O som da tarde

“Você se lembra dela, não é?”

Essa frase insistentemente repetida pelo meu avô materno sempre que me via, mais tarde tornou-se refrão, quando alguém queria brincar comigo, e uma tristeza funda, ao me lembrar dele. Tanto tempo desde que seu tempo terminou e ela ainda me perseguia:

- Você se lembra dela, não é?

Não, eu não me lembrava, até que na semana passada tive um insight quando entrei no parque pela manhã. E talvez agora, o mistério se esclarecesse. Mas precisava contar ao meu irmão, e saber a opinião dele. Afinal, ele era apenas três anos mais velho que eu e sempre foi companheiro. Fosse o que fosse que levasse meu avô a fazer sempre à mesma pergunta, meu irmão também deve ter participado. Só que por alguma razão outra, quando adoeceu só ligava o conhecimento do fato a mim e a ele.

Por isso sentada, frente a uma folha em branco do Word, no computador, não me atrevia a começar o texto que teria de ser claro e convincente. Ou melhor, eu esperava que após a leitura, meu irmão respondesse dizendo que sim, é isso, você finalmente acertou a charada. Também pensei se não seria melhor, mandar por carta registrada, via correio comum ou ainda um telefonema. Mas meu irmão tinha acabado de se mudar para outro país e as idéias que se formavam precisavam de letras, de construção e desconstrução de frases, de puxar o guardado e inserir no presente, de ler e reler. Por conta disso optei pelo email e sem saber como começar, escrevi inicialmente para mim mesma...



Toninho, você se recorda do vovô Antonio me fazendo aquela pergunta, durante anos? Lembra-se que no começo chegamos a pensar que ele se referisse à Dona Adelaide, a viúva da casa da esquina que vendia docinhos e da gente ter achado que ele andava de muita prosa com ela? Mas quando eu respondi que me lembrava e que gostava dos doces, ele irritado, olhando sem ver voltou a me perguntar.

- “Você se lembra dela, não é?

E com o passar do tempo fui dizendo que sim, que me lembrava porque não sabia mais o que dizer. Pensei em todas as mulheres, casadas, solteiras, viúvas da nossa rua. E ele continuava desgostoso comigo.

Com que então, passei para as plantas que enchiam os vasos lá em casa. Havia um começo de sorriso, mas a pergunta continuava. Então tentei as pipocas. Afinal, toda tarde, com a desculpa de conversar um pouco com seu Juvenal o pipoqueiro que ficava no ponto final do ônibus elétrico ele aproveitava para uma pinguinha e um cigarrinho que a mamãe agora proibia em casa. Ele sorria, mas ainda continuou a me fazer a mesma pergunta. Então eu desisti.

- Não, eu não me lembro.

E ele se aborreceu muito comigo.

Até parecia que as minhas lembranças de pequena eram um arquivo que eu pudesse acessar a qualquer instante. Bem que gostaria. O fato é que depois de tanto tempo passado ainda penso no assunto. Como gostaria de ter uma resposta.

Mas, esta semana, eu finalmente acho que entendi. Pois, na sexta-feira pela manhã, quando cheguei ao parque eu a vi e ouvi. A grande árvore da entrada. Centenária talvez. Como nunca antes. Repleta de som e de cores. Pássaros. Centenas deles, na mais completa algazarra. Porém o impactante, o que me fez parar e ficar algum tempo observando foi à lembrança que me veio. Tantos anos depois o arquivo enfim se abria, sem procura, sem pesquisa e escorria claramente pela minha memória.

Quando vim para São Paulo era pequena. O bairro era generoso em espaços vazios e grandes quintais. As ruas podiam ser largas, de terra e o mato tinha permissão de crescer.

Quando o avô perguntava se me lembrava dela, ele certamente se referia a velha árvore, aquela grande e antiga, lá do ponto final dos ônibus. Que toda a tarde se enchia de cores e sons para a despedida do dia. E que segundo ele era dos passarinhos.

Agora, ali parada, na entrada do parque, o passado voltava, como um choque, ou como um susto, eu via o olho da menina, com o avô. O saquinho da pipoca quente na mão, o gosto do sal na boca, o velho homem com seu cigarro. Quieto e em paz!

Eu agora me lembrava, perfeitamente.

A velha árvore do ponto final do ônibus elétrico, no bairro do Mandaqui. Por ali sai com ele para grandes presentes de aniversário. Um passeio ao centro da cidade, com direito de entrar no Mappin da Praça Ramos. Na volta passando pela Senador Queiroz com suas vitrines repletas de bonecas. Por lá também cheguei com minha mãe, e ele a minha espera, com nossas malas vindas da estação da luz. Então, aquele lugar nos encantava.

Era um ponto de chegada ou de partida. Mas, tudo se modificou, as tardes de sinfonia acabaram quando a marcação das ruas e o asfalto se fizeram necessários. Ela tinha ficado no meio de tudo. Um completo estorvo, e foi cortada. Alguns dias depois, tudo aplainado o silêncio das tardes criaram um vazio. Rapidamente me esqueci dela, encantada que fiquei com o abrigo do novo ponto de ônibus que agora trazia outras linhas que podiam nos levar para outros locais. Qual a importância de uma velha árvore? Agora sei que ele nunca a esqueceu. Talvez, passado pela idade e pela doença esta lembrança deve tê-lo visitado.

Assim, perdida em conjecturas e sem saber como começar, abri uma folha de mail, enderecei ao meu irmão e escrevi no campo assunto:

- Você se lembra dela não é?

maria izabel