Inquietude

Incrível! Mas tem sempre alguém fazendo apologia ao “antigamente” ou à volta ao interior, onde a vida é tranqüila, as pessoas simples, confiáveis e onde os políticos não conseguem fazer grandes estragos. Provavelmente por falta de espaço, pensei, mas não disse. Afinal, Dona Estela, minha vizinha do sexto andar nunca me pede favor e é sempre tão solícita. Jamais faz uma receita gostosa que não se lembre de me mandar um pouquinho. No dia anterior veio perguntar se eu conhecia um mercado que vendesse pãezinhos pré-assados. O filho vem visitá-los e como ele andou adoentado ela queria fazer um agrado oferecendo pão quentinho no café da manhã. Não poderia dizer que não. Então, eram 16:30h de uma bela tarde de verão e eu escutava aquela conversa toda, de São Paulo não ter mais jeito. Que era uma cidade violenta, sem perspectivas. O último lugar plausível de se morar. Claro, me comportei segundo o esperado, e dei as respostas que parecem fazer parte do manual. São Paulo é uma cidade grande. Realmente anda terrível. Sem muito interesse, e para desviar o assunto falei sobre árvores. Quem sente saudades do interior tem de sentir saudades delas.

- Reparou quanta goiabeira tem na nossa rua?

- Um horror filha. Cheias de bicho.

- Dona Estela, quando eu era pequena nunca me lembro de ter olhado pra ver se as danadas tinham bicho.

- Ela riu, mas emendou. Viu o bando de maritacas por lá? Tudo por causa delas. Que barulho! Uma sujeira. O pessoal pisa nos goiabas e traz pra dentro do prédio. Já falei pro Antonio que não entre mais calçado em casa.

Parada no transito olhei para os lados. É realmente uma cidade mal cuidada. Apesar das goiabeiras, abacateiros, mangueiras e pitangueiras, carregadinhas de fruta, também tem papel, sujeira de animais, pichações e pobreza, muita pobreza. Estranha esta minha cidade. Tão maltratada! As pessoas se movem nervosamente.

Do outro lado da rua um grande hospital público. Dona Estela percebendo meu olhar fez o comentário usual.

- Tão grande e tão ruim. A moça que trabalha lá em casa veio marcar uma...

Só escutei, pois argumentar que não era ruim é o único num perímetro muito grande e para onde são levados todos os casos de resgate na zona norte não iria aliviar a conversa.

E também agora, faltava pouco, era só terminar de descer a ladeira, atravessar o cruzamento de cinco avenidas, subir a outra ladeira e lá estava o supermercado que vendia os tais dos pães fresquinhos. Enquanto esperava que o pessoal no ônibus à frente do meu carro descesse, observava as pessoas. Muita gente na fila. Algumas mulheres com os filhos pequenos no colo. O olhar das crianças se perdia nas barraquinhas precárias armadas em toda a ladeira ao longo do muro do hospital com pacotes de salgadinhos, bolachas, pipocas doces.

O olhar das mães na amplitude. Denotavam cansaço. Talvez do dia, quem sabe da vida, do trabalho.

Também me sentia cansada. Da conversa, do dia, da inutilidade de ter esperanças.

Meu carro era o quarto da fila no farol. Mais um pouco e teria cumprido minha boa ação do dia. Infelizmente o mau humor que sentia invalidava toda boa intenção que tivesse começado aquela ida ao mercado.

Então vi, o sinal abriu, fechou, novamente e novamente. Nada se moveu. Ninguém buzinou. Que teria acontecido? Mas o ônibus foi um pouquinho mais pra direita como se tentasse alargar o espaço. Assim foi que vi. No meio do cruzamento, um carro de resgate atravessado, dois socorristas parados e todas as avenidas aquietadas. Nenhum vestígio de acidente. Nada! Apenas um sentimento de quietude parecia juntar todos naquele lugar. Como o silêncio que antecede a noite ou o cheiro que antecede a chuva.

- Que é isso? Perguntou dona Estela. Olha lá, aposto que o farol embandeirou. Mas com aqueles caras, agora sim que ninguém anda.

- É o resgate, acho que aconteceu alguma coisa.

Resgate? Minha nossa senhora. E benzeu-se por três vezes.

Não respondi. Em uma cidade como a minha, sentimento de calma coletiva sugere catarse. Sem dúvida fiquei atenta, bicho urbano aguardando tempestade. O que viria?

Então vi. Em meio ao cruzamento o helicóptero pousou. O pó, a sujeira da cidade subiu em redemoinho e se dispersou. As copas das árvores eriçaram executando uma dança estranha. Dos carros mães, filhos desciam de celular na mão pra registrar o fato. Mas se movimentavam em silêncio, sem barulhos. Em completa reverência.

Os socorristas esperaram serenar o vento e correram em direção ao helicóptero.

Depois de algum tempo, surgia a maca.

Rapidamente foi colocada no resgate, os cuidados necessários devem ter sido feitos porque demorou alguns minutos. Até que com a sirene ligada à ambulância subiu e completou os menos de vinte metros da entrada do hospital.

Ninguém se mexeu até que o barulho de pedido de passagem não se ouvisse mais. Só então, cada um voltou, aos poucos e ainda silenciosamente, para sua vida, seus interesses. A cidade tem ramificações, múltiplas e nervosas. Dona Estela calou-se. Eu não tinha mesmo nada a dizer.

maria izabel