Meu pé de limão-bravo

Quando o conheci impressionou-me mais o pequeno espaço em que se desenvolveu do que a árvore em si. Mesmo porque infâncias passadas no interior fazem das árvores, sejam elas pés de limão, laranja, jabuticabas ou araçás apenas mais uma. Mas aquela era grande, frondosa mesmo, galhada, ocupando boa parte do pequeno terreno, que era também sombrio e de terra seca. Minha tia contou a minha mãe que quando se mudou pra lá o tal de limão bravo ali estava. Pleno. Em toda sua belezura. E que, mesmo precisando aumentar o pequeno quintal, nem ela nem o tio tiveram coragem de cortá-lo. Assim ele ficou por ali. Dono absoluto da maior parte do espaço que eu e meus primos tínhamos pra brincar. Árvore grande, espinhuda, que não era dada a distrações. Bastava passar correndo por perto e lá vinha ela arranhar os braços e as costas da gente. Não dava pra trepar, nem para se esconder atrás de seu tronco, que era forte, mas fino. Quanto aos frutos, embora em grande quantidade, nem pensar em descascar com a unha e chupar. Arre!... Ninguém agüentava. Azedos demais.

Mas a gente foi convivendo, aprendendo a desviar do espinho, adoçar o caldo.

Enquanto me lembrava destas imagens a discussão na mesa do restaurante corria solta. Aliás onde quer e com quem quer que Marisa estivesse todos os assuntos acabavam em discussão. Se ela pudesse ler meus pensamentos já iria dizer:

- Com quem quer? Não! Só ando com quem quero, e com muito pouca gente hoje em dia. E quanto a discutir, não posso ficar ouvindo tanta besteira junta.

Marisa é minha amiga de anos. Muitos anos. Costumamos brincar, que é um casamento que deu certo. Inteligente, rápida de raciocínio. Nada lhe escapa.

Naquele momento tentava me convencer a conseguir a vaga de alfabetizadora num dos grandes colégios do bairro

- Bebel, você não vai tentar, você vai conseguir, entendeu?

- Marisa, veja bem, tenho mais de cinqüenta anos, não tenho formação em pedagogia. Se você fosse diretora da escola, escolheria a mim ou a qualquer um dos trezentos outros curiculum com formação adequada mais pós e doutorados?

- Você certamente. Não imagina que dificuldade é se conseguir uma alfabetizadora capaz. Larga de ser medrosa, se apresente, diga que vai se inscrever em pedagogia. Em pouco tempo vai estar formada. Você precisa trabalhar.

Em nenhum momento ela parava pra pensar se eu estava disposta a voltar pra faculdade. E se precisava trabalhar como iria pagar a faculdade. E eu naquele momento só queria conversar e jantar. Assuntos amenos, descompromissados.

Por sorte, minha, claro, Elisete aproveitando-se da discussão escolheu sem perguntar um vinho tinto. Imediatamente o foco da discussão mudou. Como ela escolheu? Por que tinto, será que todos preferem tintos?

Dito isso, chamou o garçom:

- Um momento, ainda não escolhemos o vinho, só ela que gosta do tinto.

Impressionante, ali estava um imenso pé de limão bravo. O garçom sorriu desconcertado e sem saber, mantendo um pouco de distancia, que eu considero, sensata, aguardou sob sua copa.

Ainda me lembro de ter rejeitado o oferecimento de minha tia em me arrumar uma mudinha do limoeiro, mas esqueci-me completamente que as sementes voam nos ventos e são trazidas pelos passarinhos. Só agora eu conseguia enxergar.

Ali estava ele, espinhudo e forte. Para brincar e conviver é preciso conhecer o espaço. Delimitar o chão para não se arranhar. Mas frondosa, de boa sombra, e se souber como, seus frutos generosos adoçam e temperam. Quase o sal da vida. Agüenta mau tempo, chão seco e se alegra no tempo bom. Dá frutos o ano todo. Não tem estação. Não se entrega. Mas há que se agüentar a acidez.

Na saída do restaurante ela rapidamente se dirige ao fiel de rua.

- Cuidou direito do meu carro?

- ...

- Acho bom heim, e séria dá de gorjeta uma nota de dez reais.

Elisete comenta:

- Você vai inflacionar as gorjetas.

- Já é tão tarde e ele tem dificuldade na perna esquerda. E também Lila o dinheiro é meu.

Caímos na risada. Impressionante como os pés de limão bravo ainda se desenvolvem... nestes tempos de tão pouca terra.

maria izabel