Por dia quantos gatos?

Do telhado de casa, o gato miava alto e sentido. Parei a meio do caminho pra ver o que estava acontecendo. Lá estava ele, me olhando fixo. Um gatão velho, de rua. Sujo como o que.

Apressada, mas sem coragem de deixar o lamento do gato batendo na porta da vizinhança, voltei, enchi um pratinho de leite, coloquei no jardim e fui-me embora completamente esquecida do assunto.

Foi ai que ele me adotou. Quase todos os dias vinha reclamar o leite.

Nunca havia visto um gato sujo.Esse era. Sujo do mato dos arredores onde caçava ratos, sujo do lixo que revirava, sujo enfim de coisas de bichos.

Mas, me adotou. E quando conseguia uma brecha, vinha. Com suas unhas afofava as almofadas do sofá. Eu gostava daquele bicho que pleiteava apenas uns momentos no dia dentro da minha casa, pra logo se evadir para a rua – seu território.

Comecei a chamá-lo de SHAN.

Shan. Gatos não têm origem chinesa?

Então, Shan gato.

Minha casa sua morada, minha ausência algo a ser cobrado, aos gritos, miados, vindos de todos os telhados vizinhos até despencar no meu quintal, nas minhas pernas.

O que admiro nos gatos é a independência. Não se deixam adestrar. Diferente dos cães. Gatos, não precisam ser levados a passear, estão sempre limpos. Exceção ao Shan. Limpam a casa de possíveis baratas e ratos. Por outro lado sofrem vários tipos de preconceito.

Todo mundo acha que gato é asmático, que transmite a tal da doença, que são traiçoeiros, que não se apegam a nada e coisa e tal.

Em dias de muita raiva comparo:

- Cão é que nem marido, quer casa comida e roupa lavada. Gatos são amantes, tudo lhes é devido, desde que nada os amarre.

Nestas ocasiões, ainda prefiro os gatos.

Enfim, eu e Shan estávamos satisfeitos com nossa convivência até o dia em que ele sumiu.

Esperei que voltasse e nada.

Agoniada, sai para a rua e perguntei para alguns vizinhos se tinham visto o meu gato.

Olha, disse Dona Neide, fica fria, não é carnaval, cuíca, tamborim, ele não virou.

A outra arrematou:

- Só se foi parar de janta na mesa de alguém.

- Janta? Que idéia mais besta.

- Besta?

- Tem países que comem até cobra minha filha.

- Credo gente, assim nunca mais vou comer na minha vida. Preciso fazer regime, mas deste jeito, vou ter é inanição.

- Oh minha filha, do que você acha que são feitos estes churrasquinhos que vendem na rua? Dizia dona Maria, de carne de gato.

Lembrei-me. Eu adoro pastel de carne, mas a recomendação em casa, que agora repasso pra minha filha é. Na rua, prefira recheios à base de queijo. E a explicação vinha.

Sabe lá que carnes usam pra rechear qualquer coisa.

A história continuava:

- Já foi a estação da luz?

- Já viu aquele churrasquinho grego que é vendido por lá.

- Claro que sim, cheiro ma ra vi lho so.

-Nunca comeu?

- Não, uma passação de gente, uma poluição, não me atrevo. Gentes falando e tossindo e cuspindo por perto.

Morro de nojo, só de pensar.

- Não sabe o que está perdendo, tive de brigar muito comigo mesmo. Quem entrava no papo agora era Seu Renato, um vizinho aposentado que estava sempre varrendo a calçada. Um dia não resisti e comi. A impressão que tinha a cada mordida era. Será que vai miar?

- E miou? perguntei

- Não, por isso sempre volto lá pra comer.

As vizinhas caíram na risada

Minha mente objetiva e louca por desviar o assunto levantou:

- Pense, de quantos bichanos eles precisariam por dia pra fazer aqueles montes de sanduíches e pastéis e churrasquinhos que vendem pelo centro da cidade?

- Uma porção, alguns gatos são muito magrinhos, coitados, disse dona Neide.

- Pois é, já não haveria mais gatos pra miar a história.

- É, mas acho que tem gato sim nessa história.

Enquanto falávamos, Shan, sujo e aos berros, digo, miados, vinha pelos telhados em nossa direção.

Seu Renato, pelo menos por hoje ninguém vai almoçar meu gato. É, por hoje ele está a salvo e se miou foi só no nosso telhado.

Por via das dúvidas.... nunca , jamais, em tempo algum....vou comer .churrasquinho na estação da luz.

 

maria izabel