Insônia

Talvez a madrugada estivesse alta. Quase anunciando o dia. Quase. Foi o que pensei, mas quando passei do revirar na cama pra procura do relógio constatei. Não havia se passado nem uma hora inteira desde o momento em que me deitei.

Como acordei?

Sem certezas atribuí ao caminhão do lixo, que as segundas, quartas e sextas-feiras espera a noite se aprontar pra boêmia e desce a ladeira esvaziada onde moro.

Mas hoje não tem feira. Apenas silêncio. Silêncio que vez por outra é cortado pelo som dos carros.

Ao meu lado o marido dorme tranqüilo. E nossa casa ressona.

Resistente fecho os olhos, aquieto, tento me aquecer. Não resolve.

Cansada, levanto. Espio pela janela da sala. Em outros prédios, outras luzes. Vou até a cozinha, olho a geladeira. Nada interessa. Em seu quarto minha filha dorme também. E agora pensando nela sei o que me despertou. Lembranças.

Ontem, ao lhe desejar boa noite, disse uma coisa que há muito não dizia.

E só dizia quando ela era muito pequena e tinha medo de escuro. Depois das luzes apagadas, ficávamos brincando de apontar os objetos e nomeá-los. No final sempre a frase:

- “No escuro ou no claro tudo fica no mesmo lugar.” Ela ria e eu saia.

O medo do escuro passou, outros medos vieram... Mas esta noite não sei. Uma grande expectativa ronda. Amanhã sai a lista do vestibular.

Ela sempre gostou de escola, eu sempre me preocupei com aprendizagem, mas antes de qualquer coisa sonhei com que fosse feliz. O pai, lembrando das dificuldades que teve me pediu pra arrumar uma escola bem pertinho e bem facinha.

-Ninguém precisa ser o primeiro. Vamos deixar que ela cresça em paz.

Nós deixamos. Ela cresceu. Sempre preocupada em ser a primeira, em aprender tudo que pudesse. Fez questão do padrão A.

Nunca me preocupei, nem o pai.

Mas agora é tão tarde, é tão noite. Não consigo dormir. A lista do vestibular me empurra pra fora da cama.

- Mãe, perdeu o sono?

- Não, tinha fome. Minto. E você?

- Eu levantei mesmo, fui ver se a NET já tem a lista dos aprovados. Vi a luz da cozinha acesa...

- Filha - calma você acabou agora o colegial, é muito nova, quer um curso concorrido...

- Sem calma mãe, não quero mais um ano de estress.

- Tudo bem, mas o cursinho é tranqüilo...

- Mas eu quero entrar agora. Estudei, me matei...

- Está certo, quero que você saiba que...

- Ó, fica sussa, estou bem, a lista não saiu e eu vou é voltar pra cama.

- Também vou. Minto novamente.

Através dos vãos de minha menina, enxergo os meus desvãos e vislumbro labirintos. Se ela entrar vou ficar tão orgulhosa. Mas ela é tão menina. É muito maturidade pra essa adolescência. E se não entrar? Então vai ficar infeliz, as pessoas vão perguntar. Como vou me sentir? Confusa, chateada, em paz? Não sei. Quem a conhece aposta nela.

A idéia da aposta me deprime. Não posso vê-la como um jogo de sortes ou azares.

Em silêncio vou até o quarto dela, deito ao seu lado. A casa está em casa. Quase tudo em seus lugares. Adormeço.

maria izabel