Enquanto a vida acontece

Não havia nada que eu pudesse dizer ao contrário.

Afinal nossa casa era ensolarada, bonita, numa rua boa.

Também tinha uma filha pequena, saudável e toda condição de viver tranqüila.

Ainda bem, pensei enquanto regava o jardim.

Mas, desde que há seis meses meu pai tinha concordado em vir morar comigo eu andava inquieta. Se por um lado me tranqüilizava o fato de tê-lo sob meus olhos. Por outro o fato de ser idoso e ter a saúde precária tornou as noites mais compridas e sombrias.

Com certeza eu estava dormindo pouco. Além de estar amamentando, a todo instante verificava o balão de oxigênio do meu doentinho. E embora ele fosse um doente calmo, dócil até, não podia ficar só. Sempre lúcido, gostava de companhia pra poder contar seus “causos”, entrecortados por longas paradas para recuperar o fôlego.

Fosse por ele ou por Mary, minha filha ainda bebê, meus dias e noites estavam compromissados.

Sorte que Rosa, a moça que trabalhava em casa, esticava sua semana até o sábado à tarde.

Então nossa casa era boa, ensolarada e eu tinha uma filha bem nova e um pai bem velho. O marido saia cedo e voltava à noite.

Não raro meus dias aconteciam com um pouco de leitura, alguma televisão e cuidados.

Muitos cuidados.

De tal modo, que um torpor foi se instalando em mim. Como um medo grande da pouca vida. Ainda maior era o medo de todas as mortes.

Sem que me desse conta vazei e meu pai notou:

- Filha, estou te achando triste. Por favor, não se preocupe tanto. Estou acostumado a isso. Acho que você precisa sair um pouco. Se distrair. Há meses você anda por estas mesmas paredes. Saia, eu fico bem com a Rosa.

E assim ele insistiu, preocupado comigo.

Por acaso naquela semana foi o aniversário da filha de uma amiga, e ela nos convidou pra comer bolo em sua casa à tarde.

Até o último momento não me animei, o social não era mais o meu forte.

Mas por fim...

Sem muita vontade, arrumei minha pequena e com poucos cuidados enfiei um jeans e já fechando as janelas do quarto resolvi trocar a camiseta por uma nova que havia comprado algum tempo antes de meu pai vir para casa. Toda bordada com delicadas sementes. E da qual havia me esquecido completamente.

Incrível como eu andava distraída. Pois minha lembrança era de um bordado pequeno e agora olhando na penumbra do quarto me parecia mais recheado.

Enfim, mochila de criança num dos ombros, filha no braço, me despedi de meu pai e de Rosa. Conforme a dona da casa havia me dito, éramos poucos convidados.

Apenas uma meia dúzia de mães que como eu estava no estágio inicial com suas crianças.Todas bastante cansadas e distraídas do geral.

Mas ficaram felizes em me ver e comentaram da minha camiseta.

- Que coisa diferente?

- Onde você comprou?

Depois de tanto tempo enclausurada, aquelas manifestações, educadas ou sinceras me fizeram muito bem. E assim que Mary adormeceu, fui ao banheiro dar uma ajeitada no cabelo e passar um batom.

Inacreditável foi o que me mostrou o espelho. As sementes da camiseta tinham brotado.

Do espanto ao riso, foi um passo.

Frente ao espelho passei a mão lentamente sobre a maciez dos pequenos brotos.

Mas não senti vontade de dividir isso com ninguém.

De volta a sala, sentei-me à mesa, me servi de pão.

Bem verdade é que andava distante de tudo e perdida em mim mesma.

Então, participei da conversa, prestando atenção ao que se passava ao meu redor. Disfarçadamente de vez em quando acariciava as sementes brotadas. O que senti foi qualquer coisa de extraordinário.

Como se pudesse, ou soubesse consertar o que estava se partindo em mim.

Quando mais tarde voltei para casa tinha a nítida sensação de que eu brotaria novamente.

maria izabel