O jantar

Assim que recebeu o convite para o aniversário do amigo, Toninho meu marido colou um lembrete na geladeira:

- Dia 21/05 às 20h no clube Ipê jantar de aniversário do Júlio.

E por cima avisou:

- Ó, aniversário do Júlio hein?

Não pude deixar de sorrir - coisas de Toninho. Se o conhecia bem até a tal data ele teria arranjado um milhão de desculpas pra não ir. O que neste caso específico não me aborreceria, nem me faria convencê-lo da necessidade de se cumprir certas obrigações.

Pois Júlio é um dos seus amigos de infância, e embora não se vejam quase nunca, se falam sempre, se atualizam e pelo visto, se gostam.

Tudo muito certo. Mas eu sou meramente a esposa. Nunca me encontrei mais do que duas ou três vezes com Júlio. E sempre encontros fortuitos. Assim posso dizer que não o conheço. Além disso, o tal amigo está começando seu segundo casamento o que me leva ao total desconhecimento da nova mulher. Nova mesmo, em todos os aspectos. Então, sei que vou me sentar afivelar o sorriso, tentar me entrosar, ficar completamente à margem e rezar pela hora dos parabéns, que em casos acima de 50 anos passam muito das 22h.

Ainda que eu vá ao banheiro umas duas ou três vezes, mesmo assim ainda vou ter de aturar muito tempo.

Enfim, Toninho não se esqueceu e fez questão afinal tinha a chance de rever este e outros amigos comuns.

Enquanto me trocava pensava em Júlio e em sua história delicada de vida.

Rapaz simples, sempre quis ser médico. O sonho era um pesadelo. Quatro anos, até que o “deus” do vestibular permitiu sua entrada em Botucatu. Depois o problema de se manter. Não fosse uma pequena ajuda financeira da irmã e alguns “bicos” talvez não tivesse concluído. Mas, nem toda essa lembrança me animou.

As 20:30h chegamos ao clube, e fomos os primeiros convidados. Júlio, agora um homem grisalho, continuava magro e sua fala mansa mostrou-se emocionada ao nos ver. Sentou-se conosco e por alguns instantes a emoção do cresci com você tornou aqueles dois homens moleques de rua, amigos de bola. Sob a roupa bem cortada apareciam os shorts surrados, as falas tinham o riso da infância e eles se encostavam familiarmente nos muros de um bairro antigo.

Enquanto observava os moleques, a nova mulher chegou. Delicada, inteligente, sentou-se e também se esqueceu por ali. As lembranças só diluíram com a chegada de um outro casal. E a expressão de surpresa seguida do ato de correr através do salão para abraçar o velho e gordo homem que entrava abraçado à sua mulher me fez sorrir.

- Grande Nélson, gritava alto, não é que você veio?

Então, o homem, gordo e na casa dos oitenta anos se mostrou ágil e fez Júlio desaparecer em seu abraço. Mais comedida a mulher ficou esperando até que o rapaz desprendeu-se a agarrou e beijou com intimidade, porém delicadamente. Emocionado repetiu algumas vezes:

- Obrigado, obrigado, muito obrigado. Agora não era mais nem o menino, nem o homem grisalho, era um rapaz em começo de vida, encabulado e cheio de energia.

Tive a impressão que enxugou os olhos e o nariz algumas vezes antes de nos apresentar.

- Olha, quero que conheçam o grande Nelson e dona Irene. Nelson é um amigo além é claro de ter sido meu fiador e de mais uns dez caras lá em Botucatu. Se não fosse ele a gente não conseguia nunca alugar casa. Sabe como é, todo mundo duro, estudante, ninguém confia.

- Vê só a fria que entrei, respondeu rindo o grande Nélson. Culpa do meu filho, que chegava em casa sem jeito, olha pai tem uns cara lá de SP, que ninguém quer alugar sem fiador. E como sou pouco conhecido, fui presidente do Ferroviária, então...e riu, um riso alto. Dona Irene, mais quieta nos cumprimentou apenas. Eles se sentaram conosco enquanto Júlio e a mulher pediram licença para os últimos acertos com a cozinha.

É lá ficamos nós. O homem falava que tinha cuidado dos meninos e ria, e eu achava que agora ia começar realmente a chatice. Conversas que não faço parte, gente que desconheço e provavelmente um tal de se gabar . Por isso deixou-os conosco para que não ficasse no pé dele. Só podia ser.

Mas o casal estava muito longe de ser chato. O homem contava coisas realmente engraçadas e me surpreendi com o corpo totalmente para frente prestando atenção a conversa.

Os amigos de Júlio iam chegando, a maioria havia estudado com ele. Assim tudo que fiquei sabendo sobre aquele casal me foi contado pelo pessoal que chegava e ia se juntando a nós. Nossa mesa crescia.

Um deles contou que domingo na hora do almoço apareciam na casa de dona Irene.

- Por que será heim, já gritava bem alto outro.

- Claro que eram as esfihas da minha Irene ajuntava Nelson. Ela se fartava de fazê-las e eles nunca se fartavam de comê-las. Todos riram. Pela mesa que agora era um conjunto de cinco outras, percebia-se sentados e em pé estudantes de olhos cansados e atentos, jeans muito usados, saudosos de aconchego. Sapatos gastos, conversa alegre, de quem espera mudanças na vida. E a cidade de Botucatu se abria sobre o salão. Ruas de terra, muito sol, o campus da universidade, o clube da cidade que a maioria freqüentou porque fez “bico” para o exame médico da piscina. As namoradas que sonhavam com o doutor, o doutor que sonhava com almoços de final de semana. Depois das lembranças todos queriam se mostrar e falavam de suas especialidades. Nos braços que gesticulavam viam-se os jalecos brancos e verdes, os bordados na manga. Os corpos que se debruçavam sobre a mesa permitiam ver os diplomas pendurados em belos consultórios. Botucatu tinha ficado para trás, São Paulo se descortinava . Quem não veio foi avisado por telefone que o grande Nelson e dona Irene estavam lá. E os celulares tocavam a cada lembrança.

Quando teve um tempo livre ele se achegou a nós:

-Então como estava dizendo eu fui presidente do Ferroviária e...

- Nelsão, conta pra eles que na tua época de faculdade o Maluf estava por lá e já era sacana.

Nenhum assunto se completava, as pessoas se sentavam riam, começavam outras histórias.

- Então vou contar também que o Mario Covas foi meu bicho.

- Pensei que o senhor fosse médico seu Nélson.

- Não, engenheiro mesmo minha filha, estudei aqui na Poli, em outros tempos.

Quando o jantar foi servido, levantei-me para ir ao banheiro, pela primeira vez e apenas para lavar as mãos. E olhando a mesa o que via era homens grisalhos, acompanhados ou não, solenes, que se juntavam e trocavam lembranças. Em meio aquela gente desconhecida o local ficou povoado de belas lembranças. No final da noite deixamos o grande Nelson e dona Irene no hotel.

Eu realmente me sentia em paz.

maria izabel