Quando a magreza é fundamental

- Agora que ela está magra tudo fica bem, disse Regina

- Uai, antes não ficava? Ela nunca foi gorda.

Não sei, mas tive certeza que o olhar da Regina poderia ter matado Judith, autora da pergunta. Que jogou a frase no ar com maestria. Casualmente, como se não tivesse sido pensada. E ai o assunto tomou conta daquela mesa rodeada de mulheres que foram cumprimentar a amiga aniversariante.

Sempre que o assunto é magreza, o capítulo seguinte chama-se cirurgia plástica. Sem dúvida naquele dia não foi diferente. É que a amiga fazia aniversário na quinta feira que antecede o carnaval. Assim com feriados prolongados ficamos sabendo de três outras amigas, ausentes. Presentes em uma outra mesa. A de cirurgia. Duas acima dos 50 anos e uma com 32 que queria enxugar a barriga para a festa de um ano do filhote.

Como sempre, metade da platéia aplaude, a outra metade discorda. De tal modo, o assunto ganha cenários, produzidos nas caras de decepção - porque temos de nos aceitar, já não temos vinte anos. E caras de pleno gozo. – “É isso ai, o que deus não dá a farmácia fornece”.

Daí que a conversa prossegue e uma delas, já inflamada com o assunto comenta a grande diferença entre sexos:

- Os homens se separam e procuram companhia, a mulher se separa e procura o plástico.

Alguém argumentou com muita propriedade: -“Se ele for bonito...”.

Sem saber de que lado estava fiquei pensando nas minhas duas incompetências; - o medo e a falta de dinheiro. Só de imaginar a anestesia, a dor do depois, concordo plenamente que já não tenho vinte anos e ainda arrisco para mim mesma... Nem quero!

Quando penso em quanto custa uma cirurgia vejo que ela nem sempre é compatível com saldo bancário. Então, nunca vou poder sair do meu casamento. Por outro lado, se sair, porque não arriscar, como os homens, uma nova companhia? Talvez alguém da minha idade, que tenha sua barriguinha, celulite sei que vai ser difícil, mas um que tenha varizes e já não enxergue tão bem...

O fato é que nós mulheres não temos auto-estima retrucou Ângela. Outro dia eu estava em uma loja, já quase me desculpando com as vendedoras pela roupa não ter caído bem em mim. E claro, tinha até separado uma peça para levar, afinal a culpa era minha, quando de um provador saiu uma mulher realmente obesa com várias peças no braço. Sorriu para a vendedora e disse simplesmente:

- Olha, não vou levar nada, o corte das roupas é ruim, não ficam bem para mim. E saiu tranqüila e confortavelmente.

Só então me animo, entro na conversa e conto que na praia presto atenção às pessoas e vejo sempre os homens em pé observando. Estão sempre acompanhados. Gordinhos, magrinhos, barrigudos, sarados, novos, velhos, provavelmente alguns chatos, outros nem tanto, descolados, colados. Claro, retrucou Marisa, e de óculos escuros não é? Estão sempre de olho nas possibilidades. Se você olhar para o outro lado continuou ela, vai dar de cara com as mulheres, também de óculos, mas pra esconder e dificultar as rugas porque ao contrário deles estão sempre sentadas ou deitadas, em grupos de outras mulheres e comentando seus possíveis defeitos e o que farão assim que acabar as férias ou o feriado. -Vão procurar o médico.

- Sem dúvida vocês são muito malucas atalhou a filha de 17 anos da Ana. E ainda bem que não preciso fazer regime porque se precisasse eu simplesmente ia esperar engordar uns quinze quilos e iria direto para a cirurgia de redução de estômago. Jamais ia entrar nessa neura de vocês, de eterno regime e insatisfação.

Credo!?...Foi o que se ouviu de três ou quatro simultaneamente e não sei se com medo que o assunto saísse da simples conversa para argumentos mais delicados, Judith fez nova pergunta: - Vocês viram que a Suzana Vieira perdoou o garotão?

E feito conversa de botequim, tudo mudou rápido, mas eu ainda penso no assunto. O anterior, de plásticas e regimes. Qual a minha saída? Como não sei, tenho que contar com ajuda divina e escolho uma oração conhecida:

"Meu deus faça com que eu não coma.

Se comer, faça com que não engorde.

Se engordar, faça com que todas as minhas amigas engordem também."

Aliviada, e com um sorriso bem furtivo olho para a Marisa e peço mais uma fatia de bolo.

maria izabel