Eu e ela

- Mãe posso comprar um presente pro Léo?

- Uai, o mequetrefe não é só ficante?

- É mãe, mas quero dar uma lembrancinha.

- Lembrancinha custa quanto?

- Pode ser até 50?

- De jeito nenhum. 50 é muito caro. Tem propaganda de uns gorrinhos de lã no jornal por 19,90. Dê uma olhada.

Mais tarde, no mesmo dia, Mary minha filha me garantiu que o gorrinho mais parecia uma cueca pra se enfiar na cabeça.

Então, é semana do dia dos namorados e vou com ela percorrer os corredores do shopping center.

Nunca imaginei que tantas pessoas se preocupassem com essa data. Mas as vitrines repletas de corações vermelhos de todos os tamanhos não deixavam dúvidas.

- Credo, comento ironicamente, sempre achei que se gostasse com a cabeça.

- Ela sorri. Mãe, o que você gostaria de ganhar de presente do dia dos namorados?

- Sinceramente? Nada!

- Nada? Então também não vai comprar nada pra dar?

- Não, não vou.

Ela para observando uns ursinhos de pelúcia. Entra pra perguntar o preço.

Paro na frente de uma loja masculina e vejo um lindo tricot canelado verde musgo. Ele deve ficar lindo usando um assim.

Ela volta.

- Muito caro 45,00.

- Gosta daquele tricot? Pergunto.

- Eu não, coisa de gente velha. Mãe vi dois cachorrinhos de pelúcia numa caixinha de madeira. Uma gracinha e custa 25,00.

- Esse tá de bom tamanho.

- É, tá. Só que na caixinha vem escrito eu amo você. Aí é muito.

Dou risada. As letras a comprometem...

Mesmo assim, ela entra na loja pra ver se vale a pena.

E se ele chegasse numa tarde qualquer, sem avisar. E trouxesse uma flor, um nada. Se apenas me chamasse pra...

- Mãe vem cá.

- Você acha que dá pra arrancar essas letras ?

- Acho que sim, se arranhar a caixa, você cola uma fita em cima.

- Ela sorri contente e pede pro vendedor tirar as letras.

Se viesse apenas por chegar, fora de horário, sem ter nada a dizer, cobrar, contar. Apenas chegar e deixar o silêncio falar.

Bando de meninas e meninos pelos corredores carregando sacolas repletas de corações. Entre eles a minha menina também, feliz com seu pacotinho.

Se deixasse a rotina e viesse comemorar a rotina dos nossos dias.

- Mãe, você não sente seu coração bater mais forte nestes dias.

- Tenho sentido apenas mais frio.

- Credo , você é desanimante.

- Não ligue, quer um crepe?

Se...poderíamos ir pra cozinha e preparar uma massa. Qualquer coisa que desse a sensação de recriado.

Em casa, enquanto Mary pacientemente cola uma fita em volta da caixa meio lascada, ainda faço plano.

Se chegar pela manhã e disser que pensou em mim à tarde, ainda que acabe sendo noite.

Se vier e não disser nada, apenas me olhar nos olhos e me atrair pra ele.

Se chegar, e não tiver assuntos a tratar, apenas quiser o que tiver.

Se vier, porque sentiu saudades, porque ainda gosta de namorar.

Se ele vier, escorregando no musgo dos sentimentos antigos e trouxer a maciez do toque, o calor do aconchego...

Vou até a cozinha pegar um café. Sentada à mesa minha filha escreve um imenso cartão.

- Acha que ficou legal?

- Deixe ver.

Levanto a meia cartolina e leio a frase escrita em vermelho:

Por enquanto está valendo.

- Será?

 

maria izabel