Quadros, jarras e bicicletas

Véspera de feriado!

Não via a hora de ir pra praia. Independente de sol ou chuva gosto do cheiro da maresia, dos pés descalços, da pouca roupa. E ultimamente independente desta minha paixão, tenho motivos maiores para querer sair um pouco de casa.

Ainda que seja apenas abril estou cansada, como se o ano tivesse transcorrido por inteiro. Também é certo que as férias tem sido magros dias e meu ano vem se contando há uns dois ou três. Talvez por isso ande me assustando com o que não assusta. Até fatos corriqueiros e de fácil explicação tem me deixado alerta.

Como quando entrei em casa uns meses atrás e antes de acender a luz do quarto, percebi alguma coisa brilhando no chão. Nada demais. Apenas um quadro pesado tinha pulado da parede. Sim, pulado. Porque não caiu em linha reta. Caiu sobre a mesa do computador, um meio metro de distancia do seu ângulo de fixação, em ponta, fazendo um buraco. Completou caindo ao chão estilhaçando o vidro.

Sem boa vontade, recolhi os cacos maiores com a mão e com a vassoura e o aspirador o restante. Procurei pelo prego que o fixava e encontrei. Na parede, no lugar onde sempre esteve.

Pensei no vento, que pode ter entrado pelos vãos vazados da veneziana e me contentei com essa explicação, embora vez ou outra olhasse para o prego na parede imaginando o empurrão, ou no salto magistral realizado pelo quadro.

Quando na hora do jantar contei o ocorrido meu marido comentou:

- Esta casa anda estranha. Lembra-se da véspera do natal?

Nem queria lembrar, em meu entendimento tudo tem explicação plausível, e já tinha me dado respostas ao acontecido.

No dia vinte e quatro, em casa, a família e alguns parentes. Sentados no sofá o pessoal conversava enquanto fui providenciar um vinho. Claro que aproveitei a ocasião pra estrear um jogo de taças de cabos bem longos que se apóiam dentro de um vaso alto, feito de vidro grosso e trabalhado. Frescuras! Todos comentaram e o vinho foi servido. Só tivemos tempo de brindar, a jarra nova, recém colocada sobre a mesinha de centro, deu um ligeiro estouro e partiu-se em duas.

Ninguém tocou, ninguém resvalou. Pela manhã enquanto embrulhava em jornal as duas partes pra colocar no lixo atribui ao calor que vem fazendo. Possivelmente a jarra se ressentiu.

Bem, todos em casa toparam passar o feriado na praia, e assim nos organizamos para sair um dia antes do feriado. O marido quando saísse do trabalho iria direto para lá.

Assim, em plena rodovia dos trabalhadores, a 120 por hora, sol das 10 da manhã, aproveito o que gosto. Que é dirigir na estrada. Pois é uma das minhas paixões, um momento de alerta, de pensamento ao longe. Desligo-me pra me ligar à estrada.

O transito flui. Poucas pessoas já se aventuram. Passo o pedágio e uns 200 metros adiante sob a ponte, avisto alguns trabalhadores na lateral direita da pista fazendo conserto ou limpeza. Mas o que realmente chamou minha atenção foi o rapaz de bicicleta que em ziguezague atravessou a pista.

- Filha da mãe! Pensei. Qual é a dele?

Mas logo pensei outra coisa:

Engraçado, nunca reparei que o guard-rail fosse vazado. E assim, quando passei me preocupei em olhar bem para ver se via o tal do rapaz.

Senti um frio na barriga, o guard-rail não era vazado.

- Não é possível! Exclamei em voz alta, enquanto tentava pelos espelhos localizar a bicicleta no acostamento.

Nada. Meus acompanhantes dentro do carro dormiam.

Não pode ser. Ainda pensei em algum retorno para poder parar e perguntar ao pessoal que trabalhava na pista. Mas não o fiz. Seria reconhecer minha loucura, temporária ou não.

Também pensei em guardar o acontecido só para mim. E novamente, não o fiz. E quando a noite contei fui motivo de gozação.

- Logo você? Tenha santa paciência.

Calei-me. Não tinha vontade de aquiescer. O rapaz atravessou a pista e eu senti medo da possibilidade de atropelá-lo.

Aquela foi uma noite agitada, de pesadelos e sustos. Onde quadros jarras e bicicletas cruzavam o meu dia.

Acordei cansada. Tudo e nada explicaria o acontecido. Quem sabe uma distração, o tal cansaço, a vontade de acreditar que o tempo se movimenta de maneiras diferentes no universo, ou ainda na possibilidade de que não sabemos tudo.

Sei lá, mas o cheiro do café, o sol da manhã, foram me acalmando. Ademais já era feriado, e a praia não podia esperar. Sendo assim, me fiz calada sobre o assunto. Mas quando na volta passei pela Trabalhadores, procurei insistentemente pelo rapaz que atravessou a pista.

maria izabel