Reflexos

Na mesa de centro, o vaso de cristal. Antigo, precioso. Frágil!

A luz que ele reflete enche o teto de pequenos prismas coloridos. Estrelas no dia!

Mary, com suas mãos pequeninas, o gira lentamente, olha para cima, e sorri.

- Mãe, quer brincar?

Num instante a ergo do chão, e agora nós duas somos um alegre carrossel. Os chinelos voam pela sala. Observo o teto.

Quanta cor neste cristal ainda não lapidado.

A avó, sentada próxima à mesa, olha com ternura. Ao mesmo tempo se preocupa:

- Vocês vão acabar acertando o vaso e se cortando.

- Num tem perigo vó, quer rodar também?

Ela sorri e esconde-se atrás da revista que está folheando.

No centro de minha família, o último laço de avó que nos restou, dona Mariana.

Cristal antigo. Precioso. Forte! Frágil!

Tem sotaque arrastado.Veio seguindo o marido, trazendo seus filhos, fugindo da ditadura em seu país.

Nova nos seus 32 anos, deixou uma vida estável pela sobrevivência digna.

E sobreviveu. Sobreviveram.Experimentaram o recomeço. Recomeçaram.

O vaso...veio com ela.

Imigrantes, seu primeiro destino foi São Paulo. Distante da família, ela trabalhou no balcão ao lado do marido e cuidou dos filhos. Tímida, vivia para os seus. O marido não parava em casa. Fazia as compras, as entregas, e assim fez amigos.

E ela - eu imagino, empoeirada, ocultando seu brilho. Poeira de farinhas? Poeira de estrelas?

Os sonhos sempre deixam rastros... O cristal do meu vaso, nem sempre reflete. É o pó. A poluição. O descaso com que às vezes o trato. Quando lembro, volto os cuidados, e ele volta a refletir.

- Sabe filha - diz ela, desistindo da revista, gosto muito de ver vocês brincando. Lembra-me minha casa, minha mãe. Nossa vida lá na minha terra era de muito trabalho, mas boa, farta, feliz. Todos ajudavam. Eu tinha família e amigos.

Eu observo seu rosto ranhurado, ela continua contando...

- O começo de vida aqui foi muito difícil. Sentia muita saudade dos meus pais e irmãs. Me fechava no quarto e chorava. Mas sempre soube que meu lugar era junto do meu marido e de meus filhos.

O meu olhar se perde nas rugas do vaso. O que as provoca? Que trabalho duro, implacável. Ao mesmo tempo... tão delicado.

A mão, como deve ser, para esse trabalho? Para que a lapidação seja assim, tão...tão precisa? Forte para segurar, delicada pra não quebrar. Uma batida de mais ou de menos e... lá se foi a peça toda.

- Gosto muito de falar do ontem, da vida que vivi, nestas horas a idéia flui, não me esqueço de quase nada.

Através do vaso, eu a enxergo parcialmente. Engraçado! De tão lapidado reflete a luz, mas não a imagem na sua totalidade. O restante da imagem se oculta onde? Onde a luz a apaga? Ou onde a sombra acende?

Respondo com ar de brincadeira:

- Eu sempre disse que você é rabugenta.

- Ah! Das coisas de antes eu me lembro bem. O problema, filha, é o agora.

Tomo a revista de seu colo e finjo folhear. Não quero que ela saiba que esse agora me preocupa muito. Anda esquecida.

- Por que não vem morar conosco?

Delicada, mas firme como sempre, se negou. Aprendeu a dizer não.

O vaso, eu coloco em qualquer lugar, ou com as flores que mais me agradam, sem perguntar se ele também quer.

Cristal sim, vaso jamais ela será.

- Sabe filha, em casa conheço os caminhos. Todos eles. E meus fantasmas também me reconhecem...brinca ela. Quando acordo no meio da noite, sei onde estou. Gosto que seja assim.

Com os olhos próximos ao dela, deposito o vaso sobre a mesa e percebo. Percebo as várias faces do cristal, redondo, ranhurado, enrugado, sem lados, precioso pelos anos que tem, pelo lapidar que o tornou frágil, forte. Mas antes de tudo por refletir estranhos sentimentos e sensações.

Calei-me. Mas fiquei pensando no tempo. Sim, no tempo da demora. No tempo da perfeição. No tempo dos cristais.

Após o almoço, Mary e uma amiguinha brincando derrubaram o vaso que se fez em muitos pedaços. Corremos para a sala. As crianças estavam bem, ninguém se machucou.

Segurei a mão de dona Mariana, ela sorriu e chamou a neta. O vaso quebrado ainda reproduzia, e agora em maior quantidade, a luz.

Maravilhadas, acabamos nos sentando no chão para observar encantadas os muitos pedaços do cristal se refletindo pelo chão, paredes, teto, e até nos cabelos branquinhos daquela avó.
 

maria izabel