Paraíso perdido

Sempre me fascinou o realismo fantástico na leitura. A possibilidade de vivenciar situações insólitas como mera observadora é perfeita. Ainda por cima sentindo a tranqüilidade de que tais episódios não acontecem na realidade. Em nossas vidas tão comuns. Então, quando li Metamorfose de Franz Kafka não me solidarizei de cara com Gregor Samsa, a personagem, as limitações impostas a sua criatividade e até suas tentativas de rebelar-se contra as imposições da sociedade. Mas o que me incomodou e muito foi à idéia da transformação. Da sua transformação em um imenso inseto. E por conta disso acordei muitas noites angustiada conferindo com as mãos o meu corpo.

Alguns anos mais tarde li Incidente em Antares de Érico Veríssimo. O que ficou de crítico e grande em mim foi como tudo se acomodou com naturalidade depois que o incidente foi resolvido. E que incidente. Como é que a gente pode fazer de conta que não existiu?

“Até um vento forte sopra sobre Antares levando o mau cheiro e possibilitando que as pessoas aos poucos recoloquem suas máscaras”.

E essa máscara de certa forma me conferiu tranqüilidade de que a vida não passa por transformações tão marcantes.

É claro que li estes livros em outra época de minha vida. Mais menina, menos participante.

Já O ensaio sobre a cegueira de José Saramago encontrou-me engajada, participante de um mundo agora sim, bastante esquisito. E novamente o insólito, o fantástico na obra grita para mim a subjetividade de viver. E esse subjetivo me pega.

– Tenho estado cega?

Mas, como na adolescência o que incomoda mesmo é a possibilidade do real. Isso será possível?

Por certo, sempre me vi capaz de entender subjetivamente às situações, mas a objetividade dos assuntos é que me perseguia durante dias.

Naquela tarde parada na pequena sala do aeroporto de Vitória pensava sobre estes assuntos. Na verdade, queria esquecer estes assuntos. Afinal a semana toda fora de discussões sobre educação. E eu que tinha ido animada participar do fórum sobre alfabetização voltava desanimada com a questão da objetividade e como o realismo fantástico, muito justificável nos livros, toma corpo sombrio no dia-a-dia do nosso trabalho. O objetivo é claro, alfabetizar. Como fazê-lo nem sempre o é. As pessoas que pretendemos alfabetizar vivem situações insólitas. Muito diferente da nossa. As discussões entre os educadores infindáveis. A maioria desconhece o panorama das grandes cidades e da periferia.

As alternativas apresentadas não atendem uma grande parte dos alunos. E algumas propostas chegam a ser ridículas.

Graças a Deus tinha terminado. Estava me sentindo cansada e não via à hora de ir embora.

Naquele horário, 18h de um sábado a pequena sala estava apinhada. Então, me coloquei de frente para as portas de vidro que davam para a pista. Sem opção, fiquei conferindo o trabalho de um funcionário, que com uma britadeira tentava perfurar uma pequena porção do solo. O barulho da conversa mais o barulho da britadeira me distraiam. Demorou alguns minutos até que o homem parou o trabalho e se afastou um pouco. Ao mesmo tempo em que uma mancha negra surgia em volta dele.

Por certo perfurou algum lugar com óleo, pensei, pouco objetivamente. Mas bem que poderia ser, pois a mancha se espalhou rapidamente e avançou para as portas da sala de espera. Afastei-me um pouco temendo manchar os sapatos.

Mas qual!

Não era óleo, eram baratas.

Baratas? Baratas! E a gritaria se generalizou. Tão assustada fiquei que me recordo pouco das minhas reações. Mas acho que gritei, chorei, pulei. Fiquei em pânico, mas felizmente não paralizada. Muita gente subiu no sofá. Enquanto as baratas assustadas subiam em toda parte, chegavam até o teto que era de treliça e despencavam sobre as cabeças. Não sei precisar por quanto tempo fiz parte de tal insólita situação, mas tive lucidez suficiente para escutar o número do meu vôo sendo chamado. Então, corri, corri muito. E minha objetividade me levou rapidamente para o portão de embarque. Nem quis saber o que aconteceu depois. Não queria falar sobre o assunto, como se desta forma eu pudesse voltar a usar a máscara do não acontecido. Só sei que quase dormindo na minha poltrona, acordava sobressaltada e passava a mão pelos cabelos para ver se nenhuma tinha ficado agarrada a ele. E da minha janelinha lá no alto olhava meu mundo com olhos recém saídos quem sabe de alguma cegueira.

maria izabel