Família muda-se

Claro que a possibilidade de mudar para um apartamento maior e com mais vaga na garagem era tentadora. Sobretudo agora que a filha dirige. Sempre alguém tem de deixar o carro no estacionamento e descer dois quarteirões um tanto quanto solitários.

Então quando finalmente pudemos começar a procura fiquei bastante feliz. Além da novidade da mudança, tenho paixão por visitar imóveis vazios. E nisso minha filha mostrou-se boa companheira. Prática, sempre atenta a detalhes, fazia-me ver a cada visita vantagens e desvantagens que eu muitas vezes não notava. De fato minha preocupação era outra. Sol nos quartos, jardim do prédio, visão das janelas, localização. Assim entretida me mantive alegre e favorável à novidade. Mudança, que bom! Mas quando finalmente todas as conjunções favoreceram e o novo endereço se desenhou senti-me suspensa no ar. O certo é que gosto da idéia, mas me assustam mudanças.

- O que acontece comigo?

Não sei, mas continuei minha rotina mantendo-me dentro de limites conhecidos. Logo o pessoal de casa começou a notar:

- Não está feliz com a mudança?

-...

- No outro apartamento teremos a segurança das vagas.

-...

A única justificativa plausível era a de que esta mudança me encontrava mais velha. Menos sujeita à troca de pele, a ter minhas gavetas abertas, remexidas, viradas para dentro de caixas. Talvez me assustasse a possibilidade dos encontros com antigos desejos, sonhos agora estranhos, até algum soluço esquecido. Quem sabe?

- Não é nosso caso, mas velhos não se mudam? Perguntou meu marido, quando arrisquei a hipótese da provável velhice.

- Sim, mas já não se alegram tanto com isso.

- Ainda tem tempo. Quer desfazer o negócio?

- Nossa! Claro que não. Adorei o apartamento. É que sinto ter de sair daqui. Outro lugar, outros rostos, outras paredes. Pior é que estou satisfeita com nossa largura. Não sinto necessidade de espaços maiores.

Todas as explicações foram dadas, todas foram rebatidas, todas foram questionadas. Seja como for, lá estava minha agonia, sempre que uma conversa alegre coloria a nova casa. Não queria me desfazer do que era meu. Como se os anos passados ali estivessem recortados em quadros pendurados nas paredes imaginárias do agora. O crescimento da filha, minha maturidade. Mudanças internas importantes e contraditórias. Coisas que não se carregam em malas. Também imaginava meus cantos modificados, invadidos, meu gosto desgostado e alterado.

- Será que com o passar do tempo vou aceitar naturalmente? Que besteira, o novo é melhor. (E desconhecido também) O lugar bom. (bom é onde consigo me situar).

De tal modo me sentia que levei algum tempo até conseguir comunicar aos amigos, parentes e vizinhos que no máximo em dois meses estaria trocando o endereço. Agora passei a ficar mais tempo em casa, sempre resistindo à idéia de começar a embalar o guardado. O meu cheiro, meu gosto, nossas marcas pelos cantos, até as cores das paredes faziam parte do meu cenário.

Um amigo da academia aventou a hipótese de que estaria muito concentrada em minha neurogênese. Provavelmente era isso mesmo, seja lá o que quer que isto signifique.

Mas as semanas passando me obrigaram a esvaziar medos. Comecei com os livros. Não os meus apenas aqueles que serviram de suporte de estudo. Dicionários, que montei nas ofertas dos jornais. Algumas enciclopédias que entraram em casa via promoção de domingo. Gramáticas já revistas. Coloquei-os em pilhas no chão. Depois passei para os quadros, selecionei alguns e juntei aos livros. Separei pratos, bandejas, xícaras que dificilmente saiam dos armários. Não me sentia disposta a carregar pesos neste novo começo. E agora a sensação que tinha é de que não conseguiria voltar atrás. Aquele espaço se desprendia de mim, muito embora o outro ainda não circulasse em minhas veias. Nunca me senti tão perdida, solitária, esvaziada. Mas fui em frente, porque como se diz, a fila tem de andar. Então, enfileirei meus antigos pertences, avisei minha faxineira, as duas filha do zelador e a menina da moça que trabalha no sétimo andar.

Aos amigos enviei um e-mail.

- Família muda-se e oferece alguns itens:

Queridos amigos, estou realmente me mudando. Venha por favor, conferir. Prometo fazer um café gostoso e alguns bolinhos de chuva.

Dia, hora.

É que nessa mudança, muitas coisas não são minhas mais. Pensei que talvez pertençam a vocês...

maria izabel