Odoiá

Quando a primeira marola esfriou meus pés é que senti. Não a água, mas o desejo. Desejo de oferendar. Meus olhos foram os primeiros a fazer o percurso. Depois meus pés. Ansiosos. Entre areia e água - adornos.

Ali os objetos lavados pelo mar falavam dos deuses internos de pessoas conhecidas e desconhecidas. A primeira palavra que me veio foi Namastê, que significa – “Meu deus interior, saúda o teu deus”.

Havia perfumes, espelhos. Muitos espelhos. Alguns de cabos trabalhados e elegantes, outros mais simples. Lenços brancos com inicial bordada ou pintada em azul. Flores e velas se espalhavam por toda parte. Champagne e taças também.

Não creio em deuses. E essa vontade, de onde vinha?

Entrei no mar e mergulhei. Mas a idéia de fazer uma oferta se mantinha.

Sentia prazer. Um enorme prazer. Imaginar que na calada, no fundo daquele oceano, uma bela mulher, deusa, gostaria de pentear os longos cabelos com um pequeno pente cor-de-rosa. Pequenino mesmo. Sei disso, porque pensava no meu em azul. Um que ganhei como brinde há tempos atrás.

Mas o dela tinha de ser rosa. Pequeno e delicado.

Em mim agigantava-se a idéia. Como se um pedido me houvesse sido feito.

Sai da água. Comentei com minha filha.

- Mãe, disse ela levantando os óculos para me encarar melhor. Olha o pessoal recolhendo as coisas e separando.As noites na ferinha vão estar nas barracas. À venda. O pessoal crédulo perde, os incrédulos ganham.

- Apenas o mar se habita!

E repondo os óculos virou-se pra tomar sol, dando por encerrada a conversa.

Louca ou não, ela me acompanhava. A idéia. Cada vez que olhava o mar, pensava na mulher-deusa.

Uma tarde enquanto a maioria dormia, fui até a cidade mais próxima. Entrei e sai de muitos lugares sem encontrar o que procurava.

Desanimada, passei pelo supermercado pra pegar pão. Lá, numa pequena banca, pentes em promoção. Olhei um a um, a maioria de cabo fino e comprido em tons cinza ou marrom, ou daquele tipo garfo. Sei que de tanto virar e revirar – encontrei. Um pente rosa, pequeno.

- Que lindo!

Levantei os olhos e me deparei com uma moça.

Ela olhava encantada.

Segurei o pente com força e respondi:

- É verdade, também gostei.

Ela sorria. Alta, morena, cabelos longos.

Sorri e fui para o caixa, quando alguém tocou meu ombro.

- A senhora esqueceu os pães.

Era a tal moça.

Olhei para ela, cabelos molhados, recém-lavados, os olhos cor...de mar?

Verde ou azul?

- Seu nome? perguntei...

- O que?!

- Como você se chama?

- Janaína, como minha mãe.

Olhei, ela me fitava sorrindo.

Segurei-a pela mão, paguei no caixa e lhe ofereci o pequeno pente rosa.

Na saída escutei a caixa dizendo:

- Mulher estranha te olhou como se visse sei lá o que.

Ao que ela respondeu.

Deve ser efeito do mar...
 

maria izabel