Entre luz e sombras

É verdade que me lembro do primeiro beijo. Tanto tempo passado e ainda sinto. Como sinto saudades da menina que fui. Apenas isso, porque aquele não pode ser considerado o melhor beijo, nem o mais apaixonado. Mas ficou profundamente marcado como uma antiga aquarela. Que o tempo escorreu, desbotou ao comparar com os traços aguados, porém fortes e quentes das pinturas atuais. Assim ficam as lembranças. Impressas. Seja no papel ou nos lábios. Porque beijos e pinturas é uma questão de luz e sombras. Onde se misturam sentimentos, técnicas, cores. Aprendizado.

Enquanto pensava sobre isso ia tirando da sacolinha plástica um bloco de cartões postais em branco. Sim, em branco, com gramatura própria para se pintar com tintas de aquarela. Só então, procurei pelas estantes por uma revista de arte e folheei com ansiedade até encontrar. Pronto: - eis o pequeno galho de cerejeira com um minúsculo pássaro apoiado entre as flores.

Perfeito! Até o dia conspirava. Da janela defronte a escrivaninha um céu azul e um balão perdido, vermelho, agora sob sua própria direção.

De lapiseira na mão comecei e recomecei por várias vezes o trabalho de copiar o desenho. De fato tinha de tentar sozinha, sem que ninguém me visse.

O porquê desta reclusão se deve ao fato de, salvo Marines, minha professora de pintura, ninguém acreditou que algum dia me encaminhasse para artes plásticas. Nem eu mesma. Sempre foi sabido que sou incapaz de fazer uma linha reta. Por outro lado toda e qualquer cor, todo e qualquer risco me encantam. E talvez por conta disso seja que concordei com o dono do atelier perto de casa em fazer uma aula grátis. Porém lembrei-me de providenciar coragem para enfrentar o que achava que enfrentaria depois da primeira meia hora - quando finalmente a professora percebesse minha total incapacidade com os traços. Mas no final de três meses meu primeiro quadro ficou pronto. Evidente que achei lindo. Sem dúvida minha mestra também, mas não considerei, afinal toda escola precisa de alunos. E se o aluno for fraquinho melhor ainda.

De tal modo me sentia protegida pela minha falta de habilidade que fui ficando.

- Pena que eu nunca vá ter jeito para o desenho, para as linhas. Comentei.

- Primeiro quem disse isso? Segundo, quem precisa de linhas definidas? Perguntou Marines.

Sorri, mas a pergunta ficou incomodando.

- Quem disse isso?

Só então percebi que a primeira decepção, como o primeiro beijo, não se esquece. Ela também fica. Só que em cores vibrantes e acentuadas. O aprendizado não acontece. A que se aprender primeiro a enfrentar o medo.

Naquela época eu cursava o segundo ano ginasial. Excelente aluna em quase todas as matérias, menos desenho. Desenho geométrico. O professor baixinho, calvo, me olhava por baixo dos óculos como quem vê um ET. Se bem que naquele tempo não se falasse ainda em ET’s.

Talvez até por isso eu ficasse sempre branca ou vermelha sob aquele olhar e não verde. Mas era uma tortura, o homem falava alto, me ridicularizava. Final de ano, notas fechadas e segunda época no tal do desenho. Única aluna de segunda época na matéria e provavelmente a única reprovação na dita cuja.

O professor me olhava sorridente e eu chorava, de vergonha, de frustração. Um ano perdido, e não aprendi a desenhar.

Lembro-me de ter voltado para casa com a caderneta de notas apertada por entre os dedos. Sem saber como iria enfrentar meu pessoal. Ninguém me desmereceu, mas perder um ano significou também perder os amigos que vinham comigo desde o primário. Sempre fui pequena e me achava velha e enorme numa classe de novatos. O professor se transferiu de escola e dele não me recordo nem do nome.

Decepcionei-me comigo. Como pude não aprender?

- Marines, não precisa mesmo de traços delineados?

- Não. Gosto da paisagem, das flores apenas insinuadas...Veja o impressionismo.

E assim entre rabiscos e cores pintei primeiro com força. Cores quentes e fortes. Sem traços. E o medo foi escorrendo na tela, tons pastéis. Perdendo a força, aguados. Mas o traço ainda não vinha.

Nem toda linha é uma reta. Algumas se curvam. E as aquarelas foram soltando a mão. Aos poucos, por pouco.

A primeira decepção não se esquece, mas se aquarela, em tons frágeis, aguados...

Pois bem no cartão se reconhece o contorno de um pássaro e do galho com as flores da cerejeira. No céu o balão vermelho é um pontinho ao longe. Sem pensar pego de outro cartão postal e desenho o balão. Vermelho desbotado, aguado, se perdendo enfim entre meus primeiros traços.

maria izabel