Por acaso

Por acaso era dezessete horas da última sexta-feira que antecedia o natal daquele ano. E por acaso eu era a última funcionária ainda naquele pequeno escritório de advocacia. Porém, em questão de minutos estaria na rua. Sem prestar atenção tirei da tomada às luzes que enfeitavam a árvore montada no canto da sala. Além dela e um pequeno presépio mais nada sugeria a data. Sem dúvida as janelas fechadas impediam que o clima agitado da rua se instalasse por ali. De qualquer forma dava graças a Deus por estar fora do burburinho. Minha única vontade era voltar pra casa. Jantar, ver TV, dormir cedo.

Assim, tranquei a porta do escritório e ao me virar trombei com Vicente.

- Oi, a Teresa já foi?

- Oi Vicente, não, ela não veio hoje.

- Pôxa! Recebi uns contratos e preciso da opinião dela.

- É, mas hoje não vai dar.

- Olha, sei que vocês moram perto. Poderia fazer à gentileza de levar este embrulho pra ela? É um pacote importante e tenho prova na faculdade esta noite.

Não tive como recusar, todos sabiam que além de sermos vizinhas, somos amigas de infância. Então, com o embrulho importante embaixo do braço, dirigi-me a casa dela. O que não contei a ele, é que os avós da Teresa, tanto os maternos quanto os paternos chegaram da Itália. E como o pai e o irmão dela estão fora da cidade. Ela teve de ir buscá-los no aeroporto.

Embora fosse um prazer revê-los, não contava em visitá-los logo no seu primeiro dia de Brasil. De qualquer maneira fui inventando desculpas pra não me demorar. Que tinha compromisso para aquela noite, que precisava comprar alguns presentes ainda...

Como de hábito, apenas toquei a campainha, abri o portão e subi as escadas laterais. Tampouco demorei-me observando o jardim bem cuidado de Dona Giovana. Tinha pressa.

- Entra, gritou uma voz dentro da casa.

Sem pensar, abri a porta da cozinha e fui recebida por um homem alto, com uma meia de nylon enfiada na cabeça e uma arma na mão.

- Entra, tornou a repetir!

Antes que eu tivesse qualquer reação sua mão me agarrou o braço e um revolver foi encostado na minha cabeça.

- Cala a boca! Anda, anda

Com um safanão pegou minha bolsa, enquanto o pacote importante se esparramava em folhas pelo chão. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa fui empurrada para o pequeno lavabo que fica na sala. Lá se encontravam os quatro avós, Dona Giovana e Teresa. Nunca tinha visto tanto medo nos olhares. Só então percebi encostado a porta outro assaltante. Uma mulher. Um pouco mais agressiva empurrou-me com força contra a parede e amarrou meus braços por trás das costas. Em seguida me fez entrar no minúsculo e congestionado banheiro.

Enquanto o homem ajoelhado no chão abria e remexia gavetas e malas eu, a recém chegada apertada entre a porta e os demais ocupantes tinha uma ampla visão da sala e dos quartos, todos de porta escancarada. E por todo o lado que meu campo de visão permitia, imagens de natal. Árvore, presépio, guirlandas, enfeites vários.

Vez em quando escutava os avós que sem entender nada do que os assaltantes diziam choramingavam em italiano.

- Mio dio!

- Mama mia. Nostra.

- Per meu dio.

O pequeno banheiro era de um verde musgo bem forte o que tornava o espaço menor ainda. Lembrei-me que o irmão de Teresa acabara de se formar em arquitetura e que a casa nova dos pais tinha sido seu laboratório experimental de novas e reduzidas formas e de novas e fortalecidas cores.

Só nos olhávamos, à mulher gritava o tempo todo que ficássemos quietos senão iria acabar com aqueles velhos.

Enquanto a moça nos vigiava, eu via crescer sobre o sofá o grupo de casacos de couro e de lã provavelmente roupa dos turistas e presentes que tinham trazido para os netos. Mas tarde saberia que todos os documentos originais do pessoal da casa e que estavam em uma das gavetas foi levado embora. E dizer que de tanto falar acabei por convencer Teresa a fazer cópia dos documentos e deixar os originais em casa. Ainda hoje ela me cobra isso.

Não sei dizer o tempo que se passou, sei que me sentia amortecida, com raiva. A única vontade era de revidar, expulsa-los daquele espaço que também me pertencia por amizade, mas não a eles. Evidente que deixei transparecer, pois Dona Giovana percebeu meu olhar e do fundo do pequeno lavabo quase gritou.

- Calma filha, calma, tenha muita calma.

- Vai .....sua velha disse a assaltante pensando que a mulher falava com ela, mas o olhar de D. Giovana prendia-se em mim, tentando me sustentar, exigindo que minha juventude se acomodasse.

Quanto tempo meu Deus? Como eles sabiam que os homens não retornariam aquela noite a casa? Quem eram eles?

Finalmente fui empurrada para dentro do lavabo e a porta fechada. Não trancada. Porém, mesmo quando escutamos o portão bater ainda assim não tivemos coragem de sair. Mais um pouco e então com muita cautela desamarramo-nos. Saímos. E quando tivemos certeza de que eles não estavam por lá começamos a procurar cópia das chaves da casa.

Muito tempo se passou até que encontrássemos qualquer coisa na bagunça que tinha ficado.

Pouca coisa minha foi levada. Apenas a bolsa com um mínimo de dinheiro e segundas vias de documentos. Dos outros, muitas coisas, inclusive a tranqüilidade. Os avós estavam abatidos. Assim me coube levar dona Giovana a delegacia para prestar queixa enquanto Teresa procurava um médico para examiná-los.

Agora na delegacia também era natal. Arvore e presépio, cordões verdes empoeirados enfeitavam o teto. O escrivão ainda não tinha chegado o delegado também não se demoraria. E assim, entre espera, atendimento e BO adormeci muitas vezes na recepção. Quanto tudo se completou e finalmente pude ir para casa já era madrugada. Pelas ruas agitação e burburinho. Alegria. Quando entrei na da sala de casa, o relógio marcava 3h da manhã. No canto minha árvore de natal que não chegou a ser ligada e um pequeno presépio armado sobre a mesa. Apenas isso sugeria a data. No mais, completo silêncio.

maria izabel