Jabuticabas

Não fosse pela barata que subiu tranquilamente os oito andares do meu prédio e através da sacada tentou entrar na sala, talvez eu não tivesse a idéia.

Mas a barata tentou, e eu vi, o que desencadeou um medo ilógico. Corri, gritei, e já tinha lágrimas nos olhos quando Dona Maria me socorreu e com uma vassourada certeira acabou com o inseto.

Se a barata, que acredito ter um plano de vôo de poucas horas, consegue chegar a esta altura, passarinhos devem poder mais.

Então saí à cata de um recipiente plástico enfeitado com algumas florzinhas do mesmo material e que servem justamente a este fim – colocar água açucarada para atrair pássaros. Beija-flores, bem-te-vis, sabiás. Com esta pretensão, diariamente repetia a rotina:- Lava, coloca o líquido docinho, prende na corrente que está pendurada no teto e espera. Que nada! O máximo que consegui foi atrair abelhas e pequenos morcegos.

Mas a vontade de ter passarinhos sobrevoando o terraço não me largava e assim embora com sérias dúvidas resolvi apostar novamente nos vasos de flores. Quem sabe o néctar das mesmas atraísse os pequenos voadores emplumados. Já sabia de experiência anterior que o vento não costuma facilitar floradas em apartamentos, mesmo assim...

Comprei vasos grandes, escolhi terra boa, adubei e optei por plantas resistentes...

Quando o vento era muito forte, colocava um plástico em volta na tentativa de defesa. Muitas vezes o plástico voava e caia lá embaixo no prédio como uma pipa mal conduzida.

Dona Maria, faxineira lá de casa, gosta muito de plantas e sugeriu:

- Por que no lugar de flores a senhora não planta jabuticabas? É uma árvore resistente e passarinhos gostam de fruta. Minha patroa das quartas comprou um pé pequenino com duas jabuticabinhas. Mas isto foi no ano retrasado. Ano passado o pé se encheu. Precisa ver. E tá no vaso.

Aquele comentário me deixou enlouquecida. Na primeira oportunidade passei por uma casa que vende árvores frutíferas e escolhi uma jabuticabeira bem formada. A meu pedido, o dono da loja, plantou-a num vaso enorme. Lindo!

Mas ficou tão pesado e grande que não coube no carro. Então, na tarde seguinte o vaso me foi entregue. Imponente. Nem aí com o suor dos homens que o tempo todo reclamaram do peso. Fiz cara de paisagem e mostrei o lugar onde esperava que ela florescesse e se enchesse de frutas e pássaros.

Todos os dias aguava, porque é sabido que jabuticabas precisam de água pra dar frutos docinhos, tirava as folhas amareladas e aguardava.

O tempo do vento chegou e minha jabuticabeira lá resistindo a tudo. Firme e forte.

Mas numa tarde recebi a visita de uma amiga engenheira florestal. Comentei com ela o meu desejo e ela se riu.

- Bel, com esse vento não vai dar fruta. O vento fecha os estômatos das folhas e com isso diminui a fotossíntese. Consequentemente a elaboração da seiva. Ela vai continuar bonita e saudável como está agora, mas...estéril.

Aquele diagnóstico me deixou arrasada. Assim que ela saiu comecei a remover o vaso, que agora se encontra assentado sobre uma plataforma de rodinhas para dentro de casa. Ainda assim, o máximo que consegui foi puxá-lo até o começo da sala. Dali seria possível fechar a porta de vidro e mantê-lo fora do vento. O grande problema seria a rega. Eu não poderia executar essa operação. O piso de madeira lustroso que refletia o vaso provavelmente iria refletir as manchas que a água acarretaria.

- Arre, que faço agora?

Puxar através da sala até a cozinha, nem pensar. Pesado daquele jeito iria marcar todo o assoalho. Então esperei pela filha e pedi ajuda. Um tapetinho foi colocado ao lado. Com jeito e alguma força deitei o vaso o suficiente para que Mariane pudesse colocar o tapete sob duas das rodas. Operação completada fizemos o mesmo do outro lado. Depois ela foi empurrando e me orientando enquanto eu atravessava toda a sala até o hall de entrada do elevador puxando pelo tapete. Ali sob uma janela comprida e um piso frio deixei o vaso.

O problema é que o hall é pequeno, e a árvore diminuiu ainda mais o espaço. Então as reclamações começaram:

- Que não é possível entrar em casa com aquela jabuticabeira.

- Quem já viu um hall com uma árvore.

Me fiz de surda, mas no dia que meus sobrinhos pequenos chegaram e alguns galhos da árvore se quebraram no impacto da porta do elevador , entendi, que não se pode ter tudo.

No dia seguinte com a ajuda de Dona Maria devolvi a árvore ao vento e a sacada.

Ela bem que tentava me animar:

- Num ligue, a árvore é resistente, ela vai dar muita jabuticaba. Mas eu lembrava da Márcia e do vento.

Os ventos levam todas as coisas, até meus passarinhos. Porque não levam as baratas?

Por outro lado a idéia das baratas no vento me deixou quase que num filme de terror. Melhor assim. Sem jabuticabas e sem baratas.

Minha árvore cumpriu seu ciclo, ventou, não frutificou. Mas uma manhã acordei e quando fui espiá-la vi que sobre a terra do vaso se amontoavam uma grande porção de frutas gordinhas e pretas, empilhadas tentando alcançar o tronco...jabuticabas.

Dona Maria sorria, com as mãos tingidas pelo caldo da fruta. Mostrou-me o saquinho da feira vazio e segredou:

- Eles não sabem que não é dela...

maria izabel