Rabiscos

De fato o combinado é muito simples. Aula uma vez por semana onde cada aluno apresenta uma crônica, ao seu pequeno e crítico público, elaborada a partir de algum dos inúmeros temas sugeridos pelo professor.

Sempre me foi prazeroso escrever e levar para a apreciação de todos. Mas, de uns tempos para cá, não consigo. As idéias se acumulam e meu olhar nas ruas se perde em possíveis temas:

- Olhares espantados, nervosos; cães, gatos; ruas estreitas e largas, este estranho inverno, o cheiro do jasmim.

E não consigo escrever uma história completa. Apenas pinceladas, traços de crônicas. Nunca imaginei que a escrita pudesse ter uma fase impressionista. Então junto borrões, rabiscos, que até sugerem uma visão do cotidiano, mas que não se transformam em uma história por inteiro.

Assim, preocupada com a possível ausência de alguma energia em mim, sentei-me pra tentar novamente escrever. Quem sabe me obrigo de algum rabisco começado, criar, elaborar um texto completo. Mas o bafo morno do vento seguido de um tilintar de cristais me alcançou antes que eu digitasse qualquer letra.

-Sinos de vento? Quem por aqui tem um sino de vento?

Rapidamente fui pra janela tentando me afastar da obrigação, com a desculpa de localizar com os olhos e ouvidos a origem do som. O fato é que o vento espalhava de forma abafada o tilintar e até onde aquela janela podia alcançar nada vi.

De volta para a crônica fiquei pensando que na semana passada, fui à aula sem ter ido, porque não ter uma história para ler é como não estar presente. As histórias, as minhas, ultimamente não se acumulam em papéis, apenas fazem traços na imaginação. Será que se eu fosse capaz de escrever no papel com um lápis bem macio, as histórias se completariam mais rapidamente, saindo então de mim?

Mas, quanto a isso nada posso fazer, me falta intimidade com papel e lápis, o tal do risca, apaga, rasura. Por outro lado, o uso do computador é tão recente que talvez nem as palavras se sintam tranqüilas e confiantes ao serem colocadas ali. Se negando ao meu pensar.

Novamente escuto os sinos... Quem coloca um sino destes na janela ou porta? Só pode ser alguém alternativo. Cheio de fé no inconsciente, que crê que um pequeno sino de vento possa imprimir e corrigir um fluxo rítmico dentro de suas vidas. Também penso em pessoas ou muito novas, crédulas, ou muito maduras que se renderam ao inexorável.

Mas meu problema tem outro ritmo. Ritmo de frases. Assim procuro ajuda pelas gavetas. Papel e lápis. Tudo inútil. Em pouco tempo, me distraio e rabisco linhas e flores no papel. Não sei escrever. Então, volto ao computador. O vento bate e os sons me chamam para a janela.

Quem sabe sinos seja o jeito que dois amantes encontraram para se comunicar?

Uma forma de um contar ao outro no tilintar delicado que a paixão é leve e tranqüila no vento.

Ainda me debruço na janela tentando imaginar quem. Quem poderia estar apaixonado assim?

O som parece perdido, abafado. Amores proibidos? Do passado? Não, quem sabe, os sinos estão confinados dentro de uma porta interna? Alguém estaria tentando uma reconciliação, o renascer de um amor adormecido ou extinto? Ou simplesmente acordar os deuses.

Não vejo nada e o barulho contínuo do computador ligado me chama. E quando retomo minha fase impressionista recordo dos jasmins no parque pela manhã. Das pessoas em grupo e solitárias que passam e repassam pelos caminhos. Quem sabe se eu falasse destas manhãs. Do cheiro, das cores, as árvores revestidas para a primavera. Pernas ágeis em busca de muitas trilhas... Mas o sino continua em som de cristal no seu solitário espetáculo.

Por hoje desisto. Oxalá eu também tivesse um sino que renovasse energias.

maria izabel