Macacos me mordam

É uma sala grande, toda branca. Frente à porta uma pequena recepção. Do lado direito espelho, e no fundo os lavatórios.

Vou lá todas as semanas fazer as unhas. Engraçado isso de fazer unhas. Nasci com as minhas. Mas, Luzia compenetrada em minhas mãos, corta um pouco, passa lixa, creme e finalmente um tom colorido. De qualquer maneira, saio de lá com elas “feitas”.

Luzia é uma morena bonita nascida na Bahia. Quieta, discreta, olhar atento. Tanto olha minhas unhas, como o que acontece ao redor. A primeira coisa que faz ao me ver sentada é oferecer uma revista. Acho ótimo! Saio de lá atualizada. Afinal, onde eu poderia saber de algo tão importante como o que li semana passada. A revista sugere que Luma de Oliveira teve um caso fora do casamento.

Que coisa! Jamais pensaria nisso. É, mas a foto do bombeiro me deixou pensando que essas coisas podem acontecer. O incêndio deve ter sido daqueles.

Enquanto me perdia no tamanho do incêndio, chegou um rapaz que foi imediatamente atendido por Gama, dono do salão. Homem na casa dos quarenta e cinco anos, alto, bonito e falante. Eles começaram a conversar e por alguns momentos me desconcentrei.

- Bicho você nem acredita o que me aconteceu. (Era a voz do Gamá.) Você sabe que eu comprei uma casa num condomínio lá na serra da Cantareira né?

- Sei sim.

- Mês passado resolvi fazer umas reformas na casa. Os vizinhos indicaram uns pedreiros conhecidos.

- Bons?

- Ó, tem um lá que eu não gosto muito. Um mulato baixinho. Já escutei umas conversas esquisitas dele com os outros.

Ele continuou.

- Sei que andei cismado com o tal mulato.

Eu fingia que lia e Luzia demorava muito passando o creme, cabeça baixa, orelha em pé.

- Então, no sábado a coisa aconteceu. Sai cedo de casa com a Paula e a Manoela. Quando voltei escutei barulho, como se tivesse acontecendo uma briga.

Espiei por uma pequena fresta do portão, vi um vulto preto.

- Tinha certeza que era o tal do pedreiro. Peguei um pedaço de pau, pedi pra Paula ir chamar ajuda e entrei, achando que o cão tivesse avançado nele.

- Cara, não era uma pessoa. Era um macaco. O danado já estava em cima do meu cachorro.

- Comecei a bater nele e fui batendo, batendo, até que ele largou o bicho e veio pra mim. Continuei batendo. O pessoal da portaria chegou e ele fugiu pra uma árvore próxima.

- Que susto heim?

- Susto? O filho da puta lá de cima se ajeitou num galho e começou a mijar em cima de nós.

O rapaz caiu na risada, eu me escondi atrás da revista. Luzia borrou minha unha.

Quando chegou no topo da árvore então, foi um deus-nos-acuda, o veado do macaco fazia coco na mão e jogava na gente. Foi uma correria, uma espalhação de merda que você nem imagina.

Ai era demais, eu e Luzia caímos na risada.

Eles nos olharam. O cabeleireiro parou de cortar o cabelo e falou.

- Ces tão rindo é, ele quase matou meu cachorro.

Mesmo com pena eu não conseguia parar de rir e de pensar na Luma e no caso dela. Ela que me desculpe. O bombeiro é muito bonito, mas fez igual o macaco...Sacana. Espalhou no ventilador.

 

maria izabel