro, a pé. É só chegar à época lá está ela vestida de frutos. Provocante. Insinuantemente gostosa. Sempre tão assediada que acaba por quedar-se exausta ao final da estação. Como alguém que volta de alguns dias de farra assim se apresenta ela. Faltando pedaços, folhas rasgadas, galhos quebrados. Tingindo a calçada. Calçada.

Justamente esse cair e tingir que trouxe o problema. Mas a culpa não é dela. Ora o vento, ora a chuva, ora mãos moleques de adultos e crianças acabam por derrubar e pisotear ...deixando o local escorregadio. Com isso várias reclamações chegaram ao síndico: - que a criança caiu, que a velhinha quase caiu, que se alguém se machucar seriamente então...

Pensei que eles poderiam fazer como fizeram quando sem reclamações ou pedidos de referendos constatou-se que os cachorrinhos eram levados a passear apenas na calçada lateral. Colocaram plaquinhas onde se lia a seguinte mensagem:

-“Senhor cachorro, quando seu dono te levar a passear peça a ele que não se esqueça de levar um saquinho pra recolher o que ficar.”

Mas como os cães não sabem ler... continuo vendo sujeiras nas calçadas. Tamanhos e cores variadas, mais ou menos cheiroso dependendo de quanto pisar.

Mas o assunto árvore tem como comentário maior o seu corte. Afinal os condôminos não se beneficiam de seus frutos. Está no final do jardim, não tem flores, só trouxe foi um bando de maritacas que irritam algumas pessoas de ouvido mais sensível.

Com isso tudo também fui alvo - tanto do partido verde quanto do partido radical de meu prédio. Os radicais conhecendo minha paixão pelas plantas vivem em discretas provocações. Os verdes têm certeza do meu apoio e já contam sua programação:

-Olhe, no dia do corte, a gente vem pra cá e sobe na árvore, está bem?

- ?!

- A amoreira vai despencar com a gente lá em cima.

- É pra eles verem que vão ter de nos levar junto.

Não é minha praia este tipo de protesto, então me afastei de todos. E até os verdes passaram a me provocar.

Só a árvore estourando em frutas se mantem: - linda, fresca, saborosa, alheia a essas impertinências.

No dia do referendo a discussão começou generalizada. Que esta época é um trabalhão, as árvores sujam as calçadas. Em contraponto alguém sugere que os cães sujam em todas as épocas e que ninguém referenda por conta disso. E ai o bate-boca esquentou. Que o animal é um ser vivo, que tem sentimentos que alivia a solidão.

No fundo da sala, calada, me impaciento.

Quantas vezes minha filha chegava com a camiseta feita de apoio e quando abria sobre a mesa montes de amoras e a blusa perdida pra sempre.

- Mãe, olha o que eu trouxe pra você. Pronto! Aquela boca pintada de preto me enchia de ternura.

A blusa ficava pra depois se conseguisse ficar. Então, então que não quero que cortem a árvore, como não quero que desistam dos cães.

A discussão prosseguiu sem mostra de chegar a bom termo e ai chegou seu Anésio. Atrasado, de mau-humor, sentou-se ao meu lado.

Não é um morador bem visto por assim dizer, é viúvo, com os filhos morando longe e com uma história de bebedeiras e rabugice.

Escuta a discussão, levanta-se e pede, torna a pedir, bate palmas exigindo silêncio. Todos se calam:

- Olha aqui, porque a gente não leva um saquinho plástico até a árvore também? Silêncio. Risos. Desprezo. Minha vizinha é a primeira a entender.

- É isso mesmo, bem pensado seu Anésio.

- Como assim? Pergunta o síndico do prédio.

- Claro, diz ela, como não pensamos nisso antes? Vamos manter a poda da árvore de forma que não fique muito galhada e na época da florada podemos colocar uma rede sob a árvore e recolher seus frutos.

Um pouco de silêncio, de indecisão e depois a discussão de como poderia ser feito isso.

Seu Anésio saiu aplaudido, mas manteve o ar de rabugice, e antes de sair ateou fogo. Bem no próximo vamos falar da sujeira dos cachorros?

Ri secretamente, mas cada vez que entro no elevador fico procurando um aviso sobre o novo referendo.

 

maria izabel