Espelho, espelho meu

Quando me sinto carente tenho por hábito descontar no cabelo. Que não dá pra fazer nada, nem colocar presilha, nem amarrar em tranças. Como dizia meu irmão, um perfeito escorregador de piolhos. Então me vem uma vontade louca de ter cabelos fartos, se derramando em cachos pelas minhas costas e em rolinhos pela testa.

Arre, de onde nasce esse desejo?

Talvez de algum lugar do passado, das festas religiosas que eram a única distração da cidade pequena em que nasci. Com direito a procissões, e onde a coroação de Nossa Senhora era feita pelas crianças abastadas vestidas de anjinho com asas de penas de galinha.

Sim, deve ser de lá que me vem imagens dos anjos todos de olhos redondos e cabelos de cachinhos. Não que me lembre das asas.

Mas, seja por conta disso ou daquilo sei que cresci insatisfeita com meu cabelo.

Assim, já adulta, enrolei, encaracolei, frisei e “permanenteei” essa genética que a mãe natureza em poucos dias alisa novamente.

O que acabava sendo um alívio, pois a idéia que faço de cabelo enroladinho nunca tem a ver com o que o espelho me mostra no final.

É claro, que se tiver ido ao cabeleireiro ele certamente dirá:

- Ficou ótimo.

Mas eu olho e nem de perto chego a descobrir o aspecto delicado ou maroto sonhado.

Por sorte em poucos dias minha genética corrige. Por outro lado, em pouco tempo eu me esqueço da decepção e novamente saio à procura de alguma novidade.

- Quem sabe um frisée? Sugeriu-me a nova e mais cara cabeleireira do bairro.

Método novo, francês, adequado a cabelos finos e lisos feitos os teus.

E novamente eu embarquei no tão sonhado cabelo.

Só que desta vez fiquei realmente com um toque francês. Tal qual um poodle.

Tão desanimante que com o passar do tempo, desisti. Trabalho, escola, família.

Fui me contentando com meus cabelos lisinhos, lisinhos.

Até que no ano passado uma marca de xampu resolveu investir em uma fatia boa do mercado brasileiro, e trouxe para nossas telinhas belos e encaracolados cabelos.

De tal modo, voltei a sonhar com isso.

A propaganda era irresistível, pois mostrava mulheres de todas as idades, satisfeitas com seus cheios e enrolados cabelos.

Ah! Quem me dera.

Naquela noite mesmo lembrei-me de uma técnica antiga de minha mãe que enrolava com pequenos pedaços de pano os cabelos ondulados de minhas irmãs...papelotes, era o nome.

Quando cheguei ao quarto o marido riu-se:

- Que é isso?

Evidente que estava ridícula, mas resolvi encarar aguardando os resultados do dia seguinte.

- Cabelos enroladinhos.

- Pra que?

- Por que eu gosto.

E já sem nenhum humor, entrei na cama e virei-me para o lado.

- Ficou aborrecida? Deixa de besteiras. Mas que ficou engraçado ficou.

Somente pela manhã depois de passar uma noite cheia de dores na cabeça, pois cada vez que me virava ou o rolinho, ou o grampo que tinha colocado pra segurar o cabelo me espetavam, é que pude apreciar o resultado.

Sem dúvida ficou uma gracinha, bem natural e solto.

Mas ao passar de leve o pente, os pequenos cachos foram se esticando lentamente e após o café da manhã não existiam mais.

Não desisti, na noite seguinte apelei para bobis pequenos e duros que me deixaram o couro cabeludo todo machucado e o resultado pelo menos durou até a hora do almoço.

O marido disfarçava, mas eu via que ele se ria das minhas proezas.

Uma semana passada, e nada. Nada que permanecesse por mais de duas ou três horas.

Com que então, resolvi apelar e falar novamente com o cabeleireiro.

Ocorre que na entrada percebi que o jogo estava perdido.

Pois cruzou comigo, uma moça que tinha acabado de fazer escova progressiva e aproveitava o vidro da porta para uma última olhada nos seus lindos e novos cabelos esticados.

Lá dentro mais duas estavam no processo de alisamento.

Se antes após os 40 todas as mulheres se tornavam louras, agora em qualquer idade todas tem cabelos lisos.

Mesmo assim, enchi-me de coragem e perguntei ao cabeleireiro se havia algo contrário para quem gostava de cachos.

Agora todos os olhares vieram em minha direção.

O profissional olhou-me com pena.

Após alguns instantes, na tentativa de disfarçar falou-me do permanente, que hoje está muito evoluído, quem sabe eu quisesse tentar.

Mas sem disposição para permanentes que não me traz lindos cachos e cuja química acaba com meu cabelo.

Aderi.

Então, cabelo, cabelo meu.

Lentamente no espelho do banheiro me penteio e ainda sem muita alegria constato – curtos e lisos, como manda o atual figurino.

Afinal, até aquela repórter global se rendeu a eles em rede nacional, isso todo mundo viu.

Meus cabelos enfim, objeto de desejo, sem que tenha ficado horas no cabeleireiro ou gastado uma grana preta.

Não é mais motivo para mudanças, pois estão na moda, e já que estou favorecida,aproveito, penteio e tento não pensar em anjos.

maria izabel