Nunca igual a nossos pais

Quando minha filha completou quatorze anos logo cedo observou:

- Ano que vem faço quinze! Quero uma festa linda.

- Festa?!

- Sim, de quinze anos. Nunca tive uma festa de verdade.

Ainda bem que faltava um ano, pensei, até lá...

Mas daquele dia em diante Mary só falava nisso, sempre cobrando providências.

- É cedo filha.

- Não é não, a mãe da Carol demorou pra ver e precisou alugar buffet em outro bairro.

Realmente. Talvez eu devesse começar a ver.

De má vontade comentei com o pai que deu um sorriso superior:

- Pode deixar, dou jeito nisso. Chamou a filha e propôs trocar a festa por uma viagem.

Mas que nada. Queria festa. O vestido. A valsa. O padrinho. Todas as amiguinhas tinham, por que ela não?

E era verdade. Há algum tempo quase todos os meses tinha uma festa destas. Em algumas ocasiões quando fazia parte do grupo de meninas que dançava a valsa eu tinha de ir alugar um destes vestidos de bolo de noiva.

Nem tomava atenção nisso. Pra mim estas festividades faziam parte do universo de meia dúzia de meninas, não da minha.

Enganei-me...

Então, comecei a maratona. Os salões de festa do bairro que estavam dentro do meu orçamento não tinham mais disponibilidade de dias até o final do ano.

Enquanto ia de um a outro com minha adolescente a tiracolo tentava convencê-la do contrário. Afinal eu não amei os Beatles nem os Rolling Stones, mas vivi Chico e Caetano, usei saias compridas e floridas, cabelos longos, escorridos e sempre acreditei em coisas bem mais simples.

- Sem chance mãe, quero a festa.

- Como uma apaixonada pelo Nirvana, fã de Kurt Kobain e Pearl Jeam pode pensar numa festas destas?

Sem conseguir dobrá-la, acabei marcando a festa pra fevereiro. Dois meses após seu aniversário. Única data que conciliava tudo. E a observação do buffet quase me fez desistir:

- Contrate alguns seguranças extras, os adolescentes costumam beber e às vezes acontecem brigas...

- Ah meu deus, será que tenho de convidar os pais desta criançada?

E assim transformei-me em atração das mães das amiguinhas de minha filha. Onde quer que nos encontrássemos alguém perguntava pela festa:

- Bel, Marieta me contou que você está organizando os quinze anos da Mariane.

- Não é uma grande emoção? Comentava outra mãe.

Antes que eu conseguisse responder a alegria de uma terceira, quarta ou quinta me paralisava.

- É uma delícia, se você quiser alguns endereços. Sabe na ocasião mandei fazer....

E a conversa tomava um rumo a meu ver delirante. É o sonho delas. É a passagem.

No começo ainda colocava minha posição contrária.

- Não gosto nada disso. Que sonho é esse? Aos doze anos já tem namorado ou ficante, vão a festas, baladas.

- Pra você ver que continuam sonhadoras apesar de tantas mudanças comentou Leonor com um sorriso de êxtase.

Então me calei e acabei adotando um sorriso plástico para poder agüentar este súbito status de "mãe de miss".

Mas ia arrastada a tudo isso, e só cumpria os ritos porque a dona da festa em questão conhecia como ninguém os percursos necessários.

Prova de vestido, são dois os vestidos, um da cor dos das meninas que dançam a valsa e depois outro de cor contrastante. Tipo bolo de noiva. Trocam os vestidos, continuam sem trocar seu olhar neste novo milênio. Lembrancinhas. Para demarcar o território, para você lembrar que fulana fez uma festa assim e assado. Um cara para fazer o cerimonial, pois é necessário que um desconhecido com voz de galã de radionovela fale de nossos amores, por nós e por nossos filhos, que lembrem a todos da nossa terrível sina de pais e filhos. Qual é. E pra garantir a beleza, flores e enfeites. Depois disso ainda tinha a prova da maquiagem do dia, a prova do cabelo, as fotos.

Muitas foram às ocasiões que entramos em discussões. Ela queria a festa tudo bem, mas me obrigar a me comportar como mãe de debutante...

Já próximo da festa tive que procurar uma pessoa para as fotos. Sem esquecer que um indica o outro que indica o outro e todos juntos fazem no final uma grande panela onde vamos sendo cozidos lentamente. O sujeito usava um terno de belo corte, cabelos com gel e um sorriso “colgate”.

Depois de tentar de toda forma me envolver em seu charme apelou e meu sorriso plástico caiu:

- Afinal é a festa da princesa e é assim que ela deve ser tratada. Todo sacrifício vale para que a festa seja inesquecível. Disse isso enquanto me passava um orçamento astronômico para as fotos e o vídeo.

Olhei firme para ele:

- Não tenho o porte, o dinheiro e menos ainda a fleuma da rainha mãe. Portanto, essas abóboras aqui vão cair na real. E pegando Mariane pela mão sai pisando firme.

Naquele momento deixei de fazer parte das famílias da propaganda de margarina.

O caminho até em casa foi silencioso. Bem que tentei dar um basta, mas quase tudo já estava em sua penúltima e última parcela. Então, embora nada fosse mudado, deixei bem claro a minha insatisfação. E por fim fiquei surpresa por ter sobrevivido e aproveitado muito a festa.
 

maria izabel