O que me toca

Nua.

Corpo e alma nus. Frente ao espelho, danço!

Ainda pequena, descalça, tentava ficar na ponta dos pés. A sapatilha imaginária ouvia a música imaginária emitida pelo meu corpo. E dançava. Girava. Rodopiava. Ganhava mundo. O corpo musicado me fazia dançar.

Ao ouvi-la, eu respondia. Movimentava-me dentro das saias de minha mãe

Corria pelas ruas.

Deixava despencar os cabelos na rebeldia aos elásticos e no encantamento dos ventos.

Havia e ainda há chuva. Molhava-me pelo prazer de sentir a roupa grudando na pele.

Tão menina, e tão saborosas essas sensações.

A música foi minha primeira amante. A primeira a tocar meu corpo.

E com que intensidade!

A sensualidade incomodou, pois a proibição veio forte:

- Bailarina não. Se quiser pode aprender a tocar piano.

Eu gostava de música, mas ela só me tocava na dança.

Eu queria , precisava - do toque.

Meu corpo meu norte.

Não houve acordos.

Crédula e sem credos me deixei levar.

- Aprender a tocar, quem sabe?!

- Novas melodias?

Nada importava, a música. Ah! Ela estava em mim.

Eu me tocava. Eu me saberia.

O corpo recebendo levemente a borracha do criador, já mostrava novos contornos. A alma, percebendo o desenho anunciado se preparava. Buscava novas percepções. Cheiros, gostos, contatos.

Tudo se inundava de novidade. Fossem flores, gentes, terras ou águas. Descobria as poesias, os contos, os olhares, a vida.

Tudo enfim, para que eu me soubesse.

O suor do corpo conhecido na dança dançava agora em mim. Dançava quando Renato, tão menino quanto menina era eu, mexia no meu cabelo.

Quando tocava em mim.

Mas levaria algum tempo para que eu fosse em busca da música.

Instrumento emudecido, esperando que a dança me tocasse. Música silenciosa, não adormecida.

Pequenos e simples toques. Ainda.

Os contornos foram chegando ao risco final e...

Então toquei. Aprendi. O que me toca, o que quero tocar.

As formas arredondadas de cintura fina fazem a gingada do quadril ao caminhar. Agora outros dançavam a minha cadência. Gostava disso. Como gostei do contato com músicas e danças outras.

Outros Renatos, Paulos, Josés. Cada um com uma dança e um ritmo.

Músicas suaves, fortes, clássicas, populares. Mas, sempre o suor da dança.

Sem as sapatilhas nos pés, aprendi a dança de ser menina, mulher, fêmea. Assim, me mantenho.

Com ritmos, com gosto pela música, e a paixão pelos sons que a vida em mim plantou. Gosto de executá-los.

Minha musicalidade ficou. E sempre me acompanha. Meu corpo, meu instrumento. Intocável, tocável, tocado. Musica perfeita! Embala meus sonhos, meus devaneios.Toca músicas de ninar quando nos braços tenho um bebê. Toca músicas sensuais quando como agora me sinto tomada de prazer. Em meus braços, meu colo, o leite e o deleite da vida. O que faz sobreviver e o que permite sonhar.

O tempo todo toca sua música.

Nua frente ao espelho - me danço.
 

maria izabel