Quase sempre, outra mulher

Bem esticadinha diria que tenho 1,58. O sonho de ter pernas longas e magras foi resolvido em parte com o uso de saltos altos.

Quanto a serem magras...bem.

A garota magricela entrou na adolescência com alterações hormonais. Justamente na época em que a moda era a magreza profunda.

Caos total.

Como toda mulher da minha geração, sou muito bem resolvida. Não dou a mínima para a mídia. Passo os dias comendo chuchu, abobrinha, jiló porque gosto. E ando uma média de oito quilômetros. Afinal eu e um monte de mulheres não temos nada pra fazer no horário das seis as sete da manhã.

Minha relação com a balança é de amor e ódio.

A revolução sexual foi ótima. Inventaram o anticoncepcional. Para uso feminino, claro.

Qualquer mulher magricela vai dizer:

- Não há efeito colateral nenhum, meu médico garantiu que não engordam. E me olha com piedade.

- Que raiva!!

Uns dias bem femininos. Bem meus. Quando fico menstruada. Sei que posso criar um ser. Além de maravilhosa minha libido vai a mil.

Nestes dias meu olho fica....guloso. Desejo forte, bom, me sinto tão...tão....

Bem, engordantes ou não, os hormônios me permitiram permitir que minha barriga crescesse durante nove meses.

Delícia a gravidez!

Aí começam os conselhos:

- A partir de agora tem de comer bem. São dois para serem sustentados.

- Cuidado! Você está engordando muito, depois não consegue voltar.

E entre vontades e medos a ansiedade vai seguindo até o parto.

Pessoinha nascida, estranhando seu novo espaço, chora. E por vezes a noite toda.

Meu marido sempre me disse:

- Olha, não tenho jeito pra pegar criança no colo.

- Sabe que amanhã tenho de trabalhar cedo não é?

Sendo assim, e sabendo que a criaturinha quer o calor dos nossos braços e principalmente mamar – a noite se torna uma criança. E é muito bom, envolver essa pequenez. Cantar durante a madrugada, ouvir o silêncio da chuva que cai, o cachorro do vizinho que late. Os sons ficam distintos. A única coisa que eu desejava ao cair na cama era...dormir.

O interessante eram os comentários das minhas amigas que já eram mães:

- Nossa, meus nenês dormiam a noite toda.

- O meu filho nunca chorou.

Eu me sentia a própria adolescente, apesar de estar com 34 anos, que não sabia lidar com crianças...

Eu chorei muito nessa fase.Tinha medo que minha pequena ficasse doente. Recebia visitas o dia inteiro. Todo mundo gentil, mas todo mundo tinha um palpite. E eu perdida de palpitações. Imagine só.

Manhã seguinte chova/faça sol, tenha dormido ou não, o dia recomeçava. Roupinhas pra lavar, passar, comida a ser feita. Então, lá vamos nós. Com cacófato e tudo.

Para o bebê a comida está prontinha, nos seios. E, provavelmente, nesse período alguém abasteceu a despensa e a geladeira Ou uma mãe, uma tia, uma amiga, uma vizinha.(quase sempre outra mulher). No meu caso, foi uma vizinha.

Mas passado esse período de umas três semanas no máximo, temos de deixar a boa vida de lado, pegar o bebê e dar uma passada no supermercado.

Se você trabalha fora, em quatro meses acabou-se a “folga”. Se tiver condições vai ter de pagar uma escolinha que aceitem bebês, se não tiver, ou vai deixar com sua ajudanta, ou então pedir a sua mãe. Afinal sua mãe não faz nada, fica em casa o dia todo. Algumas mães, megeras, alegam:

- Olha, hoje eu fico, mas não posso me comprometer sempre.

Outras, abnegadas, ficam com os netos. E você deixa e comenta com as amigas:

- Vou deixar com minha mãe, assim ela se distrai um pouco. Fica o dia inteiro em casa sem ter o que fazer.

No caso de sua mãe morar em outra cidade, vai ter de apelar para a sogra. Pronto, começou a confusão.

Sabe, sogra, é sogra.

Se ela não ficar com o bebê é porque tem ciúme. Afinal quem roubou o filho dela? Se ela aceitar, vai criticar a maneira que você está criando.

Eu vejo na praia no período de férias, um monte de avós com os netos, até olho pra ver se encontro as mães. Não. Elas estão no trabalho. Afinal que é isso de mulher não trabalhar? Ficar em casa é coisa de mulher ultrapassada. Submissa. Incapaz de ganhar seu próprio dinheiro. Ela tem de se sustentar sim.

Bem, volta-se ao trabalho, escola/mãe/sogra. O bebê está encaminhado. (Quase sempre outra mulher)

À noite em casa, com o bebê no colo, preparar, ou degelar alguma coisa para se jantar. Todos têm fome.

Criança cresce. Escolas só meio período, e o período restante recheado de aulas de natação/inglês, sem falar no ortodontista e por vezes uma fono.

Bem, sua ajudanta, sua mãe, sua sogra, ou aquela amiga que fica em casa vai ter de quebrar o galho. (Quase sempre outra mulher). Neste meio tempo, a libido saiu pra dar uma volta?

Bem, as mulheres são irritadiças, por conta dos hormônios que citei lá em cima, mas hoje em dia está bem explicado, é só falar TPM...todos entendem. Já vi muitas, assim, irritadiças, que só pensam naquilo, que acabam escrevendo poemas, pintando quadros, escrevendo histórias, falando dos sonhos.

Algumas mulheres, casadas arranjam um caso, quero dizer, um amante. Que horror!

- Como uma mãe pode fazer uma coisa destas? Casada, com filhos, como tem coragem?

Algumas mantêm o casamento até o final da vida.

- Uma coitada, vidinha insossa.

Se separar:

-Tava na cara. Não tem paciência nenhuma. Não sabe cozinhar, não sabe fazer nada.

Enfim a menopausa. E agora sem os hormônios? Simples, tudo vira gordura. Claro, com a idade você ficou relaxada mesmo.(Quase sempre uma mulher que comenta)

A ciência então proclama, a reposição hormonal mantém a mulher sexualmente ativa e faz bem. Não, a reposição hormonal é perigosa pode trazer outras doenças.

Enquanto isso meu humor oscila, minha gordura também, minha libido quer se satisfazer. Os filhos crescidos me acham ultrapassada, mas ao primeiro susto/medo/indecisão, o grito se houve:

– Mãããããããe.

A grande vantagem de ser mulher é que sempre que se precisa... há uma outra mulher por perto.

 

maria izabel