O último da fila

O nome não muda muito - é Zé, Maria, João. A gente até se acostuma. Ô seu Zé, ô dona Maria, hoje não tenho nada pra você não. E assim a vida passa.

Conheço uma porção de Zes, que se chamam Washington, com direito ao g mudo e tudo. Uma porção de Marias que se chamam Claudilenes, Marinalvas e assim por diante. Tem em comum apenas a fome, a mesma dificuldade em arranjar emprego, a mesma desinformação, e a mesma tentativa de manter a dignidade.

Cely é a esposa do zelador do meu prédio. Jovens os dois, idade entre vinte e oito/trinta anos. Duas filhas - Viviane e Vitória.

Esta semana me procurou. – Sabe o que acontece dona bel, Vivi, ainda não sabe ler. Tô achando que ela tem a cabeça fraca. A professora até encaminhou pro psicólogo, mas no posto de saúde não tem. Só lá nas clinicas. A gente trabalha o dia todo e ainda tem a menina pequena, não dá pra levar.

Final de novembro, mesmo assim pedi que me deixasse ver os cadernos e falar com a menina. Surpreendente! Criança viva, Acaba de completar sete anos. Viviane não se faz de rogada, vai logo contando que está sem lápis de cor. A amiguinha da frente tem uns lindos, mas é porque já sabe ler.

Peço a ela que escreva seu nome, ela escreve bem bonito VIVIANE, em letra de forma. Pergunto se sabe qual o primeiro pedacinho do nome dela. Ela não sabe. Mostro seu nome escrito por mim bem grande. E falo devagar Vi vi a ne.Ela repete. Abro o armário da lavanderia e pergunto se tem algum produto que tenha a mesma letra do nome dela. Prontamente ela identifica, Veja, Vidrex. Ah! Minha irmã também começa como o meu nome Vitória. Olha o Vi.

Converso com Cely, minha opinião é que a menina refaça a primeira série. Amadurecida, conseguirá o aprendizado.

Alguns dias depois recebo a notícia, a professora disse que não. Tem uma tal de nova lei que não deixa repetir os mininos não.

Você disse que se responsabilizava por isso?

- Não, a professora disse que não pode.

- Falou com a diretora?

- A professora disse que não adiantava.

Me propus a ir junto. Quem sabe!

Não adiantou, a lei diz assim e assim será. Mas eles tentarão com os alunos que tem dificuldade fazer um trabalho à parte.

De que jeito – pergunto?

Contrariada a diretora me responde, se deixarem esse trabalho para nós, sem ninguém se meter, nós faremos.

Repito a pergunta, de que jeito?

- As classes têm de trinta a quarenta alunos. Uma única professora. Ela não terá a menor chance de se dedicar aos que não conseguiram se alfabetizar no ano anterior.

- É, vai ser complicado, mas tentaremos.

A professora abaixa o olhar, a diretora tenta manter a segurança.

Viviane, que ficou pelo pátio, chegou no final da conversa e entendeu que irá pra segunda-série. Sai de lá toda contente.

A professora nos acompanha e tenta explica:

- A lei, tem sua razão de ser. Realmente o processo de aprendizagem, de alfabetização não ocorre apenas na primeira série, é fruto de um trabalho desenvolvido ao longo dos quatro e por vezes dos oito anos iniciais da escola. Fase em que as dificuldades com a escrita e o entendimento da língua devem ser sanadas.

Viviane, toda sorridente nos olhando me faz pensar: - Haverá alguém no ano seguinte pra passar a ela o inicio do processo? E daí? Como fica essa meia dúzia de criança em cada classe? Vão ficar quietinhos prestando atenção? Vão se interessar por continuar na escola? Vão achar que ler e escrever é importante?

Me dá raiva.

No dia seguinte volto à escola que fica apenas uma quadra de onde moro e pergunto pelo projeto amigos da escola:

- Tem muita gente trabalhando com vocês?

- Pouca gente, a maior parte dos pais trabalha o dia todo, não tem como dispensar algumas horas do dia para estar aqui.

Isso me inquieta. Em casa, fazendo o jantar escuto um choro de criança. Penso em Vivi, na sua imaturidade, na sobrecarga do ano que está por vir.

Mariane minha filha interrompe meus pensamentos.

- Mãe, o que é um verbo transitivo direto?

- É um verbo que exige complemento exige um movimento do sujeito para efetivar a ação.

- Ah!

Ela sai e eu fico pensando no verbo Incluir. Todo verbo envolve uma ação. Esse além de tudo é o tal verbo transitivo direto que exige um complemento. Incluir compreende a ação de envolver para conseguir desenvolver. Envolver, envolve sujeitos, neste caso que tenham muitos predicados.

Quantas crianças diariamente passam pela mesma coisa? Bem, pelo menos desta eu vou correr atrás.

 

maria izabel