Pra não dizer que não falei das cores


Tímida! Era como me achava por gostar da cor pastel.

Às vezes usava um azul. A explicação simples - realça minha pele. A explicação rebuscada - é o tom da delicadeza, da serenidade.

Mas conheci Marines. O avesso do azul e do tom pastel. Só que muito tímida.

Pintora de traços rápidos e cores fortes. Convenceu-me a pintar.

Olhando suas telas perguntei:

- Você usa pouco o azul, não gosta?

- Gosto. Quando combinado com outras, fazendo surgir uma terceira.

- O azul me dá idéia de tranqüilidade, coerência.

- Você acha?

Fosse como fosse, abri uma tela branquinha sobre o cavalete, e na paleta, comecei a tonalizar.

Espremi bisnagas e vários azuis surgiram. Do claro ao escuro, turquesa, da Prússia...

Com maltraçados traços pintei em azul. Somente. As pessoas gostaram, mas me perguntavam:

- Por que sempre azul?

- É bonito, não confunde, não cansa.

Marinês calada sorria.

Finalmente me espalhei e perdi o preconceito. De tal modo que vou dos tons pastéis aos quentes e retorno sem nenhum pudor.

Mudei até minhas cores. Canto em azul, em amarelo. Visto e pinto-me em carmim. Marines dá gargalhadas agora.

Sábado fui ver a exposição de Picasso que acontece em SP na Oca. No meu grupo a monitoria de um professor da história da arte. Assim começamos a visita, passando pelo primeiro quadro pintado aos doze anos de idade. Depois fomos à fase azul do artista.

- Essa é a primeira fase de Picasso. Acredito que todos imaginem o porque. O azul continuou ele numa voz serena é a cor mais fria. É a melancolia. O azul transmite tristeza, solidão.

Fiquei olhando, o pintor atravessou essa fase. E as cores das mulheres amadas e dês-amadas é que foram tonalizando as novas e geniais criações. Misturando suas paixões com a mitologia e com um sentido de religiosidade que eu desconhecia, comecei a enxergar o homem. O homem de quem nunca gostei. De quem dizia: - Sem espiritualidade.

Mas, ao ser conduzida pelo olhar maravilhoso daquele professor - sobressaiu o genio.

Como alguém pode ser genial, sem ser iluminado? Ninguém consegue se iluminar com luzes artificiais.

Lentamente esse professor mostra a quadridimensionalidade do pintor. Um outro olhar, uma coisa que um outro professor tenta me ensinar, na escrita. Que o sublime tem de ser sintético. Simplicidade não é trivialidade. Só que ele o diz, com a delicadeza de todas as cores, não na melancolia do azul.

Compro canetas coloridas, na saída da exposição. Vou estender ao texto as cores.Todas elas. Correndo o risco de exagerar.

Em casa, dias depois espalhei pelo chão minhas telas azuladas. Minha primeira fase.

E sai pra observar o céu. Naquela tarde, ele era todo laranja e lilás. Cores que pulsavam vivamente. Inclusive vi muitas pessoas azuis voltavando do trabalho. Sem barulho, misturados ao engodo dos azuis, gente amarela, carmim, roxa, branca, preta e verde, davam o tom coerente.

Minhas flores azuis, surreais, se delicadas por um lado, eram agressivas no desdém de dizer ao jardim que pouquíssimas terão naturalmente essa cor.

Indelicado azul. Doce azul.

Levo as telas de volta ao atelier. A tímida Marines mostra-me que devo deixar o azul e com giz de cera, lápis, crayon, jogar sobre ele outros tons, para que a vida aconteça junto. Algumas vezes com, e outras sem melancolia.
 

maria izabel