Histórias de família


O que sei sobre esse dia me contaram. Um pouco meus pais. Outro tanto meus avós. E finalmente meus irmãos. Afinal, sou caçula, a sexta filha.

E tudo começa assim.

Quando cheguei era tarde. Muito tarde.Três e quinze da madrugada.

Agora, disseram, o medo tomava conta. De mim? Não apenas. Pois meus pais estavam a minha espera.

Ao entrar, não tivesse o olhar nublado, se fosse capaz de entender, teria ficado surpresa. Afinal, toda família estava a minha espera. Até meus irmãos.Contam que meu pai, muito nervoso, há horas, andava da porta da sala à porta da cozinha. Espiava pela janela, e voltava sobre seus próprios passos. Estranho percurso. Como se assim me ensinasse o caminho de chegar

Fumou um cigarro atrás do outro. E ele nem fumava.

Quando me ouviu, não disse nada. Abaixou os olhos como é do seu feitio quando está muito tenso e saiu. Talvez tivesse vontade de correr e me abraçar. Mas ficou esperando pela minha avó.

- Sabe de uma coisa? Acho que ela estava muito zangada com você. Contou-me um dia meu irmão, apenas dois anos mais velho do que eu.

- Por que?

- Ah! Eu espiei e vi, ela te segurou firme e deu uns tapas.

Ainda bem que não me lembro. Mas devo ter ficado magoada. Afinal, acabei de chegar e antes de qualquer gesto ou movimento, apanhei?

Cansada.Muito cansada. Assim estava minha mãe. Oxalá eu tivesse chegado antes do anoitecer.

Mas, era madrugada. Em seus olhos todos contam, havia dor e ansiedade.

Até parece que ficou com pena dos tapas que levei. E enquanto minha avó saiu pra chamar meu pai, ela me abraçou. Mulher de natureza delicada e terna. Perscrutou-me. Queria ver se estava machucada.

Disse-me baixinho:

- Sabe filha, não contava mais com sua chegada. E estou feliz. Muito feliz.

Nisso meu pai entrou. Agora mais calmo. Finalmente abraçou e beijou. A mim e a minha mãe. Entre eles, amassada, fiquei quieta. Em algum canto da minha memória gravou-se o cheiro daquele momento. Quando penso neles. Sinto. Sei que choraram. Silenciosamente eles choraram. Algumas pessoas tentaram se aproximar. Mas respeitosos nos deixaram a sós.

Minha mãe colocou-me deitada a seu lado e finalmente pode descansar. Meu pai saiu e nos deixou dormir.

Algumas horas depois acordei com fome, não tinha comido nada ainda. Quando minha mãe me colocou entre os seios, toda a família se reuniu.

Estavam lá, pai, mãe, avô, avó, meus irmãos e uma velha tia. Sorridentes!

Em volta da poltrona olhavam antes do clarão da antiga máquina de tirar retratos, para a menina pequena que furiosa tentava pela primeira vez sugar o seio. A imagem deste momento feliz ainda existe. Mas a emoção, essa ficou guardada no olhar de minha mãe.

Em meu quarto, acomodada na poltrona, o clarão é o da minha memória e todos os outros me fitam sorridentes daquela antiga foto no porta-retrato sobre a mesinha. Emocionada recordo-me amamentando minha filha que quando chegou - era de manhã.

maria izabel