O mulato

De fato a proposta da Sonia, de irmos, eu, ela e Carla a Minas Gerais era muito atraente. Afinal minhas lembranças das cidades históricas datam de uma idade bem adolescente e sem grande interesse pelo que estes lugares representavam culturalmente. Mas, o certo é que meu entusiasmo tinha mais a ver com o fato de estar viajando com amigas alegres e boas de papo. De tal modo, nem ter ficado doze horas no aeroporto arranhou essa disposição. E assim, uma vez em Minas, esquecemos o incidente e começamos nossa viagem. Também é verdade que ao chegar a Ouro Preto ficamos muito mal humoradas. Por conta do feriado prolongado tinha gente demais. Este excesso podia ser visto na sujeira das ruas, no transito que impedia qualquer tentativa de se admirar detalhes como: - calçamentos de pedra, janelas e portas antigas, telhados. Em virtude deste mal humor, me recusei a entrar na igreja de São Francisco, pois o descaso do pátio da Igreja e o mau cheiro se aliaram a minha pouca disposição com arte sacra. Então Carla e eu, ficamos zanzando pela cidade em busca dos poucos artesãos verdadeiros enquanto Sonia se aventurava dentro da nave.
E assim em meio a pastel, artefatos industrializados um artista plástico expunha seus quadros, telhados de Ouro preto. Magnífico olhar! Tão magnífico que subimos em muradas para enxergar o que o olho dele via. Apenas telhados uns sobre os outros, tentando alcançar um pouco de céu. Enquanto isso do outro lado da rua um pintor aquarelava o átrio, o portal que circundava a Igreja e diferentes São Francisco de Assis, alheio aquele turbilhão de gente. Maravilhosos, infelizmente nada disso ainda justificava minha ida aquele lugar. Mas de museu em museu, acabei me encontrando com dois leões de madeira, utilizados em cerimônias fúnebres. Perfeitos espécimes vistos de costas. Ancas largas, rabo comprido, patas fortes. Enquanto esperava minha vez de olhá-los de frente escutei a guia nos lembrando que na época, nos idos de 1700, não havia Internet, nem National Geographic e que em Minas não havia leões. Caramba! Pensei, onde o cara foi buscar tantos detalhes? Mas o fato surpreendente era que os leões tinham cara de gente. Gente de queixo forte e cabelo repartido ao meio. Finalmente a época daquela cidade começava a me envolver, em toda sua magia e mistério. Onde a inspiração, e onde o conhecimento se escondia? De tal forma me sensibilizou que custei a perceber que estava sendo observada. Talvez sorrindo da facilidade com que os leões me desarmaram, o mulato me observava. Não. Desafiava. Sem traços de beleza aquele mulato saudável revestia-se com um olhar de superioridade.
Ainda impactada pelas esculturas sai do museu, não sem antes me voltar pra conferir os leões, e o moço. Naquele dia, esbarrei com seu olhar em diversas ocasiões. Olhar firme, diferenciado, habilidoso. Tanto é que já o procurava ansiosa pelas ruelas. Onde estava?
Por certo torci muito para vê-lo em Mariana onde fomos em seguida, mas só o percebi ao longe. Quem sabe no dia seguinte teria mais sorte. E o dia começou cedo. Café da manhã e o ônibus que nos levaria a Congonhas do Campo. No caminho a guia nos falou sobre Antônio Francisco Lisboa, frisando o fato dele nunca ter saído de Minas Gerais e que os profetas, tinham sido executados por volta de 1790. A tudo eu escutava atenta, me excitava a possibilidade de reencontrar o mulato. Quem sabe por aqueles pátios, entre os profetas, os passos da paixão.
Quando desci em Congonhas, não reparei em limpeza ou cheiro das ruas, no excesso ou na falta de gente. Com os olhos eu o procurava. O santuário de Bom Jesus dos Matosinhos é composto de uma igreja e frente a ela seis pequenas capelas com janelas onde estão representados os passos da paixão. Mas, deixei-me ficar, caminhei pelo jardim, olhei a cidade que se estende na encosta aos pés da igreja, vi os ipês floridos e nada dele. Se nos dias de hoje é grande o isolamento da igreja, fiquei a imaginar no século dezoito. Que solidão! Quando todos já se dirigiam para a próxima capela me aproximei para ver a santa ceia, com todas suas personagens em cedro e tamanho natural. Sem acreditar, peguei a câmera e fotografei, voltei a olhar e não me contive:
- Carla, vem cá. Você já olhou a santa ceia?
– Já. Por que?
- Tem uma mulher na santa ceia?
Ela voltou a olhar. – Tem.
Chamei a guia. Mônica tem uma mulher nesta cena?
- Pode parar, ele respondeu bruscamente sem sair de onde estava.Vocês ficam lendo O código da Vinci e começam a ver o que não existe. O código é uma ficção, entendeu? E me largou atônita. Quem sabe não olhei bem, pensei. Assim voltei para a janela da Santa Ceia. Mas, todos os “meninos” tinham barba e aquele “menino”não. Além disso tinha formas suavizadas e se debruçava intimista no ombro de Cristo.
Quando me voltei para olhar novamente, lá estava o mulato, ele sorria, parecia adoentado, mas o olhar continuava forte. Só então devolvi o sorriso e a partir dai, ele me acompanhou. Por entre profetas, dentro das igrejas, em portais. Mostrou-me sua genialidade, sua força. Intrigante imaginar de onde eram feitas as leituras que criavam as imagens antes que elas saíssem vivas de suas mãos. Então, pelo olhar dele vejo aquelas pequenas cidades ricas em ouro e pedras como o centro de um mundo e vejo caminhando pelas ruas artistas e burgueses, indicando com palavras, livros e conhecimento o que acontece no mundo. Alegremente Carla e Sonia faziam gozação da minha paixão:
- Na sua idade se é pra se apaixonar que seja um cara bem mais novo.
Eu entrava na brincadeira e por mais três dias vi igrejas, museus e lugarejos sempre acompanhada pelo olhar do mulato, e quando finalmente voltei pra casa, estava totalmente tomada pelo seu fascínio.
 

maria izabel