Então é natal


Houve um tempo em que o dinheiro era escasso. Artigo de luxo! O que se podia comprar com ele também.

Naqueles tempos os sonhos não tinham fôrma e forma definidas. Ainda não cabiam em prateleiras e vitrines. E elas, nem existiam.

Evidente que não vivi completamente este tempo. Assim contavam meus pais. Assim passei parte da infância.

O meu Natal tinha perfumes que não eram de pinheiros. Nem de pó. Era de cozinha. Da rosca que minha mãe fazia apenas neste dia. Que delícia! Por alguns instantes paredes se adocicavam. Transpiravam sabor, ternura e segurança.

Nos mantínhamos em respeitoso silêncio olhando suas mãos fortes sovando massa.

Talvez este contraste fosse o segredo da data: – força e ternura.

Não conheci direito papai-noel. A escassez de jornais e revistas impediram que ele se tornasse famoso naqueles tempos.

Enfim o natal vinha deste cheiro. Vinha também do cheiro da rua à meia-noite. Hora do encontro com os vizinhos para a missa do galo. Cheiro da praça que abrigava o presépio e onde só dormia o pequeno menino com sua família.

Que dó!

Ritos concluídos voltávamos para casa. Então comer, dormir e aguardar a manhã do dia seguinte que trazia sempre alguma novidade. Bonecas de pano, carrinhos de madeira, colchas para as camas.

Simples. Fantástico!

Houve um tempo em que o dinheiro era escasso. Talvez esse tempo tenha determinado um dia Apenas um para se trocar presentes. Porque todos precisavam de tempo.

Tempo pra preparar o natal.

O tempo de hoje, não é mais de dinheiro escasso. Embora ele não sobre e se concentre. Nossos sonhos estão facilitados também. Estão expostos em prateleiras e cabem em caixas. Podem ser divididos em muitas vezes. A gente pode comprar nossos sonhos.

Nem os cheiros esperam mais pela data. Eles estão em qualquer padaria, a qualquer dia e hora do ano. Missa do galo não reúne os vizinhos, nem acontece mais à meia-noite.

A fé não depende da minha fé.

O menino e sua família não podem mais ficar nas praças. Os maus tempos acabam com a família. Com toda e qualquer família.

Comer e sonhar são duas coisas que não combinam.Não se pode juntar.

Acho que essa época, onde o dinheiro não é escasso e os sonhos são tão visíveis, vai ter de decretar uma mudança. O natal tem de ser celebrado todos os dias. E o dia vinte e cinco de dezembro tem de voltar a ser apenas o aniversário do menino que nasceu um dia. Há tempos atrás e que teve um sonho. Aqui entre nós...visionário.

Feliz Natal!

 

maria izabel