No tempo da delicadeza

O letreiro sobre a floreira cheia de pequenas flores - lilases, rosas, brancas e azuis anunciava o nome daquela lojinha. “Violetas em flor”. Minha filha, adolescente, diria, ironicamente ‘que meigo “. Uns degraus de pedra, uma janela antiga e uma porta pintada de branco com sua portinhola entreaberta era tudo o que se via do lado de fora. Dentro, o que algum dia foi sala, tinha tábuas corridas, paredes repletas de prateleiras de madeira pintadas em tons suaves. Parada no meio da loja – sala, eu observava. O lustre antigo, no corredor que provavelmente liga à inodora cozinha de hoje (que odores abrigou?) a escada de madeira que chega aos quartos, hoje quietos. Na verdade, me delicia imaginar o calor que tinha quando abrigava pessoas. Como era o cotidiano daquelas vidas? Sinto-me uma pseudo-voyeaur do passado.

Casas antigas. Que paixão! Aquela principalmente, uma sobrevivente! Localizada numa rua bem movimentada de São Paulo tornou-se uma ilha. Ilha urbana. Cercada de prédios por todos os lados.Tão distraída estava que me assustei com o cumprimento:

- Boa tarde!

- Desculpe! Boa tarde.

A dona da voz sorriu.

- Procura algum presente?

- Não. Quer dizer sim. Não.

Ela continuou esperando.

- Não, estou só olhando. Me chamou atenção essa pequena loja. Tão bonita, perdida entre tantos prédios.

- Fique à vontade, meu nome é Lúcia. Aceita um café?

O sorriso dela saiu pelos olhos e me encarou francamente.

- Obrigada, respondi.

- Obrigada sim, obrigada não?

Meu sorriso saiu pelas bochechas... avermelhadas.

- Aceito sim, obrigada sim.

Rimos. Ela saiu.Eu fiquei - olhando. Nas prateleiras cestos de vime pintados, abrigavam - toalhinhas feitas de um crochê fino e bem feito. Bandejas pintadas à mão. Caixas decoradas de todo o tamanho. Bolsas feitas de sobras de tecido. Enfim! Suavidades? Inutilidades?

Quem hoje em dia sabia fazer e usar uma coisa daquelas? Melhor ainda quem tem tempo pra cuidar de coisas tão delicadas e sem muita razão de uso?

Lúcia entrou trazendo o café. Nas mãos uma bandeja, recoberta por uma toalha de renda e sobre ela, duas xícaras de porcelana. Em cada pires minúscula toalha bordada onde descansavam as colherinhas.

Entre as xícaras, um pratinho com biscoitinhos.

- Que chic! Café no copinho plástico era toda minha expectativa.

- Sou de um tempo em que não se usava descartáveis. Acostumei-me. Acho.

- Lúcia, perguntei de forma direta. Você tem freguesia?

- Pouca, mas tenho, ou melhor, tinha. A loja foi vendida. Em dois meses começam a construir um prédio. Mas, por que a pergunta?

- Essa loja me lembra um tempo. Talvez esse tempo que você falou, tempo de delicadezas, que não é mais o nosso tempo.

- Você acredita que ele existiu alguma vez?

- Não sei, mas coisas tão delicadas só podem sugerir pessoas disponíveis, delicadas. Tempo delicado.

- A delicadeza está na gente, não no tempo. O tempo não é nunca gentil, as pessoas podem ser – às vezes.

- Sim, eu sei, mas...

- Mas, continuou Lúcia, grandes pintores, grandes escritores, grande músicos nem sempre foram delicados com as pessoas a seu redor. Viveram como se tudo lhes fosse devido por terem nascido com o dom, ou a facilidade de adquirir certos conhecimentos.

As pessoas que fazem esses trabalhos que vendo aqui são em sua maioria pessoas simples, até rudes eu diria A delicadeza está nos dedos, nas mãos, no olho que vê e conhece a beleza.

- Sim Lúcia, mas que delicadeza pode subsistir ao mau humor de pessoas eternamente exaustas? Cansadas do trabalho.Do transito, da difícil arte que é sobreviver?

Pensativa. Lembrei-me de algumas pessoas olham apenas para si. Costumo dizer, para seus umbigos. Como se fizessem um favor a humanidade o fato de existirem.

Senti uma saudade que não saberia traduzir. Saudade de algo que nunca se teve, mas que se pressente.

Terminei o café, comprei duas pequenas toalhinhas e antes de sair perguntei:

- O que vai fazer agora?

- Não sei, o dono da casa me deu uma indenização pela rescisão de contrato. Vou tentar conseguir outro local. Quem sabe tenha mais sorte que aqui.

Sorri entristecida, sabendo que seria uma coisa muito difícil.

Quando tornei a passar por ali já anunciavam o novo empreendimento.

“Uma ilha em São Paulo”
 

maria izabel