Fim de ano


Dezembro!

Como todo ano tirei do maleiro as caixas com enfeites, pequenos anjos, bolas, guirlanda, presépio.

Época de enfeitar o natal.

Coloquei ao sol, aspirei o pó e espalhei pelo tapete da sala esperando ajuda da filha. Antes de começar a arrumação, alguns cartões de boas festas do ano que passou chamaram a minha atenção.

Comecei a ler as mensagens.

Um deles trazia votos de um feliz natal. E que papai-noel me trouxesse todos os meus sonhos.

Sonhos? Papai-noel pode me trazer sonhos? Não sei por que comecei a pensar no que eu pediria ao bom velhinho. O que escreveria a ele.

Um desafio!

Nossa, o que se deve pedir. Acho que é bom começar com paz, saúde, igualdade. Ou não? A carta é pedido meu a ele. Como faço? Peço que me traga um sapato novo, uma roupa nova?

Não, sapatos e roupas vindos de alguém que se supõe viver num local muito frio, não teria nada a ver comigo e também não estou interessada nisso.

Sei que quando a filha chegou da escola eu ainda estava perdida nos pedidos.

Perguntei a ela se fosse pedir o que pediria. Ela riu.

- Mãe você tem cada uma, pode me dar o que quiser.

Não, se eu escrevesse nunca iria deixar que trouxesse o que quisesse. De jeito nenhum.

Escrevi, li, rasguei. Tornei a escrever e então...

Então, se eu acreditasse em natais, colocaria esta carta no correio endereçada ao papai-noel. Talvez ficasse receosa pois nem sempre me comporto bem. Afinal meus cinqüenta anos quase me dão esta autonomia. Mas como a praxe é comportamento versus presente, eu pediria a ele que levasse em conta meu desencanto, meus medos e até minha timidez. Que ele entendesse também que sou mulher e que para nós mulheres nem sempre dois e dois são quatro e nem sempre o caminho mais curto é o que consigo fazer.

Como nunca escrevi este tipo de carta nem sei como começar. Com um olá? Um caro senhor? Uma maneira mais formal de tratamento. Não sei.

Quem sabe ele percebesse que sou novata no ofício e sorrisse ao ler o início da mensagem, percebendo minha confusão, e assim quando chegasse na parte em que peço primeiramente que procure por alguém meu que se perdeu estivesse sensibilizado.

Sim, eu explicaria direito que a procura seria cansativa pois não se sabe se a perdida perdeu-se durante este ano ou se já vem assim há muito tempo e apenas agora me dei conta.

O grande problema seria uma vez encontrada fazer com ela caiba novamente dentro de mim. As dificuldades deste ano, algumas mudanças nos ventos, à rapidez com que tive de me refazer de chegadas e partidas tumultuaram de tal forma que me dividi. Então preciso de ajuda pra juntar as partes. A carcaça antiga que cumpre todos os deveres a que se sente obrigada, com o ser avoado, cigano e sedento que se desprendeu . Por conta disso perdi emprego, amizades, amores. Ganhei tudo isso também. Vi desânimos em olhares amigos, conheci pessoas com quem sempre convivi. Desconheci muitas delas. Não tive saco pra continuar a conversa. Ri e cantei no meio da rua.

Quis desistir várias vezes e recomecei outras tantas. Sonhei em morar na casa grande e antiga da esquina, perdi o chapéu do meu pai, comecei e parei muitas dietas, aprendi a usar essências, tive insônias na época do vestibular. Alguns deveres se impuseram aos meus mais caros desejos, aprendi a correr. E a tudo isso sobrevivi.

Então meu querido papai-noel, pensando melhor, se eu colocar esta carta no correio vai ser realmente para pedir, que caso me encontre mande notícias apenas. Não me traga de volta, me permita ousar. Falar alguns palavrões. Deixar a ternura escoar. Ter vontade de beijos e abraços e buscar. E falando em ousadias, embora compreenda que papai noel tem tudo a ver mas não é gênio de histórias infantis onde se podem formular três desejos vou fazer apenas mais um. Foi muito cansativo o ano, meses se atropelaram e dezembro chegou muito antes do final. Peço então que me dê, antes do natal - férias. Um pouco de tempo. Que o mês de janeiro venha e eu possa descansar o corpo. Que o espírito, é um zumbi. Incansável. E assim quando janeiro chegar ao final um pequeno interregno e antes de fevereiro a gente comemora descansado e em paz o natal.

Li e reli minha carta, dobrei, coloquei no envelope. A carcaça sensata se moveu atrás da listinha de presentes, enquanto a ousada esticou os pés e sorriu olhando a filha encantada preparando o nosso natal.

maria izabel