Doces mentiras

Quando no mês de março o pessoal começou a encomendar ovo de páscoa com recheio de pão de mel é que me dei conta da mentira.

Quem disse que eu sabia fazer? Eu!

No ano anterior minha amiga Marisa pediu ajuda pra embalar os ovos que ela havia feito para a família. Embalagens prontas, chocolate provado e aprovado, encomendei alguns. Com recheio de pão de mel. E por pura pose quando perguntavam se eu que tinha feito, não dizia que sim, mas também não dizia que não. Aquiescia. Sorridente. E fugia do assunto.

Bem, de qualquer forma, quando os pedidos começaram a chegar não me fiz de rogada e dizia que se tivesse tempo faria. A páscoa ainda demorava e pensei que o pessoal desistiria da idéia.

Qual o que. Continuavam insistindo e me perguntando se já tinha tabela de preços, de até quantos gramas eu estava pensando em fazer.

Sem dúvida a situação começou a me incomodar. Mas como voltar atrás? Claro que não queria entregar a mentira.

Bem, cozinhar eu sei. Assim, antes de me comprometer com o pessoal, comprei o chocolate em barra, algumas formas plásticas, os ingredientes necessários para fazer o pão de mel e fui para a INTERNET.

Pesquisei vários sites de culinária e em muitos deles vi o passo a passo da confecção de ovos de páscoa. Mas, recheados com o que eu queria, nenhum.

Enfim ou contava a verdade, ou me aventurava pra transformar a mentira. Então comecei a preparar o pão de mel. Em seguida coloquei o chocolate para derreter em banho-maria. Quando derreteu, dei o choque térmico de acordo com as instruções lidas e fui mexendo vigorosamente para que a mistura esfriasse.

Quando o palito de dente mergulhado no chocolate e colocado sobre meu lábio inferior não me provocava sensação de calor coloquei quatro colheres de sopa do líquido marrom nas formas e fui espalhando até cobrir totalmente.

Feito isso levei à geladeira para secar. Repeti essa operação mais uma vez e quando pude tirar novamente cortei uma fatia comprida do bolo e fui moldando o ovo com ele. No final, outra camada de chocolate.

Perfeito!

Agora confiante fiz mais cinco unidades, todas de 350gr. Meia hora depois quando tentei desenformar... Nada, o ovo não desgrudava.

Deixei para o dia seguinte. Certamente bem seco ele se desprenderia.

Que nada. A toalha de mesa começou a ficar com a marca de chocolate da beirada da forma. Um dos ovos rachou e pedaços do bolo começaram a cair. Tentei soltar com o auxílio da faca. Nada!

Cortar a forma com a tesoura, só estragou ainda mais o doce.

Liguei para as amigas que são do ramo da culinária. Repassei com elas o que havia feito. Na teoria estava tudo certinho, mas a prática... Elisete foi solidária:

- Olha, de chocolate eu não entendo, mas pelo que já vi fazer acho que está certo.

Sem jeito tive de ligar para Marisa. Ensaiei como iria perguntar a ela sem me entregar. Mas a decepção foi grande, ela tinha viajado e só retornaria depois da páscoa. Se por um lado minha mentira estava protegida por outro ....

Minha geladeira se encontrava entulhada de formas plásticas cheias de chocolate. E agora uma das minhas possíveis clientes não parava de ligar querendo saber se podia ir buscar.

- Não ainda não.

- Sim, eu fiz ontem.

- Não sei algum problema com o chocolate. Não, ele não desgruda da forma.

- Você fica com a forma mesmo?

Toalhas e panos de pratos sujos já se amontoavam na cozinha. Estava irritada. Não ia aceitar assim tão facilmente.

Então respirei fundo e resolvi tentar novamente. Corri comprar mais algumas formas, mais chocolate e tive de fazer um novo pão de mel. E novamente o chocolate não desgrudou. Agora a geladeira tinha 10 formas de chocolate, a cozinha já tinha marcas doces no puxador da gaveta, em facas, colheres, espátulas, tudo que havido usado na tentativa de soltar pelo menos um dos doces.

Na terceira tentativa desisti... Mas ainda assim não entreguei. Disse exatamente o que aconteceu, sem mencionar que não tinha experiência. Cansada, com toda a cozinha impregnada de chocolates, sentei-me pra comer de colheradas um pedaço de ovo. E senti como a doce mentira, apesar de tudo, desce bem... Se fosse amarga eu provavelmente cuspiria fora. Mas docinha e gostosa daquele jeito. Acabei por comer a forma inteira.

Então, sem poder olhar minha geladeira repleta daquelas formas, acabei distribuindo a mentira entre as amigas que a comeram de colher.

maria izabel