Invernada


Tem feito frio!

Eu que sou suleada e gosto ressinto-me. Não tenho roupa apropriada, minha casa não tem calefação.

Pelas ruas o que se vê são braços cruzados. Tentativa de ajudar as blusas. Braços sobre blusas.

Nos pontos de ônibus, no metrô, a mesma conversa.

- Que frio heim!

- É, ouvi no rádio que a temperatura vai cair mais ainda.

As crianças pequenas no colo das mães enroladas feito charutinho. As maiores mal conseguem andar, de tanta roupa. Pequenos robôs.

Com minha blusa bonita, também me abraço e observo.

Foi uma discussão besta. Terminou com um dane-se e o desligar do telefone. Procuro o que está por trás. O que realmente justifica tal explosão.

A chuva gelada surpreende. Compro um cachecol. Garantem-me: - É de lã.

Enrolo à volta do pescoço. O frio desce pelas paredes das casas, pelos vidros. Azulejos umedecidos.

Na secretária um pequeno recado. Vago. Retorno rapidamente. Tolices se dissipam. Espero...

O frio continua intenso. Alguns já providenciaram gorros e luvas que Caetano classificaria de deselegância discreta. Eu chamo de frio indiscreto. Pois ele desce pelas pernas.

O cachecol é acrílico. Fui enganada ou deixei-me enganar?

A resposta não vem. Amor acrílico? Turva-se o olhar.

Qual é a deste inverno fora de época? As lojas há muito não fabricam roupas de frio. É sempre tão passageiro.

O amor também, feito o frio.

Silêncio invernal. Que papel feio!

Reviro minhas gavetas. Procuro. E aqui encontro. Agulhas de tricô esquecidas.

Mando um correio delicado. Falando firme, mas docemente do meu sentir. Com lãs discretas quero ponto a ponto, transformar o fio em casaco.

A resposta não vem. Indecente na sua falta de sentimento.

Termino a última carreira. A blusa fica bem. Aquece. Releio a mensagem enviada.

Faço um cachecol. Agora de lã, quentinha.

Adoto medidas sobre-humanas, triviais. Apago o número do telefone. Deleto o endereço eletrônico.

Faz frio. Muito frio.

A blusa aquece meu corpo. De li ci o sa men te.

Compro novos novelos. Cores quentes, coloridas. Clareio o inverno em mim. E ainda aguardo.

Nenhuma palavra. Quieta e silenciosa estação.

Aquecida, a chuva agora desaba - dentro de mim.

maria izabel