Gregos

No estreito corredor do supermercado, além de vários tipos de arroz, feijão, café, apenas eu e aquela moça.

Que moça?

Uma moça. Nada tinha de diferente.Uma moça, e pronto!

Mas ela se aproximou e, em voz baixa, pediu:

- Pode ler o que está marcado aqui? Esqueci os óculos.

- Claro! Li rapidamente, era o valor.

Ela agradeceu e ainda pediu pra ler o preço do feijão e do café que estavam na promoção.

É, a vida anda dura.

Não sei quanto tempo depois, no metrô, outra moça. Também nada tinha de diferente, mas, nesta, prestei um pouco mais de atenção. Algum alarme interno, ou então porque aparentava ser bem jovem. Na casa dos vinte anos.

- Você vai descer logo, perguntou-me?

- Na Estação Paraíso.

- É depois da Liberdade?

- É sim.

- Me avisa quando chegar à Estação Liberdade?

De olhos baixos, completou:

- Esqueci os óculos.

- Claro.

A moça desceu. A cortina subiu. Lembrei-me de uma amiga, dona de uma escola de inglês contando da sua última viagem à Grécia. - Nada lá é escrito em Inglês. Em português, nem pensar. Então ela me disse:

- Nunca senti tanto medo, não entendia nada de nada!

Fui tomada de certo pânico:

- Será que aquela moça era grega?

Da janela tentava enxergá-la em meio à multidão. Ela saberia pra onde se dirigir? É muito difícil para um grego compreender nossos símbolos.

Foi então que passei a observar quantos gregos existem pelas nossas ruas, pelos nossos dias, pelas nossas vidas.

Minha vizinha tem uma ajudante em sua casa, grega. Sim, eu a escutei contando das suas dificuldades para uma outra grega do andar de baixo.

- Minha filha está com o peito cheio. Levanto várias vezes de noite pra dar remédio, pra fazer a inalação que o médico do posto mandou. Outro dia tava com sono, confundi os vidrinhos, tudo parecido. Agora faço assim: o que dá batedeira é o perigoso, deixo debaixo da cama. O outro que o médico falou que num é de bater muito, coloco debaixo do travesseiro. No dia em que confundi, a menina quase morreu.

É, os filhos dos gregos também adoecem. E mães, todos sabem, são sempre iguais, excessivamente preocupadas.

Também me chama atenção o fato dos gregos serem muito nervosos, falam pouco, sempre sérios, por vezes ríspidos. Acho que é o jeito que arranjaram pra disfarçar o não entendimento.

Outro dia observei um grego bem velhinho. Porque todos envelhecem, inclusive os gregos. Estava bravo, falava agitado. Ele queria ir ao banheiro, as pessoas indicavam, mas não perceberam que ele não saberia achar a palavra WC/Masculino que todos diziam ficar virando a esquerda.

Ele esbravejou, mandou todos a puta-que-o-pariu e se afastou rapidamente para que ninguém percebesse que a calça estava ficando molhada.

Dona Filó, a mãe do zelador do meu prédio, gosta muito de fazer crochê. Isso crochê, e tem muita habilidade. Juntei algumas revistas e fui levar para ela, que devolveu entristecida. É grega. Não consegue entender a receita escrita, nem mesmo se distrair com um livro, com um jornal. Não dá. Só consegue o jornal da TV.

Fiquei pensando. Como será que eles fazem quando tem de procurar o nome de uma rua, o endereço de um novo emprego, procurar numa clínica o nome do médico escrito na porta?

E achar o número do ônibus, quando tem de ir a algum lugar diferente e com o dinheiro con-ta-do.....?

Já cheguei a supor que para eles as letras funcionam como desenhos. Penso em quantos quadros impressionistas são vistos diariamente por tantas pessoas. E pessoas que nunca nem ouviram falar em movimento artístico, que nunca freqüentaram um museu.

Mas um fator novo tem me chamado à atenção. A maioria das crianças, e agora falo no geral, está se tornando grega, estão tendo a mesma dificuldade. Não conseguem aprender o português.

Vovó não aprendeu a ler pra saber se Ivo viu a uva, era mulher numa época de muita discriminação, e talvez fosse pobre demais pra freqüentar escola. Mas o netinho freqüenta, e também não sabe. Muito menos o Ivo.

Eu vi a uva cedo, em cartilha bem rudimentar, em escola pública e simples. Tenho poucos erros de português. Não me lembro de ismos pra se ensinar, nem de professores tão cursados.

Eu acho que nasci grega, mas nasci antes do país ter se tornado grego para os seus.

 

maria izabel